E lá estávamos nós, Watson e eu, movidos por um caso que não tinha
mistério algum... Mas, se formos avaliar a coisa toda ao pé da letra: ‘Watson’
nem era o verdadeiro ‘John Watson’, era só sua pequena filha ‘Emma Watson’, e
essa falta de profundidade no caso até vinha a calhar em uma iniciante. Ainda
mais se formos avaliar sua parca idade, que conseguia o mínimo de preencher uma
“mão” e nada mais.
Começamos a andar pela calçada, Emma tentava imitar meus passos
alargando os seus próprios ao máximo em que conseguia, enquanto eu tentava
encurtar aos meus para não deixá-la tão para trás.
No meio do quarteirão, eu apontei uma fachada ao parar.
“Vê essa residência, minha cara auxiliar substituta?”
“Ah”, ela coçou a cabeça com uma das mãos e levantou o olhar. ”É uma
casa bem bonita, não acha tio Sherly?”
“Sim, ela é singular. Sua fachada é datada da era Vitoriana. Passou por
pelo menos três reformas nos últimos dois anos, isso é o que me indicam as
camadas de tinta porcamente cobertas. E, bem, o preenchimento irregular e mau
cuidado dar cor nas proximidades das bordas das janelas. Além de a cor
extravagante que começou a ser vendida faz três meses. Coisas da moda”. Conclui
dando de ombros.
Quando parei de falar, notei que ela estava terrivelmente quieta.
Encarei-a, mas ela não parecia surpresa, como era de se esperar. Emma apenas
sorria e segurava um risinho com os dedos, como se ao tirar as mãozinhas da
boca, a risada pudesse escapar.
Mas se ela era pura alegria, eu, por outro lado, estava boquiaberto. Não
sei dizer se por causa da percepção dela (que por tão pequena que era e, por se
tratar de uma Watson sanguínea, deveria ser mínima) ou pelo fato de que ela
havia deslindado todos os sentimentos mais internos e pensamentos obscuros de
John sobre o meu trabalho em uma frase curta e totalmente precisa.
“Seu pai diz isso?” me peguei fazendo essa pergunta pausadamente,
levando três vezes mais tempo para fazê-la do que uma mente normal (e, dizem sobre
mim as más línguas, insensível) deveria.
“Disse sim. Ele diz sempre!” Nenhuma hesitação, ela era a voz da
sinceridade naquele momento. Mas antes que eu pudesse continuar minhas
perguntas, Emma foi mais rápida. “Mas, titio Sherly, o que fazemos aqui
exatamente? Que tem essa casa haver com aquela moça?”
“Kimberly Straunt”, eu disse o nome dela para que minha mente tentasse
vê-lo como algo importante, mesmo não o sendo. “Esse é o nome dela. E, bem, por
hora, de nada tem a ver com aquela figura histérica, mas em breve terá”.
“Como assim? O senhor deu pra ser vidente agora?” Ela comentou
estreitando os olhos, mãos indo a cintura e aquela pontinha de pé que insistia
em bater de forma ritmada e ininterrupta. “Mamãe disse que videntes são todos
charlatões, tio! E eu não sei o que é um charlatão, mas pelo jeito que ela fala,
me parece algo feio”.
Dei de ombros, tentando ignorar o como eu poderia arrancar algumas
verdades da vida privada dos Waston sem fazer muito esforço. Tentei focar-me no
caso, no momento, e explicar a ela o que estávamos fazendo ali. Afinal, tenho
que lembrar que, embora Emma pareça esperta (e temos que dar todo o crédito
genético a parte da família Morstan nesse ponto), ela ainda é filha de John, e
as coisas costumam ser mais difíceis de entrar na cabecinha desse tipo simplório
e amigável (e isso é um elogio, não uma critica. Afinal: John é John).
“Eu não adivinho nada, minha pequena Watson. O que eu faço é deduzir
por meio de fatos concretos”.
Emma coçou a cabecinha após minhas palavras e eu já estava quase
desistindo de qualquer comentário que viesse sobre aquilo, quando ela perguntou
sem graça.
“Concreto é coisa de construir casa, não é?”, revirei meus olhos
segurando loucamente a vontade de bufar. Isso era a prova do que eu já
suspeitava: havia muito gene do pai nessa garota.
Estava pronto para dar um passo pela rua, quando Emma segurou meu
casaco e apontou para a casa com a outra mãozinha.
“Mas, tio Sherly, você não disse o porquê que falou dessa casa. Estou
confusa”.
“Ah, a casa. Ah sim, essa é a residência do senhor Baker”, e eu pensei
que andaria depois dessa resposta, mas é claro que não.
“Baker? Não tio, Baker é onde você mora, é a sua rua. O senhor Baker é
dono da sua rua, com certeza! Então, ele não deve morar aqui”, ela disse
apontando para a casa com desdém.
“Minha casa é da senhora Hudson, cara Emma”, eu tentei começar a
esclarecer, mas ela voltou a falar como se eu não fosse importante.
