Ela o conhecia desde que se entendia por gente, e isso nem podia ser interpretado como uma mera força de expressão. Ele sempre estivera presente em datas importantes, era amigo de seu pai e sua mãe antes mesmo da segunda guerra contra as forças de Sauron ter sido travada, e sempre trazia uma história mágica - quer fosse recente ou não - para contar a cada visita que ele fazia à cidade Branca.
No início, Niphredil o via como um tio, que percorria o mundo em busca de aventuras, um amigo e padrinho com quem sempre poderia contar, apesar da distância. Mas com o passar dos anos, a visão e o tipo de afeição que nutria por ele havia mudado.
Não havia sido de uma hora para outra, mas gradativamente, com cada sorriso compartilhado, cada passeio pelas ruelas pavimentadas com pedrinhas de um cinza claro, e em cada dança em que ele a conduzira com leveza.
Fora em cada um desses pequenos gestos, e na soma de todos eles, que a princesa de Gondor se descobrira apaixonada por Legolas, o elfo de cabelos e olhos claros como o luar, que lutara ao lado de seu pai há tantos anos. Fora dessa maneira que ela se descobrira perdida, amando alguém que julgava impossível amá-la da mesma forma. Afinal, o elfo ainda a tratava como a garotinha que ele carregara no colo e para quem ensinara os nomes das constelações mais brilhantes no céu da Terra Média.
Numa noite como várias outras, Elanor, sua irmã gêmea - e sua total oposta, tanto na aparência quanto no temperamento -, surgira em seus aposentos, trazendo consigo uma única flor branca. E ao deixá-la no vaso ao lado de sua cama, disse-lhe que deveria seguir o exemplo da pequena planta e florescer, mesmo em meios às pedras.
Niphredil passara o resto da noite pensando nas palavras da irmã, questionando-se sobre o que elas significariam na realidade. E a mínima possibilidade de Elanor ter percebido seus sentimentos fazia a morena suar frio.
Na manhã seguinte, a princesa foi surpreendida pela irmã mais uma vez. No momento em que Niphredil abrira os olhos de um azul mais claro do que o céu da alvorada, Elanor pulou para o seu lado na cama, os olhos verdes como pedras preciosas brilhando de excitação.
- Ele está aqui - foi tudo que ela disse, beijando o rosto da irmã antes de sair saltitando do quarto.
Num misto de animação e nervosismo, a garota de pele pálida e longos cabelos negros deixou a cama. Em poucos minutos, estava pronta para se apresentar no grande salão: vestira um dos belos vestidos que Legolas lhe trouxera de presente e prendera algumas mechas de cabelo em uma delicada trança. Por fim, prendera o delicado colar que o pai lhe dera no dia em que ela nascera e deixou seus aposentos, sentindo como se várias borboletas revirassem seu estômago.
Apenas quando já estava às portas do grande salão foi que a garota parou para pensar no que estava fazendo. Permaneceu imóvel por algum tempo, com as mãos a poucos centímetros das maçanetas douradas, até que foi surpreendida por um leve toque em seu ombro.
- O que faz parada aqui, minha princesa? - Arwen questionou, sorrindo afetuosamente para a filha mais nova.
- Eu... Eu... - a garota tentou explicar, baixando o olhar para os desenhos ornamentados do piso do palácio.
- Está ansiosa querida, e isso é perfeitamente normal.
- Não estou nervosa, nem ansiosa... A senhora e Elanor poderiam parar de ver coisas que não existem, sabia? Eu agradeceria muitíssimo! - a garota respondeu com um biquinho emburrado, voltando-se novamente para as grandes portas e finalmente adentrando o salão.
Ao erguer novamente o olhar, Niphredil deparou-se com os olhos claros e o sorriso caloroso de Legolas, que estava de pé ao lado de Aragorn e seu irmão Eldarion. Sem nem ao menos se dar conta, ela já estava sorrindo em resposta, e segundos depois, a garota já o abraçava apertado, sentindo os braços dele a envolvendo com carinho.
- Minha princesa - diz Legolas, beijando-a demoradamente no rosto em seguida. - Está simplesmente radiante, menina estrela! Cada nascer do Sol a deixa ainda mais bela.
- Obrigada - Niphredil responde, sentindo o rosto enrubescer. - Você também está encantador - completa, sentindo-se tola por dizer algo tão vago.
E como que para livrá-la daquela situação, Elanor surgiu como um pequeno furacão de cabelos castanhos e sorriso largo, logo dando as boas vindas ao elfo também.
