30 de jan. de 2015

"Resistenz" - Capítulo 06: Olho Por Olho...

Com alguma dificuldade, Coraline enfim abriu os olhos, deparando-se com o teto familiar de seu quarto. Não fazia ideia de como chegara até ali, mas estava aliviada por finalmente estar em sua própria cama. Ao seu lado, o abajur sobre o criado-mudo estava aceso, o que dava ao cômodo apenas luz suficiente para não ficar mergulhado num completo breu.

Apesar de sentir o corpo todo dolorido, a garota esforçou-se para se sentar. Pelo que pode perceber sob aquele novo ângulo, ainda estava com as mesmas roupas com as quais saíra de manhã – só que mais sujas, obviamente -, mas havia bandagens em uma das mãos, num dos pulsos e também no lado esquerdo do rosto, onde ela podia sentir um leve formigamento.

- Como está se sentindo? – uma voz soou em meio à penumbra, fazendo a morena soltar um gritinho agudo e involuntário.

- Viktor! – ela exclama, instantes depois. – Nunca mais faça isso, entendeu? Eu poderia ter enfartado de susto!

- Você sobreviveu ao trauma de um assalto, não precisa ser tão dramática!

- Falando em assalto... Como foi que cheguei aqui? – a garota indaga, enquanto observava o irmão sair do canto escuro e se aproximar da cama, sentando-se ao lado dela em seguida. – Lembro-me de estar com Sebastian, mas nada além disso – completa, deixando de lado toda a conversa que tivera com Sean.



- Sebastian cumpriu com seu dever e a trouxe para casa, irmã. Um de meus seguranças particulares a trouxe aqui para cima e o médico da família já lhe atendeu – o príncipe começa a explicar, tomando uma das mãos da irmã nas suas. – Segundo o diagnóstico, você sofreu escoriações, mas nada muito grave. Provavelmente notará hematomas arroxeados nos próximos dias, mas não há nada com o que se preocupar. Estará nova em folha em pouco tempo. Ele também prescreveu um analgésico, para o caso de sentir alguma dor – continua, fazendo-a notar o receituário médico sobre o criado-mudo com um simples gesto. – Quanto ao seu carro, meus homens já estão tentando localizá-lo, assim como o cretino que lhe fez isso – comenta, referindo-se ao ferimento mais grave no rosto da garota. – A criatura terá o que merece, garanto a você. Ele nunca mais ousará chegar perto de um integrante da família Real. Agora vou deixá-la descansar, Coraline. Só permaneci aqui para ter certeza de que estava bem – completa, inclinando-se para beijar a testa dela antes de pôr-se de pé.

- Obrigada pela preocupação, Viktor – Coraline agradece, com um sorriso fraco e cansado.

- Sou seu irmão, é meu dever cuidar de você – ele responde, dando-lhe as costas e deixando-a sozinha no quarto.

Aquela declaração pegou a garota de surpresa, e fez com que ela ficasse mirando a porta por alguns minutos depois da saída do irmão. Viktor costumava ser frio e prático, sem demonstrar nada que não fosse desprezo por aqueles que ele julgava inferiores.

Mas ali, naquele instante, ele havia sido - talvez pela primeira vez depois de muitos anos – um verdadeiro irmão para Coraline, e ela se sentia realmente grata por isso.

Com tal pensamento embalando-a, a morena voltou a se aninhar em seus travesseiros e cobertores, pedindo mentalmente por uma noite sem sonhos, para que pudesse acordar recomposta e descansada na manhã seguinte.

***********


Após deixar o quarto da irmã para trás, Viktor caminhou decidido – e silencioso como um gato - pelos corredores pouco iluminados que o levariam ao grande escritório no andar superior. Estava interiormente surpreso pelo olhar que recebera de Coraline minutos antes. O rapaz já havia se acostumado há muito com o distanciamento dela, e notar gratidão e afeto dirigidos diretamente a ele o deixava levemente desconcertado.

Sacudiu a cabeça levemente para espantar aquela sensação e adentrou no escritório, onde Sebastian já o aguardava com o relatório da localização do veículo. Arrancou os papéis das mãos do assessor e sentou-se na alta cadeira de couro negro, analisando a lista com os vários endereços por onde o sujeito que rendera Coraline havia passado desde então.

