Uma noite de sono deveria servir para que você pudesse se desligar por algumas horas dos problemas e das dores do mundo real, mas para mim, essa era uma regra que não se aplicava há alguns anos. Não havia um dia, ou uma noite sequer, em que eu não o visse sorrindo pra mim, dizendo que me amava e que sempre estaria ao meu lado.
Apenas uma mentira, que me perseguia desde que Sam partira e me deixara sozinha, sem o conforto do seu abraço e o estalar de seus beijos em minhas bochechas. Não havia mais histórias antes de dormir ou brincadeiras e sorvetes no parque ao fim da tarde.
Okay, a parte de “ser deixada sozinha” não era bem verdade, pois ainda tinha minhas irmãs, pai e mãe, mas nenhum deles podia preencher o vazio que a morte de meu tio havia deixado em meu peito.
Era Sam que me erguia nos braços e girava comigo pela cozinha quando chegava em casa à noite, depois do trabalho; era ele que me colocava na cama e nunca esquecia de me dar minha pelúcia preferida com a qual dormia todas as noites, depois me cobria e dava um beijo em minha testa antes de deixar o quarto; era meu tio que me socorria quando eu tinha pesadelos e que deitava ao meu lado até que me acalmasse, dizendo que sempre me protegeria...
Mas eu havia perdido tudo isso no dia em que Sam fora arrancado de mim: meu tio favorito, meu melhor amigo e a pessoa que eu mais amava no mundo, deixando apenas um buraco profundo e escuro em que eu mergulhava sempre que me sentia fraca demais para continuar, rodeada pelos ecos de minha dor.
Agora você deve estar se perguntando: como foi que eu o perdi?
Um acidente levou Sam de mim, e o que deveria ser um passeio divertido no bondinho que passava pelas ruas mais antigas da cidade, terminou em aço retorcido, pessoas clamando por ajuda, lágrimas e sangue...
Meu tio havia me envolvido em seus braços na tentativa de me proteger, e o impacto maior da nossa queda - quando o bondinho descarrilou e tombou, atingindo ainda mais alguns pedestres próximos – recaiu todo sobre Sam. Enquanto eu saí do acidente com um pulso torcido e alguns arranhões, ele sofrera um traumatismo craniano, que acabou por evoluir para uma hemorragia e o levou para sempre.
E nessa última noite, como em muitas outras antes dela, eu sonhei com Sam. Eu voltara a ter apenas seis anos e tinha meu tio de volta, mesmo que por um curto período de tempo. Mas eu estava feliz demais para me preocupar com detalhes, e só queria aproveitar ao máximo a companhia dele.
Voltei a ter seus braços ao meu redor, num abraço apertado e carregado de saudade. Meus olhos se encheram de lágrimas quando o ouvi me chamando mais uma vez de “Mandy”, como só ele sabia fazer, enquanto me inebriava com seu perfume, do qual eu sentira tanta falta.
Sentamos mais uma vez em minha cama, enquanto ele me contava histórias e afagava meus cabelos. Também me contou o quando sentiu saudades minhas, e como partia o seu coração saber que eu ainda sofria por ele. Mas em nenhum momento ele me reprovou, pois, em suas palavras “eu sentiria o mesmo em seu lugar, Amanda, como se faltasse uma parte de mim”.
Depois, caminhamos de mãos dadas pelo corredor vazio e escuro até seu antigo quarto, onde as coisas permaneciam exatamente como Sam havia deixado – um pedido meu, é claro. Sentamos juntos em sua antiga cama, e em seu rosto pude ver a mesma tristeza que sentia dentro de meu coração.
Deitamos abraçados e choramos por um longo tempo, relembrando dias que ficariam para sempre em nossas memórias, ou só nas minhas, não sei dizer com precisão... Mas o tempo de que dispúnhamos chegava ao fim, e eu já sentia meu peito transbordar de dor.
Num sussurro suave, tio Sam me pediu para fechar os olhos, e mesmo sabendo o que viria a seguir, eu fiz o que ele me pediu. Pude sentir seus dedos passeando por meu rosto, secando minhas lágrimas, enquanto ele depositava um último beijo em minha testa.
Por fim, com um sussurrado “amo você, Mandy”, voltei a abrir os olhos, me deparando com um mundo escuro e distorcido pelas lágrimas que ainda rolavam de meu rosto para o travesseiro.
Ali estava eu, de volta aos meus dezesseis anos, chorando sozinha em meu quarto escuro, envolta por uma saudade sufocante e sentindo meu coração se partir em mil pedaços mais uma vez...


2 comentários:
Que triste...
Dai na sua primeira original você mata o cara? Isso é muita convivência com a minha pessoa (essa coisa de matar personagens e tal, ehhehe).
Pobre Amanda....
Eu imagino o como ela deve sofrer pelo tio Sam eternamente...
Achei a one tão fofinha, gostei de tudo, da capinha a escrita e ainda dei uma fungadinha aqui, sua má!
Beijinhos!!!
Alice:
Eu juro que eu não quis matar o pobrezinho, poxa! Foi culpa do sonho, que me fez chorar horrores e acordar angustiada. Só transferi tudo pra uma oneshot...
Tipo... Amanda era eu, então sofra por mim! kkkkkkkkkkk Mas falando sério, a pobre menina sofria horrores com a falta do Sam (que no sonho chamava Luiggi), e me partiu o coração ter de por o sofrimento em palavras.
Aliás, estou te devendo uma caixa de lencinhos de papel então? kkkkkkk
xoxo
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