O dia amanhecera nublado e ameno em Viena, o que fazia com que Coraline custasse a deixar a cama. Afinal, ali estava tão aconchegante e quentinho, não? E pensar em aconchego a fazia se lembrar do pai que, em comparação com a sua mãe, era uma pessoa muito mais compreensiva, e mesmo quando estava ocupado, sempre arranjava tempo para ouvir sobre os “problemas de criança” dela.
Ainda relutante, a morena se colocou de pé, já que mais um dia corrido de trabalho a esperava. Ela só torcia para que Viktor estivesse com um humor mais agradável nesta manhã, ou sairia de casa sem comer outra vez.
Quando por fim alcançou a sala de jantar – cujo nome beirava ao eufemismo, já que o ambiente era grande como um salão de festas -, o irmão já se encontrava à cabeceira da longa mesa, ditando ordens por celular enquanto mexia o café na xícara.
- Não me interessa quantos homens você vai precisar para o serviço, só me interessa o resultado final – ele dizia quando ela se aproximou. – Minha querida irmãzinha, que bom vê-la – continua, ao interromper a ligação abruptamente e se voltar para ela. – Parece que teve uma noite melhor do que a última – completa, com um sorriso.
- Tive sim Viktor, obrigada por observar – Coraline responde de modo cortês, sem disposição para outra discussão com o irmão.
- Alexander comentou sobre o almoço agradável que tiveram ontem. Me alegra saber que se comportou como a princesa que é, Coraline.
- Alex foi uma companhia agradável, então mereceu um tratamento adequado – diz ela, servindo-se com uma fatia de bolo e um copo de suco. – Deveria passar mais tempo com ele, irmão. Talvez aprendesse alguns bons modos, e nossas refeições matinais se tornariam mais agradáveis.
- Uma proposta tentadora, mas receio ter de recusá-la – Viktor responde, com um sorriso irônico. - Minha posição exige pulso firme, querida. Não tenho tempo para galanteios.
- Você já não era adepto de gentilezas mesmo antes de se tornar o primeiro na linha de sucessão – a morena aponta, devolvendo-lhe o sorriso. – Se não mudar ao menos um pouco essa sua atitude, vai ficar sem um herdeiro ao trono, Viktor!
- Casamentos podem ser arranjados para pessoas como nós, querida irmã – diz ele, sem se abalar com as palavras dela. - Além disso, um herdeiro seu já será suficiente para nos manter em posição privilegiada, não acha? Duvido que nosso tio faça oposição, ainda mais com a grande probabilidade de ter nossa mãe tagarelando no ouvido do velho!
Coraline não sabia como rebater tal argumento, então preferiu se manter em silêncio. Mas pensando nas palavras do irmão, o próprio casamento arranjado começava a fazer algum sentido: Viktor queria garantir a coroa num futuro próximo, de uma maneira ou de outra.
Por um instante, a morena até tentou visualizar o futuro que o irmão tinha em mente: Coraline casada, com um bebê nos braços, passando o resto de seus dias sob sua supervisão. Mas mesmo agora, não era Alexander quem ela via ao seu lado, e nem mesmo um bebê com seus traços ou com cabelos claros... E sim uma criança de cabelos escuros e olhos de um verde profundo, uma perfeita miniatura do homem que ela sempre quisera ao seu lado.
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Sean Renard acordara num sobressalto, com a voz do comandante ressoando através dos alto falantes. De acordo com ele, estariam pousando no aeroporto de Viena em poucos minutos. “Já não era sem tempo”, pensou ele, tentando se ajeitar em sua poltrona sem acordar o passageiro ao seu lado, uma velhinha de cabelos brancos que jurava que o moreno a fazia lembrar-se de um artista de cinema que ela amara na juventude.
Quando por fim veio a ordem para que recolocassem os cintos de segurança, Sean permitiu-se suspirar de alivio pelo fim iminente da longa viagem. Mais alguns minutos e o avião já taxiava pela pista, colocando-se em posição para o desembarque dos passageiros.
De volta à terra firme, o moreno caminhou a passos largos até o portão de desembarque, seguindo até a esteira indicada por um dos funcionários para retirar sua bagagem. Dali seguiu para o salão de entrada do aeroporto, varrendo o lugar com o olhar em busca de um rosto familiar.
Foram necessários apenas alguns minutos para que Meisner surgisse em seu campo de visão, caminhando diretamente em sua direção com passos firmes e decididos, desviando-se vez ou outra de algum desavisado que se punha em seu caminho.
- Pegou tudo? Fez uma boa viagem? – o loiro questiona, ao parar em frente a Renard.