- De acordo com isso, o wesen já deixou a cidade. Estranho...  – disse o príncipe, mais para si do que para Sebastian. – Em que horário minha irmã foi assaltada? Parece haver uma lacuna razoável entre esse evento e a chegada de vocês no castelo, não?

- Bem senhor, o horário exato apenas a Srta. Beckendorf poderá lhe confirmar. Mas garanto-lhe que, no momento em que recebi a ligação de sua irmã, fui diretamente buscá-la!

- Vou apurar isso depois – o moreno responde. – Tenho uma caçada para organizar agora. Está dispensado por hora Sebastian, mas permaneça a postos. Posso precisar de você em breve – completa, fazendo sinal para que o rapaz o deixasse sozinho no escritório.

- Às suas ordens, senhor – diz Sebastian, com uma leve reverência, deixando o aposento no instante seguinte.

Quando por fim se viu sozinho, Viktor voltou a analisar o papel que tinha em mãos, traçando uma rota provável de fuga para o ladrãozinho. Em seguida, discou rapidamente o número de um de seus contatos, sendo atendido prontamente.

- Senhor? – a voz grave soou do outro lado da linha

- Estou lhe enviando um endereço. Siga para lá imediatamente e intercepte o carro da minha irmã. Atirem se for necessário, mas deixem o sujeito vivo, ao menos por hora! Tenho uma pequena lição para ensinar a essa criatura maldita antes de libertá-lo dessa vida – Viktor ordena, desligando imediatamente.

************

Meisner e Sean haviam acabado de chegar ao novo esconderijo: uma casa abandonada e suja na zona mais antiga de Viena, próximo ao distrito industrial. Tudo ali cheirava à fuligem e óleo queimado, mas por hora, era o melhor que poderiam ter. Ao menos havia água encanada para um banho, mesmo que não houvesse energia elétrica para aquecê-la.

- Então... Eu fico com o primeiro turno de vigia – diz Meisner, sentando-se na única cadeira que havia ali e colocando as pernas para cima, apoiadas na mesa. – Pode tomar um banho gelado se quiser, ou não. Você quem sabe.

- Não estou com sono, posso ficar com o primeiro turno – o capitão de polícia responde, parado ao lado da janela enegrecida pela poeira.

- Até imagino o motivo de sua falta de sono – o loiro resmunga em resposta, com um sorriso malicioso. – Mas já lhe aviso: é melhor se manter afastado daquela garota, ou acabará morto. A realeza não perdoa traição, e o Läufer não é muito diferente nesse ponto – completa, colocando-se de pé e sumindo pelo corredor escuro em seguida.

Apesar de não apreciar nada o tom de ameaça na voz de Meiner, Renard sabia que ele tinha razão. Mas não era por si que o moreno se preocupava , mas por Coraline. Sabia perfeitamente que não se perdoaria nunca se a garota pagasse por algum deslize seu. Já fora bastante desconcertante vê-la ferida daquela maneira... Não podia deixar que nada pior acontecesse.

Mas também havia o beijo, e o desejo insano de não se importar com mais nada além daquela garota. Corpo e alma ansiavam por tê-la consigo mais uma vez, sentindo-a aninhada em seus braços, o cheiro de seus cabelos escuros envolvendo-o por completo, os lábios dela junto aos seus, do jeito com que sonhara por tantos anos.

- Sonhando acordado com um passarinho verde? – a voz de Meisner surgiu na escuridão, sobressaltando-o e tirando Renard de seus devaneios. – Um passarinho mortal, é só o que eu digo – completa, largando-se novamente na cadeira e fechando os olhos.

- Acho que posso lidar muito bem com isso – o moreno responde, decidido.

- Espero que sim, garotão! Não está nos meus planos morrer por Romeu e Jullieta da realeza wesen – o outro resmunga, pondo fim àquela conversa.

*************
A noite passara como um enorme borrão, repleto de garras, rosnados e vidro estilhaçado para Coraline. A princesa acordara se sentindo ainda cansada e dolorida, mas nem isso a impediu de pular dos cobertores quando percebeu o quanto estava atrasada para ir ao museu.

