Todos costumavam dizer que o Natal era uma data mágica, algo que só se aproveitava verdadeiramente se fosse comemorado em família, com um saboroso e farto jantar, músicas típicas da época, trocas de presentes e desejos de coisas boas àqueles que se ama. Dizem também que a data traz um espírito novo, uma sensação de bondade e renovação, como também uma grande vontade de se compartilhar com o próximo.
Para Mycroft, a aproximação do Natal vinha sim com algo que ele gostava e não era o fato de ficar com a família não. O que lhe deixava feliz era o cheiro de biscoitos e torta de chocolate no ar e as bengalas de doce espalhadas por todo canto da casa. Ok que elas deveriam fazer parte da decoração, mas ele não seria assim tão forte ao ponto de não surrupiar uma ou outra quando ninguém estivesse olhando, não é? Infelizmente, onde há felicidade, há também amolação, e o que mais irritava o primogênito da família Holmes era o fato dos irmãos mais novos usarem a paixão de Mycroft por doces contra ele, mesmo que ele negasse tal sentimento até a morte!
A mãe sempre lhe dizia para não ligar para tais provocações, dizendo que era algo comum das crianças pequenas e que bastava ele se fazer de desentendido para que eles o deixassem em paz. Mas nem mesmo toda a sua força de vontade era suficiente quando ele ouvia aqueles dois pestinhas cochichando sobre ele pelas costas! No segundo seguinte Mycroft se voltava para eles totalmente colérico, o que até parecia causar algum efeito em Sherlock, já que o menino ficava em silêncio de imediato, mas com Alice a história era bem outra… Ela sempre fazia aquela carinha de “menininha do papai” e lhe lançava um sorriso ou um beijinho soprado, só para deixá-lo ainda mais aborrecido. E era nessas horas que o garoto subia té seu quarto batendo os pés e se jogava na cama, decidido a deletar a irmãzinha pentelha de sua vida pelas próximas horas enquanto se distraía com um livro de física quântica qualquer…
Ele estava com o pé no batente da porta do próprio quarto quando levou a mão ao próprio bolso e se lembrou do bendito “papelzinho”. Ele não poderia se esquecer do mundo, não tão facilmente, já que no dia 24 de dezembro, exatamente aquele dia, era a data em que eles revelavam o “amigo secreto da família” e Mycroft não poderia perder a hora, já que isso implicaria também em atraso para a ceia. Não que ele gostasse daquilo, já que dificilmente ganhava algo realmente útil quando tinha o azar de um dos irmãos sorteá-lo, mas um bom inglês jamais chegaria atrasado em um compromisso, não? Mesmo que o importante compromisso fosse, na verdade, na sala de visitas logo abaixo de seu quarto, ele tinha uma reputação a zelar.