- Bastante longa, mas tranquila – ele responde, com um dar de ombros.
- Menos mal, não acha? Agora vamos indo, não é bom ficar em lugares públicos por um grande período de tempo. E aposto que vai querer descansar um pouco antes da reunião com a cúpula, não?
- Precisamente.
- Mas já lhe aviso, capitão – começa Meisner, pondo-se em movimento – nossos aposentos não serão do tipo cinco estrelas.
- Acho que posso sobreviver com isso – diz Sean, seguindo-o.
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Há vários quilômetros do aeroporto, Coraline se encontrava atarefada, rodeada por papéis, envelopes e outras coisas mais. Estava repassando mais uma vez a lista com os nomes das pessoas para as quais ela precisaria mandar o convite para a abertura da exposição, tentando se certificar de que não havia se esquecido de ninguém, o que seria uma tremenda gafe. Afinal, grande parte dos nomes em sua lista fizera doações generosas para que a exposição ganhasse vida.
Até mesmo o nome de Viktor se encontrava nessa lista, e embora a perspectiva de ter o irmão lhe rondando na noite de abertura da exposição e fazendo uso da ocasião para se autopromover, era seu dever convidá-lo.
Momentaneamente distraída com esse pensamento, não conseguiu evitar a surpresa ao deparar-se com Jocelyn ao seu lado, no momento em que a assistente depositava uma caixa sobre a mesa da curadora.
- Sonhando acordada com os belos olhos claros de alguém? – a ruiva indaga, com um sorriso vibrante.
- O que? Como... Do que está falando? – a morena retruca, momentaneamente confusa. Podia sentir seu rosto corando.
- Do seu noivo, Alexander! – Josie responde, aos risos. – Ou tem mais alguém que se encaixe na descrição?
- Não seja boba, não estava pensando em ninguém!
- Me engana que eu gosto! Além do mais, não vejo mal nenhum em suspirar pelo Alex. Perdoe minha indiscrição, mas seu noivo é lindo, sabe?
- Não sei se a opinião de alguém que beijaria o meu irmão sem pensar duas vezes, mesmo sabendo o tipo de homem que ele é, vale de alguma coisa – Coraline responde, sorrindo. – Agora, vamos ao que interessa: que caixa é essa?
- Os convites para a abertura na exposição. O pessoal da gráfica acabou de entregar.
- O que acha? – a morena questiona, ao apanhar um dos convites e analisá-lo com atenção.
- Eles podiam ter dado mais destaque à parte que diz “Coraline Beckendorf”, na minha humilde opinião. No mais, está perfeito!
- Sua grande puxa-saco! – diz a curadora, aos risos. – Piadinhas à parte, vamos ao trabalho. Tenho vários envelopes para nomear.
- Ainda acho que deveria que imprimir os nomes em etiquetas autocolantes, seria mais prático. Ao menos não ficaria com o pulso dolorido ao fim do dia.
- Não treinei minha caligrafia durante anos à toa, sabia? Além do mais, as pessoas gostam de sentir que são importantes de alguma maneira, e se isso significa que terei de passar um bom tempo escrevendo nomes em envelopes e assinando cada um dos convites, que seja.
- Okay, não está mais aqui quem falou – exclama Jocelyn, erguendo as mãos em sinal de rendição. – Mas fique sabendo que essa teimosia só lhe deixa mais parecida com o seu irmão – continua ela, cruzando os braços. – E não adianta fazer bico, sabe muito bem que é verdade! – completa, ao se deparar com o olhar zangado da morena.
- Ainda preciso da parafina vermelha, Srta. Jocelyn – diz Coraline, tentando mudar de assunto. - Trate de ser útil e vá atrás disso, sim?
Com um simples aceno, a assistente assentiu e retirou-se da sala. Enfim sozinha, um sentimento de mal-estar alojou-se no peito de Coraline. Não pretendia soar rude, mas não conseguira conter a exasperação na voz. Quando a colega retornasse, se apressaria em pedir desculpas. Mas enquanto esse momento não chegava, a morena iria voltar toda a sua atenção para os vários convites e envelopes que a aguardavam.
************
O destino de Sean após deixar o aeroporto foi a periferia de Viena. Quando Meisner estacionou o carro em frente a um prédio antigo onde funcionava uma pequena padaria, o moreno já podia ter uma vaga ideia do que lhe aguardava.
Após entrarem no estabelecimento, seguiram diretamente para uma pequena porta aos fundos, que levava ao porão. Lá embaixo, em meio à escuridão e a umidade, duas camas haviam sido dispostas. Com uma leve careta, Sean depositou sua mala em uma das camas e olhou ao redor.