- Legolas! - ela exclama, abraçando-o. - Bom tê-lo outra vez na cidade Branca, seja bem vindo!
- Obrigado, aprendiz de arqueira - ele responde em um tom divertido. Sabia perfeitamente o quanto Elanor odiava ser chamada de "aprendiz".
- Só não vou responder como o senhor merece porque estamos na presença do Rei de Gondor - diz ela, empinando o nariz. - Agora, se não se importa, vou roubar minha irmã por alguns minutos - completa, virando o rosto de modo teatral e puxando Niphredil consigo para fora do salão.
- O que está fazendo? - a moça de cabelos negros indaga, encarando a irmã com uma expressão confusa.
- Salvando você de corar feito uma maçã vermelha, ué! E a propósito, de nada irmãzinha...
- Então meus sentimentos são assim tão óbvios? Me sinto tão tola! - a caçula murmura, sem nem mesmo encarar Elanor, sentando-se no banco de pedra mais próximo.
- Não precisa se martirizar - a outra tenta animá-la, sentando-se ao seu lado e tomando as mãos dela nas suas.
- Não preciso? Legolas deve estar rindo de mim há uma altura dessas, pensando o quanto sou boba e infantil por agir feito uma adolescente apaixonada!
- Ah, Niphredil... Você não entendeu ainda, não é? - diz Elanor com um sorriso gentil, que lembrava muito o sorriso de Aragorn.
- Não entendi o quê?
- O jeito que Legolas olha pra você, irmã! Há adoração no olhar dele, algo totalmente diferente do que havia quando éramos meninas. Acho que ele corresponde aos seus sentimentos - a garota dos olhos cor de jade responde, sussurrando a última frase como quem compartilha um grande segredo.
- Isso... Isso é possível? - Niphredil indaga baixinho. - E mesmo que ele gostasse de mim, eu sou apenas mortal, e ele é um elfo! Jamais pediria para que Legolas abrisse mão da imortalidade.
- Talvez não precise... Além disso, não é você quem precisa decidir, irmãzinha - Elanor responde. - Cabe a Legolas a escolha entre o amor e a eternidade - a princesa de Gondor continua. - Além do mais, somos filhas de uma elfa, mais lôngevas do que qualquer outro mortal na Terra Média! Ele vai ter algum tempo pra se decidir - completa com uma risada, colocando-se de pé e puxando Niphredil consigo.
**************
Após o café da manhã no grande salão, Niphredil pediu licença a todos e dirigiu-se ao seu jardim preferido, que ficava próximo à grande biblioteca do rei. Aquele sempre fora o refúgio da garota, fosse qual fosse a questão que estivesse lhe tirando o sossego, e o perfume das flores tinha o poder de acalmá-la, como a mais suave melodia dedilhada numa harpa.
Apenas alguns minutos haviam se passado quando um leve toque sobressaltou a princesa, fazendo-a voltar-se rapidamente.
- Elanor, por fav… - mas a frase morreu em seus lábios, pois não era a irmã que se encontrava ali, e sim o elfo loiro que habitava seus pensamentos.
- Minha aprendiz anda lhe importunando, minha bela senhora? - ele indaga com um sorriso, tomando as mãos dela nas suas.
- Não mais do que o normal - a morena responde, ainda surpresa. - Além disso, sabe muito bem que minha irmã é uma arqueira tão boa quanto você! - completa, sorrindo ao imaginar Elanor fazendo um beicinho emburrado ao ser chamada de aprendiz mais uma vez.
- Velhos hábitos nunca desaparecem - diz Legolas, liberando uma das mãos de Niphredil para ajeitar uma mecha de seus cabelos escuros. - Já outros podem mudar com o passar do tempo, conforme os sentimentos vão evoluindo - o elfo sussurra, aproximando-se mais da princesa.
- E o que um guerreiro saberia sobre a evolução de um sentimento? - a garota questiona, sentindo a respiração do elfo tocando seu rosto.
- Alguém como eu aprende algumas coisas com o passar dos séculos, minha princesa. Acredito que eu saiba diferenciar o amor de irmão que sinto por Elanor e Eldarion, do sentimento que tenho por você Niphredil, princesa de Gondor, filha de estrelas… Minha Estrela Branca.
- Legolas… - foi a única resposta de Niphredil àquela declaração, pois no instante seguinte o elfo unira seus lábios aos dela num beijo terno e puro, que pareceu apagar todo o mundo ao redor deles.
