20 de set. de 2014

One shot: "Submerso"




Eu menti. Olhei nos olhos do meu irmão e menti. Agora a culpa me corrói como ácido, destruindo tudo por onde passa, fazendo cada centímetro de meu ser arder.

Com meu trabalho, com a vida que eu levo, já deveria ter me acostumado a conviver com a culpa, afinal, nem sempre é o dia do caçador, e você acaba perdendo o jogo algumas vezes. É inevitável, eu sei. Mas ainda assim, a ideia não me conforta.

O mais difícil de toda a situação era relembrar a expressão de alívio no rosto de Sam quando ele me agradeceu por ter deixado Amy livre, quando eu sabia que a havia matado sem dar a mínima chance de reação, quando sabia que havia deixado um pequeno garotinho órfão por achar que aquilo era "o certo a se fazer".

Meu pai me criara assim, o que mais posso dizer? "Salvar pessoas, caçar coisas" era o que ele sempre dizia. Se uma criatura tira a vida de um humano, por mais desprezível que ele possa ter sido, era nosso dever pará-la, impedi-la de derramar sangue mais uma vez. Era o nosso trabalho. Simples como diferenciar o preto do branco...

Mas depois de todo esse tempo, de tudo pelo que fomos obrigados a passar - inferno, apocalipse, perdas irreparáveis - o mundo ganhara tantos contornos de cinza que, em certas ocasiões, as coisas não se mostravam mais tão simples. Em determinadas ocasiões, o certo não parecia mais tão certo assim, sabe?

E era aí que a culpa se fazia presente, latejando em meu peito, fazendo minhas próprias convicções ruírem, a tal ponto que era preciso fazer do álcool um companheiro inseparável. O que significava que eu permanecia instável.

Meu irmão notava isso, é claro. Como não notaria? Ele mesmo estava passando por tantas coisas depois do muro em sua mente desabar, esforçando-se para distinguir realidade de alucinações, tendo de ouvir Lúcifer sussurrar em seu ouvido todos os dias... Não seria justo tirar mais nada dele, nem pedir que me perdoasse pelo que fiz.

Se a situação fosse inversa, eu o perdoaria? A probabilidade era grande, confesso. Afinal, família sempre foi meu ponto fraco. Eu morreria por qualquer um deles - Sam, Bobby, até mesmo Castiel - infinitas vezes se fosse preciso, várias além das que eu já havia morrido.

Mas havia também outra questão. Seria eu digno de perdão? Afinal, eu fizera uma promessa, e a quebrara. Poderia haver algum tipo de redenção para alguém como eu?

Talvez houvesse, talvez não. Para obter a resposta, a verdade precisaria vir à tona. E com ela, a mágoa, o rancor e o desapontamento nos olhos de meu irmão. E no momento, não sabia se estava forte e são o suficiente para suportar isso...

Infelizmente, meu estado de espírito não parecia importar naquele momento. Nada do que eu fizesse, ou dissesse, ou quem salvasse, parecia aliviar o fardo que me consumia. Nem mesmo as noites me proporcionavam algum descanso, já que em todos os sonhos eu via os olhos liláses de Amy perdendo o brilho e o sangue dela em minhas mãos.

Enquanto Sam dormia, com o céu da madrugada tão livre de estrelas quanto a minha mente de alívio, uma decisão se formou em minha mente, e era a melhor opção que alguém covarde como eu poderia ter. Fugir!

Fugir até dar de cara com a morte em alguma curva, ou até criar coragem o bastante para olhar nos olhos de Sam e confessar... Ou talvez fugir só para me afogar cada vez mais em whisky barato e cerveja quente. Qualquer coisa para aliviar um pouco do sentimento que oprimia meu peito.

Após arrumar umas poucas coisas em uma mochila, apanhei a chave do Impala e deixei o quarto em silêncio, sem nem mesmo olhar para trás uma única vez.

Já estava a ponto de fazer o motor do carro rugir quando Sam apareceu ao lado da janela, a expressão misturando confusão e receio.

- Onde vai Dean? - ele indaga, encarando-me fixamente.

- Eu... Eu só vou, Sam. Não sei para onde, mas preciso ir.

- Isso tem a ver com aquilo que o atormenta e que você não quer me contar?

- Sim, e acredite, você não vai querer saber.

- Por que você não tenta, Dean? O que pode ser tão terrível que você não pode me dizer?

- Sam...

- Fale Dean, apenas isso - meu irmão ainda tenta me incentivar, sem saber o quanto aquilo iria feri-lo.

Ainda o encarei por alguns instantes, analisando minhas alternativas. Por que não terminar de vez com aquilo, afinal? Sam poderia me bater, xingar e o que mais quisesse, não importaria. Eu ainda iria embora de qualquer maneira.

- É a Amy. Eu menti, não a deixei ir... - respondo por fim, sem nem mesmo encará-lo. Eu poderia confessar, mas não olhá-lo nos olhos.

- Você o quê?

- Não posso dizer outra vez. Eu sinto muito Sam, acredite. Eu achei que estava fazendo o certo, mas...

- Você a matou, mesmo quando eu lhe disse que ela já salvou minha vida? Mesmo que eu tenha lhe pedido para poupá-la e para confiar em mim?

- Sim Sam, eu menti, quebrei minha promessa e sinto muito por isso! É por isso que vou embora, pra poupar você de olhar na minha cara todos os dias e me afogar em autopiedade e culpa; buscar alguma maneira de me redimir, ou morrer tentando.

- Em resumo, você vai fugir. É isso mesmo?

- É um bom resumo - me limitei a murmurar em resposta, olhando fixamente em frente. - Mais alguma coisa ou já posso ir embora?

- Há várias coisas que eu poderia dizer, até mesmo gritar, ou ainda descontar parte da minha frustração nessa sua cara deslavada, mas não posso. Não consigo olhar pra você, Dean! Você é meu irmão e não consigo nem mesmo encará-lo - e nesse momento ele já estava gritando.

- Não tiro a sua razão. Na verdade já esperava por essa reação, por isso não tive coragem de...

- Apenas vá! - diz ele, me interrompendo. - Faça o que precisa fazer e vá embora.

- Eu vou. Sinto muito mesmo, Sam - digo por fim, dado partida no Impala e deixando meu irmão para trás.

Não sabia para onde ir, nem o que fazer ao certo, mas não me preocuparia com isso nesse momento. Apenas seguiria em frente, colocando o máximo de distância entre mim e o que restou de minha família.

Buscaria redenção enquanto estivesse longe e tentaria salvar o máximo de pessoas possível. Assim, num dia qualquer no futuro, eu poderia voltar e encarar Sam, pedir perdão e recomeçar...






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