- É o melhor que a Resistência pode arranjar?
- Com receio de estragar seus ternos caros? – Meisner retruca, ao trancar a porta atrás de si.
- Passei por alguns lugares como esse quando fui obrigado a deixar a cidade – responde Sean, ao sentar-se na cama. – Não são as melhores memórias que guardo.
- Sua estadia aqui não deverá ser longa, ainda hoje a cúpula da Resistência vai nos passar a hora e o local da reunião. E digamos que, sendo você quem é, o melhor é manter-se o mais afastado possível dos holofotes.
- Não posso discordar disso.
- Ótimo! Bom, eu vou checar o perímetro por precaução. Caso perceba alguma movimentação suspeita, há uma passagem oculta embaixo da escada. È só seguir o caminho até encontrar uma escada e correr o máximo que suas pernas permitirem – o loiro explica com um sorriso, parecendo se divertir com a ideia. – Volto em alguns minutos – completa, antes de deixar o porão.
Com o som da porta se fechando, Renard enfim se permitiu largar-se sobre o colchão, buscando algum descanso. Mas não se permitiria dormir ou, conhecendo a mentalidade da família como conhecia, poderia não acordar outra vez.
*************
Horas mais tarde...
Depois de horas de trabalho assinando convites e preenchendo envelopes, Coraline ainda precisava entregar tudo aquilo em mãos. Como no dia anterior, havia saído só depois das catorze horas para almoçar, e depois disso nem retornou ao museu.
Já escurecia em Viena e a saga da entrega dos convites ainda não terminara. Mesmo utilizando seu próprio veículo, não havia um lugar em que alguém não a parasse para conversar um pouco, o que a fez se atrasar. Não que isso a incomodasse; só fazia com que ela tivesse de trabalhar até mais tarde do que havia previsto.
Sozinha no carro, a garota voltava a consultar seu cronograma, buscando o endereço de sua próxima parada. Estava para dar partida quando o vidro da janela ao seu lado se estilhaçou, fazendo-a gritar. No segundo seguinte, ela sentiu seu corpo trêmulo sendo puxado para fora do veículo, e em um piscar de olhos ela já estava no chão.
Atordoada, ergueu o olhar na tentativa de focalizar seu agressor, mas tudo que pode distinguir foi uma espessa pelagem marrom e garras longas e afiadas, que abriram três grandes arranhões em seu rosto, por onde o sangue escorria preguiçosamente.
Não demorou mais do que um minuto para ouvir o motor do carro roncar e os pneus cantarem ao seu lado. Ainda em choque, Coraline deixou-se ficar no chão frio, mesmo sabendo que aquela era uma péssima ideia. Quando seu coração voltasse a bater no ritmo normal, ela pensaria no que fazer...
**********
Para Sean, a situação também não era das mais amenas. Após a volta de Meisner ao esconderijo, o moreno se permitiu dormir um pouco, acordando muito próximo do anoitecer. Cerca de uma hora depois, barulhos suspeitos vindos da parte superior do imóvel chamou a atenção dos dois, e não demorou muito para que a porta fosse arrombada e os tiros começassem a ecoar no pequeno porão mofado.
Por sorte, Meisner estava sempre prevenido, e não foi tão difícil se livrarem daquela primeira ameaça.
- Hundjägers – Sean exclama, ao aproximar-se dos dois corpos estirados no chão. – Como o Verrat descobriu a minha presença?
- Deve haver algum vazamento na Resistência – o loiro responde, apanhando mais algumas armas que haviam escondidas por ali. – Pegue suas coisas, precisamos sair daqui. Esses foram só os primeiros, logo haverá outros – completa, erguendo a pequena porta do alçapão embaixo da escada e se jogando para dentro.
Após apanhar as armas dos homens do Verrat, Renard jogou a bolsa com seus poucos pertences sobre o ombro e seguiu atrás de Meisner, jogando-se para dentro do buraco escuro que levava aos esgotos de Viena.
**************
Sebastian já estava para deixar o castelo quando o telefone no escritório de Viktor começou a tocar. Como o príncipe já havia deixado o aposento, o rapaz seguiu até o aparelho e atendeu a ligação, pronto para anotar qualquer recado tardio.
- Viktor? – uma voz familiar se fez soar.
- Não, é Sebastian. Senhorita Coraline? O que houve? – ele indaga preocupado, ao perceber a mudança na voz dela.
- Sebastian... Poderia pedir ao motorista do meu irmão para vir me buscar, por favor? Levaram meu carro e estou sem condições para andar até em casa, e não há taxis passando por aqui.
