Eu ainda
encarava a porta do taxi, recém fechada por mim, quando disse meu destino ao
taxista. No instante seguinte, me encostei ao banco e estava a um passo de
suspirar em satisfação quando um risinho “doce” chamou minha atenção para o
assoalho.
“Buu!” a
pequena mostrinha Watson gritou ao pular com as mãozinhas em forma de garras
felinas em minha direção. “Te peguei tio Sherly!”
Eu estava
a ponto de demonstrar minha imensa insatisfação, quando percebo o próprio
taxista nos olhando pelo retrovisor e rindo com aquela monstrinha.
“Ah senhor
Holmes, sua sobrinha sabe mesmo todos os seus passos. Acredita que a danadinha
me pegou na padaria e pediu para que eu o esperasse? Eu duvidei a princípio,
mas não é que ela tinha razão?”
Eu sorri
amarelo com aquela empolgação, me sentindo o pior dos otários, o ser mais
desprovido de massa cefálica na face da Terra. Como pude, hein? Como eu pude me
deixar levar contra minha principal precaução, não? Como pude cair na besteira
de pegar logo o primeiro táxi, correndo contra tudo o que eu mesmo ensinara
tanto a John...
Apenas uma
coisa ficou extremamente clara em minha cabeça naquele momento: erros bobos são
mesmo cometidos em medidas impensadas de desespero... Eu havia acabado de me
tornar um ser comum naquele instante e, se não fosse a minha decepção interior,
eu teria dado meia volta e largado aquela garota na rua Baker, esperando que a
senhora Hudson a recolhesse e lhe entretece.
Mas, com
certeza, livrar-se daquele pequenino ser loiro de risada fácil e olhos
curiosos, não seria a mais fácil das tarefas. Olhei para Emma, que estava me
encarando com um ar que tentava ser sério e me perguntei mentalmente: qual
seria o preço daquele silêncio?
Antes
mesmo que eu pudesse fazer uma oferta, ela baixou a voz e me acusou.
“Você agiu
muito mau tio Sherly” e era possível ver que havia muito mais de Mary ali do
que de John, quando ela seguiu sua frase ameaçadora. “Meu papai ficaria muito
zangado com o senhor”.
Segurei
seu dedinho indicador, que estava sendo apontado para mim e balançava
furiosamente, e tentei me defender.
“John sabe
bem que quando um caso de suma importância me chama, eu não tardo, minha
cara...”
“Sei...”
ela disse puxando o dedidinho e levando suas mãozinhas a cintura, enquanto
estreitava os olhos. “Mas a minha mamãe, com certeza, não iria gostar. Você nem
ao menos se deu ao trabalho de conferir se eu estava dentro da casa, não é?”
Mentir?
Hmm... a hipótese me ocorreu, é claro, mas a senhora Watson era bem mais
esperta que o marido em muitos pontos (sinto muito John, são os fatos!); mas
como eu digo: para tudo nessa vida há uma saída, basta se pensar um pouquinho
ou...se fazer de desentendido, que tal?
Dei de
ombros e encarei a janela ao lado, com a minha maior cara de “grande pensador
que não pode ser interrompido”. Percebi quando Emma ficou de pezinho no banco e
iria puxar meu cachecol, mas o taxista a repreendeu apenas encarando-a pelo
retrovisor.
“Menininha,
menininha, o senhor Holmes está ocupado. Melhor não atrapalhá-lo”, santo homem,
merecia até uma generosa gorjeta. “Deixaremos ele onde desejar e eu a levo de
volta para casa em cortesia”, uma não, duas! Eu lhe daria uma mala de dinheiro,
meu senhor, se pudesse segurar essa monstrinha longe de mim!
Eu estava
quase pulado mentalmente quando um pigarrear, do lado que Emma não estava
sentada, me chamou a atenção. Era John ali, mesmo que de fato ele não pudesse
estar ali.
“Deveria
se envergonhar”, ele disse de cara amarrada e com os braços cruzados... Tal pai,
tal filha... “O consultor de detetives de Londres que eu conheci no passado era
muito mais esperto”.
Cocei
minha cabeça, pronto para fazer uma pergunta absurda a John, quando percebi que
os olhinhos de Emma estava lacrimejando.
“Pensei
que o titio Sherly gostasse de mim...”, eu podia fazer um milhão de coisas como
coçar os cabelos daquela pequena dama, pedir para que não chorasse, fingir que
não ouvi ou até mesmo comemorar, mas minha atenção estava toda voltada ao John
(ou o que eu achava que deveria ser ele) naquele exato momento.
Eu estava
quase dando o braço a torcer e perguntando “o que diabos você quer dizer,
Watson?”, quando ele pareceu ler minha mente e apontar com o queixo para
frente, ainda em sua pose de braços cruzados.
“Na nossa
primeira excursão você me disse o perigo que um taxista podia ser. Homens sem
rosto, a cima de qualquer suspeita, vagando livremente por aí. Ceifadores de
vidas, enganadores, perigos ambulantes... E, não, recuso-me a acreditar que
você deixaria a minha filha a mercê de qualquer um desses. Esse não é o grande
detetive consultor com que me deparei anos atrás”.
As
palavras de John me caíram como um piano metafórico atirado do vigésimo andar
em meu corpo inerte na calçada. John, claro, não estava ali, mas ele era a imagem
de minha consciência, a mais tempo do que eu podia me lembrar ou quisesse
admitir, e um nó em minha garganta me atingiu em cheio.
Eu não
poderia deixar aquela garotinha desamparada na rua. Por mais que ela tivesse
destruído o meu lindo violino de colecionador (ao qual eu repito interiormente:
John ou Mary nunca teriam dinheiro na vida para pagar por outro, nem se eles
vendessem segredos sujos da realeza como o falecido Magnussem).
“...Eu vou
voltar para sua casa” a pequenina disse fungando, eu nem havia percebido que
ela estava falando enquanto ouvia John, mas ela não pareceu notar meu
desinteresse. “Vou esperar meus pais e dizer que dormi depois do chá e não te
vi sair titio Sherly. Não quero que eles briguem com você”, e aquelas palavras
finais atingiram meu coração como facas... Eu havia ignorado-a, tratado aquela
criança mal, e ela estava me protegendo de uma bronca (que eu mereceria, com
certeza).
Eu poderia
me arrepender amargamente depois, mas não tiraria os olhos de Emma por
hora. Até porque, o caso já estava
resolvido, eu só precisava formalizar os resultados aquela garota paranoica e
tudo bem. Mas, para não perder a corrida, disse ao taxista o endereço de onde
nos levaria.
Emma ainda
fungava encolhida no cantinho do banco quando paramos, o taxista recebeu meu
dinheiro e parecia mesmo disposto a dar meia volta e levá-la para minha casa,
mas eu peguei sua mãozinha e a chamei.
“Vai
perder toda a investigação se ficar no táxi, pequena Watson. Vamos,
investigação é um trabalho de campo!”
Seus olhinhos
se iluminaram e ela saltou do veículo sorridente, me lembrava a empolgação do
pai em tantos momentos. Bem, quem sabe, remotamente falando, eu não possa
acabar por não me arrepender dessa decisão, não?
Por favor,
Mary, se você for o diabinho em minha mente, faça o favor de ficar quietinha,
afinal a garota é sua filha também e eu sou uma pessoa fortemente convencível
por sua própria consciência.




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