De início, a morena nem soube bem como reagir, pois a simples sensação de ter os braços do loiro ao redor de seu corpo fazia com que ela se sentisse levitando. Mas logo a garota se viu correspondendo, envolvendo os ombros de Legolas num abraço, enquanto embriagava-se em seu perfume tão característico.
- Por que fez isso? - ela indaga sem encará-lo, quando eles enfim se afastaram. - Por que, Legolas?
- Porque era isso que eu precisava fazer. Não havia mais como adiar um pedido tão intenso do meu coração.
- Mas... Mas... Eu sou apenas uma garota, da raça dos homens... E você é um elfo! O que eu teria para oferecer a você?
- Apenas aquilo que eu busquei por todo esse tempo, Niphredil! Meu coração estava esperando por você.
Àquela altura, a morena já estava com o rosto banhado de lágrimas, as quais o elfo se dispôs a apanhar uma a uma, como se fossem pequenas joias preciosas.
O silêncio no jardim se prolongou por algum tempo, envolto pelo suave perfume das flores. A princesa ainda mantinha seu olhar baixo, e o elfo mantinha-se junto dela, aguardando o tempo que fosse necessário.
- Você tem o meu amor - disse ela, quebrando por fim o silêncio e mergulhando sem medo no mar azul do olhar de Legolas. -
Haryalyê melmenya!
-
Antan órenya tyenna - sussurrou ele em resposta, na língua de seu povo, com um sorriso luminoso. - Eu te dou meu coração, princesa de Gondor! - completa, envolvendo o rosto de Niphredil delicadamente com ambas as mãos, para só então depositar um beijo suave nos lábios dela.
********
Agora, meses após essa primeira declaração e uma cerimônia grandiosa para celebrar a união de Niphredil e Legolas, a filha caçula do Rei de Gondor preparava-se para deixar a cidade Branca rumo ao vale élfico de Vanfenda, antiga morada de seu avô Elrond. Seria ali, naquele lugar de contos de fadas, que a morena daria início à eternidade junto do elfo.
Eternidade conquistada semanas antes, quando o elfo entregara à noiva, como presente de casamento, o colar élfico que pertencera à sua mãe, a joia que preservara a imortalidade da senhora Priyla, e que agora envolvia o pescoço de Niphredil, acentuando tudo o que a garota herdara do povo de sua mãe.
- Está quase terminando, minha querida? - Arwen indaga, ao adentrar o aposento que sempre pertenceria à filha.
- Tenho a nítida impressão de que estou esquecendo algo - ela murmura em resposta, abraçando a mãe pela cintura.
- É claro que está esquecendo-se de algo! - exclama Elanor, entrando como o pequeno tufão que sempre fora. - Eu não estarei com você - completa, com um beicinho.
- Ah, Elanor... - a garota de cabelos negros sussurra, puxando a irmã para um abraço apertado. - Pode vir nos visitar quando quiser, sabe disso!
- E atrapalhar a vida de recém casada da herdeira e protetora de Valfenda? Tenho minhas dúvidas - ela responde, passando as costas da mão pela bochecha para aparar uma lágrima teimosa que conseguira escapar.
- Também sentirei sua falta, irmãzinha! - diz Niphredil, beijando carinhosamente a testa de Elanor em seguida. - Agora vamos, ainda tenho muitos de quem me despedir - completa, arrastando mãe e irmã consigo para fora do quarto.
*********
A noite já caía e as estrelas já davam a graça de sua ilustre presença, tornando a noite da Terra Média um espetáculo de encher os olhos, quando os recém casados deixaram as muralhas de Gondor para trás.
Lá em cima, no grande pátio de pedra do palácio, Elanor observava as sombras da irmã e do agora cunhado sumindo aos poucos, abraçada a Eldarion, que afagava os cabelos da garota enquanto cantarolava uma antiga canção de ninar, na tentativa de confortá-la de alguma maneira.
E já distante dali, na imensa campina que se estendia por várias milhas além das muralhas da cidade Branca, a princesa caçula de Gondor sentia-se, ao mesmo tempo, incrivelmente completa e dolorosamente partida. Completa por estar junto de Legolas, o dono de seu coração; e em pedaços por estar deixando a família para trás, mesmo que pudesse revê-los sempre que quisesse.
- Está tudo bem, luz dos meus dias? - indaga o elfo, tomando uma das mãos da esposa na sua, enquanto cavalgavam calmamente sob o brilho de uma lua pálida.
- Não poderia desejar nada melhor, meu céu e estrelas! – Niphredil responde com um sorriso luminoso, antes de esporear o grande cavalo branco em que estava montada e sair em disparada rumo à eternidade.
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