- Onde a senhorita está? Eu mesmo vou buscá-la – o rapaz responde, apanhando um bloquinho e uma caneta para anotar o endereço. – Fique calma, sim? Estarei aí em alguns minutos.
Com passos rápidos, Sebastian desceu os vários lances de escadas, e não demorou mais que alguns minutos para chegar ao carro e deixar o castelo, seguindo para a região leste de Viena. Com sorte, levaria quinze ou vinte minutos para alcançar Coraline.
Faltando pouco mais de dois quilômetros para chegar ao destino, o rapaz pode ouvir o celular tocando no bolso interno do paletó. Sem desviar os olhos da estrada, apanhou o aparelho e atendeu a ligação, colocando-o no modo viva voz.
- Sebastian.
- Tivemos um problema – a voz de Meisner preencheu o automóvel – Preciso que nos encontre no endereço que mandei por mensagem o mais rápido possível.
- Mas... – Sebastian ainda tentou retrucar, mas a chamada já havia sido encerrada. – Mais essa agora – ele resmunga para si mesmo, enquanto analisava o endereço que o outro lhe mandara. – Acho que terei de me dividir em dois...
*************
Assim que Sebastian auxiliou Coraline a deitar no banco de trás do carro do rapaz, a morena imediatamente fechou os olhos, mas ele não sabia precisar se ela estava apenas dormindo ou se havia perdido a consciência. Acabara de se decidir por levá-la ao hospital mais próximo quando seu celular voltou a tocar, anunciando uma nova mensagem.
Era de Meisner. Outra vez. Pedia para que ele viesse o mais rápido possível, pois não era seguro permanecerem no mesmo lugar por muito tempo. “E agora?” pensou ele, dividido entre os dois deveres.
Olhando para a morena adormecida no banco de trás através do retrovisor, o rapaz resolveu arriscar. Traçou sua rota para o endereço que havia recebido e partiu com o carro.
Em poucos minutos, a fachada escura de um antigo galpão assomou-se à frente. Por prevenção, estacionou o carro na lateral do prédio, para que ficasse oculto dos olhares de possíveis curiosos. Após certificar-se de que havia deixado pequenas frestas abertas nas janelas traseiras, de modo que Coraline não corresse o risco de se asfixiar ali dentro, Sebastian se dirigiu à entrada de trás do galpão.
Dois toques e alguns segundos depois, a pesada porta de metal se abriu, e o rapaz se sentiu sendo puxado para o interior do prédio. Quando deu por si, Meisner apontava uma pistola em sua direção.
- Está seguro? Você foi seguido? – o loiro indaga, sem abaixar a arma.
- Claro que não, sei fazer o meu trabalho – o recém chegado responde, suspirando em alívio ao ver a arma sendo baixada.
- Vou verificar o perímetro mais uma vez – Meisner resmunga por fim, guardando a arma e fechando a porta atrás de si.
- Sebastian – uma segunda voz ecoou pela vastidão do galpão.
- Sean – o rapaz responde, cumprimentando o outro. – Fez boa viagem?
- A viagem foi tranquila, mas não posso dizer o mesmo da recepção – diz o moreno, passando uma das mãos pelos cabelos com uma expressão preocupada. – Estamos tentando descobrir como o pessoal do Verrat descobriu nossa localização.
Sebastian até fez menção de responder, mas um grito vindo do lado de fora do galpão acabou o interrompendo. Ele até mesmo tentou correr em direção à porta, mas ela se abriu com um estrondo no momento em que ele se aproximou.
- Me solta – soou uma voz feminina, pertencente à garota que se debatia nos braços de Meisner. – Ou me mate, mas seja corajoso o bastante para me dar alguma chance de defesa – continuou ela, aos gritos.
- Senhorita Beckendorf? – exclama Sebastian. – Meisner, solte-a! Ela está ferida!
Ao ouvir as palavras do rapaz, Sean olhou dele para a garota, fascinação e confusão invadindo-o na mesma proporção. Ali estava: os cabelos escuros e ondulados, os olhos azul-esverdeados e a pele clara como porcelana. A única coisa que destoava eram os grandes arranhões ainda sujos de sangue em seu rosto.
- Coraline?
Livro: "A Força da Vida" de Zibia Gasparetto, pelo espírito Lucius
-
*Título*: A Força da Vida
*Autora:* Zibia Gasparetto, pelo espírito Lucius
*ISBN:* 978.85.7722.651-1
*Ano:* 2019
*Editora:* Vida e Consciência
*Gênero:* ...
Há 6 anos

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