A garota tomou um banho rápido, se desfazendo das ataduras e fazendo caretas de dor quando a água alcançou seus ferimentos. Vestiu-se rapidamente em seguida e prendeu os longos cabelos escuros num coque, já que não teria tempo de secá-los. Ao olhar seu reflexo no espelho, percebeu que nenhuma maquiagem seria capaz de esconder aqueles longos arranhões, então nem mesmo perderia mais tempo tentando.

Estava para apanhar a bolsa quando lembrou-se de que a havia perdido junto com o carro na noite anterior. Bufando frustrada, abriu a porta do quarto num rompante, apenas para dar de cara com um dos capangas do irmão.

- Ah, por favor! Será que não pode me dar um pouquinho de espaço? – diz a garota, num misto de irritação e surpresa.

- O senhor Beckendorf está aguardando a senhorita no escritório o quanto antes – o homem de terno responde, numa voz sem emoção alguma.

- Diga ao meu irmão que falo com ele mais tarde, está bem? Estou atrasada para um compromisso importante.

- Lamento senhorita, mas tenho ordens para conduzi-la ao escritório, mesmo contra a sua vontade – diz ele, sem sequer se mover.

- Viktor sabe mesmo como começar bem uma manhã, não? – ela responde, com a voz carregada de ironia. – Mas não precisa me acompanhar, duplex! Eu conheço bem o caminho até lá – completa, batendo a porta atrás de si e afastando-se decidida do tal guarda-costas.

*********

Quando o telefone de Meisner começara a tocar naquele início de manhã, parecia a Renard que ele havia acabado de fechar os olhos e que haviam se passado apenas alguns minutos, e não horas. Aparentemente, a longa viagem e todos os acontecimentos do dia anterior estavam cobrando seu preço.

Além disso, a imagem de Coraline povoara cada minuto de seu tempo de descanso, o que fez com que o sono do capitão de polícia fosse especialmente agitado, repleto de lembranças e desejos ainda não realizados.

- Hora de levantar, Romeu! A cúpula nos espera ainda pela manhã – diz o loiro após encerrar a ligação e guardar o celular no bolso do jeans. – Temos pouco mais de uma hora de estrada até chegarmos ao local combinado, então sugiro que se apresse. A chefia não gosta muito de atrasos – completa, desaparecendo pelo corredor mais uma vez.

Sean deixou o sofá em que havia passado parte da noite no segundo seguinte. Mesmo aborrecido pelo cansaço e pelo tom autoritário de seu companheiro, não convinha dar chances ao azar e perder a pouca confiança que a Resistência depositara nele, não? Ele viera até Viena com um propósito, e faria tudo ao seu alcance para conquistá-lo.

Cerca de dez minutos depois, os dois já deixavam o casebre sujo e malcheiroso para trás, rumo ao pátio em que Meisner deixara seu carro, para não chamar tanta atenção da vizinhança. Afinal, alguém poderia desconfiar e dar com a língua nos dentes caso notasse o grande carro preto em frente a um muquifo abandonado.

Mais alguns minutos a pé e já podiam partir rumo ao local marcado para a reunião. De acordo com as instruções recebidas por Meisner, eles deveriam deixar Viena e seguir para a cidade vizinha, além de tomar todas as precauções para não serem seguidos até lá.

- Até parece que querem ensinar o padre a rezar a missa – Meisner reclama ao volante, enquanto arrancava com o carro.

- Bem... Se existe mesmo um informante dentro da Resistência, todo o cuidado é pouco, certo? – diz Renard, internamente satisfeito por não ser o único dentro do veículo a ser tratado como um garotinho travesso de cinco anos de idade.

- Espero ao menos que escute seu próprio conselho, capitão. Eu sei que a tal princesa é bonita, mas ...

- Concentre-se apenas em dirigir, está bem? – o moreno o interrompe, já cansado de tanta intromissão. – O que farei do meu tempo em Viena fora das reuniões é assunto meu, e de mais ninguém! Além disso, sobrevivi à realeza por todos esses anos... Não será um hundjäger que vai me parar agora.

- Okay, não está mais aqui quem falou! – o outro retruca, agora com o semblante ainda mais fechado do que o normal.

- Melhor assim! E, se não se importar, é melhor não mencionar nosso breve encontro com a Srta. Beckendorf.

- Como quiser, vossa Alteza.

**********

Coraline percorreu a pequena extensão entre seu quarto e o escritório do irmão o mais rápido que seu cansaço permitiu, e ao deparar-se com as grandes portas de carvalho, nem sequer parou para ser anunciada. Simplesmente girou a maçaneta e entrou, como um pequeno tornado que derruba o que encontrar pela frente.

- Seu macaquinho de circo disse que queria me ver, Viktor – diz ela, parando em frente à mesa do irmão. – Então... Que assunto tão urgente requer minha presença imediata?

- Vejo que já recobrou o temperamento engenhoso... Uma pena, na verdade – ele responde, com um leve sorriso. – Sabe ser muito mais amável quando está fragilizada, Coraline.

- Infelizmente para você, não gosto de me sentir frágil – a morena retruca. – Mas admito que foi gentil da sua parte o que fez por mim na noite passada. Obrigada! – completa, dessa vez com a voz um pouco mais suave.

- É meu dever protegê-la, já deveria saber disso... Agora, creio que gostaria de ter isso de volta – diz o príncipe, colocando a bolsa da garota sobre sua mesa em seguida.

- Como conseguiu? – ela indaga surpresa, apanhando a bolsa e sentando-se numa das cadeiras acolchoadas em seguida. Estava tudo ali: celular, dinheiro, documentos e, o mais essencial: a lista contendo os nomes daqueles que ainda precisavam receber seus convites para a inauguração da nova exposição!

- Tenho uma equipe eficiente aos meus serviços, minha querida – Viktor responde. – Só não posso lhe devolver o carro ainda, foi levado para a oficina. Precisa de parabrisas e janelas novas... Sem mencionar que o estofado está repleto de pêlos, sangue e outras coisas que só a ralé é capaz de trazer para dentro de um veículo tão sofisticado – ele continua, sem se abalar pela expressão chocada no rosto da irmã. – Até lá, pode usar meu carro, se quiser; ou então escolher um motorista para levá-la em segurança.

- Acho que já estou em condições de dirigir, mas agradeço mesmo assim. Agora, se me der licença, tenho um dia longo de trabalho pela frente – diz Coraline, já se colocando de pé.

- Sente-se Coraline, você não vai a lugar algum. O médico recomendou repouso, portanto permanecerá dentro dos limites do castelo hoje, e de preferência, dentro dos limites de seu próprio quarto. E pode ficar tranquila – ele emenda, ao notar que a garota faria objeções -, a direção do museu já está a par do que lhe aconteceu, e eles mesmos disseram que o melhor para a “nossa querida curadora” era o repouso no aconchego do lar.

- Estou em prisão domiciliar? Ótimo! Era tudo o que eu precisava para ter o dia perfeito – Coraline resmunga irritada, dando as costas ao irmão em seguida.

- Aonde pensa que vai? – Viktor indaga, fazendo-a parar à meio caminho da porta. – Ainda tenho mais um presente pra você, irmãzinha! – completa, parecendo levemente triunfante ao ver a irmã voltar-se para ele novamente.

Em questão de segundos, a porta do escritório foi aberta, dando passagem a um dos seguranças de Viktor, que trazia uma grande caixa nas mãos. O rapaz deixou a sala em silêncio logo após depositar a caixa sobre a mesa, e apenas quando a porta voltou a se fechar, foi que o moreno fez sinal para que a irmã a abrisse.

- Mandei trazer especialmente para você, minha querida! Ainda está fresca.

Desconfiada, Coraline ergueu a tampa lentamente, colocando-a de lado em seguida. Um arrepio gélido percorreu suas costas quando deparou-se com o grosso tecido negro ali dentro. Respirando fundo, afastou as pontas do tecido, mas nem seus piores pesadelos poderiam tê-la preparado para o que havia ali.

- Você ficou louco? – ela exclama, totalmente desconcertada e enojada, afastando-se da mesa o máximo que suas pernas trêmulas permitiram.

- Nada disso, minha querida. Apenas confirmando a máxima de “olho por olho, dente por dente” – Viktor responde, sorrindo sombriamente ao contemplar a cabeça do wesen que atacara a irmã na noite anterior.











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