“Aliás,” e ela fez uma cara de pensativa que me assustou, mas decidi
esperar para ver aonde isso daria “a casa que o senhor mora não é sua, né? Eu
ouvi o papai falando que a casa é da senhora Hudson. Então, veja só, ela já é
velhinha e deve ser casada, certo?” Eu apenas levantei uma sobrancelha,
esperando que ela terminasse sua dedução estapafúrdia. “Com certeza ela é Hudson
Baker e o senhor Baker é o marido dela! Então, ah tio Sherly, perdemos tempo
vindo aqui se o senhor queria falar com o senhor Baker”
“Acho que você pode tirar a prova com a ‘senhora Hudson de Baker’
depois. Agora eu preciso mesmo voltar ao caso e ele me leva ao outro lado da
rua”, disse já começando a andar, antes que ela me parasse de novo para algum
apontamento que faria Mary ficar de cabelo em pé e explicar o verdadeiro
significado de ‘o que era ser um charlatão’ para ela.
“Então tá...”, ela concordou com uma voz nada convicta e começou a
andar aos pulinhos. John deveria parar de comprar tênis de mola para uma menina
tão pequena... Se bem que ela está de sapatilhas... Estranho.
Bem, qualquer outro tipo de avaliação sobre o jeito de andar dessa
garotinha teria que ficar para depois, afinal, eu via Henry Baker II no parque
e não poderia perder a chance de falar com meu velho conhecido.
“Senhor Henry Baker II”, comecei e o rapaz me olhou no instante em que
ouviu seu nome, sorrindo ao me reconhecer.
“Senhor Holmes, que surpresa! Não esperava vê-lo por aqui. Trabalhando
em algum caso?” ele começou todo comunicativo, dando uma cotoveladinha teatral
ao fazer a última pergunta. A vontade de ignorá-lo era grande, mas eu tentei
manter um ar educado.
“Na verdade, estou...”, mas logo percebi que ele olhava para Emma e não
para mim.
“Mas e você quem é, princesa? É a filha do senhor Holmes?”, e aquela
pergunta voltou-se para mim com um olhar suspeito. “Ou, bem, eu não sabia que
tinha irmãos”
“Tenho, dois. Mas...” e, ah sim, fui cortado por Emma.
“Sou Emma. E o tio Sherly é meu tio, mas eu não sou sobrinha dele”, ela
disse simplesmente, rindo de suas próprias palavras depois. E, Henry, bem...
ele riu também.
“Emma é, como posso dizer, minha afilhada” tentei esclarecer aquilo de
forma rápida e Henry pareceu compreender e se satisfazer com aquilo.
“Ela é uma graça, senhor Holmes, uma graça! Mas, diga-me, o que o trás
a essa parte de Londres?”, ele pareceu bem curioso.
Olhei para ela antes de começar a falar, essa história de ser cortado a
cada santa frase já estava me enervando. Como não havia nenhum sinal de
impedimento, decidi solucionar aquela história.
“Henry, você namora Kimberly Straunt”, eu afirmei e ele apenas
concordou com a cabeça, enquanto franzia a testa. “E vai levá-la para viajar
nas próximas semanas...” e antes que eu prosseguisse, ele me cotou esbaforido.
“Uau, tinha me esquecido de como você adivinha as coisas e nos deixa
sem palavras”.
“Eu não adivinho nada”, o corrigi.
“Sim, moço! O tio Sherly ‘analisa os fatos’. Adivinhação, minha mãe diz
que, é coisa de charlatão. E o titio Sherly não é charlatão!”, Emma disse
cruzando os bracinhos e empinando o rosto em desafio, fazendo com que nós dois
nos surpreendêssemos e olhássemos para ela.
“Exatamente, minha cara Watson”, concordei tentando conter o orgulho
que sentia daquela pequena garotinha e volte-me para Henry novamente. “Você
comprou uma passagem para vocês, para o aniversário dela e, também, vejo que
tem ido com frequência ao jardim e acredito que sei o significado. Mas...”
“Ok, ok, eu digo. Eu comprei essa casa para Kim e eu, vou pedi-la em
casamento após o aniversário dela. Mais exatamente nessa viagem que, oh Deus,
como você sabe tudo isso senhor Holmes? Aliás, porque diabos está aqui mesmo?”,
ele agora estava com a cara de desespero que eu conhecia de tempos atrás e a
respiração descompassada. Ah, o velho Henry de antes, em um novo local, claro.
“Kim me contratou”, respondi simplesmente.
“Ela o que?” ele quase se descabelava agora. “Porque ela faria isso?”
“Ela estava preocupada com alguns acontecimentos... Aliás, tem sorte de
ela não ser tão perceptiva quanto a Emma aqui. Ela não suspeita da viagem, mas
acha que a está traindo”.
Henry ficou branco e Emma colocou as mãozinhas na boca.
“Que feio!”, ela balbuciou.
“Eu nunca faria isso, senhor Holmes. Nunca”.
“Eu percebo, mas ela não... Então, se não quiser jogar fora o anel que
tem no bolso e desistir do jardim que está fazendo do outro lado da rua para
ela, sugiro que adiante a surpresa para hoje”.
“Eu irei até ela agora mesmo!”, ele disse com urgência, pronto para
começar a correr, mas voltou-se para mim mais uma vez e agarrou minha mão feito
um louco varrido. “Obrigado, muito obrigado por me falar isso! Se não fosse
pelo senhor eu ainda estaria em apuros e...oh, Deus, ainda bem que Kim foi até
você e...ah eu tenho que ir! Até mais senhor Holmes”.
Barulhos de buzinas, alguns impropérios gritados pelos motoristas e lá
estava Henry Baker II correndo feito um louco pela rua.



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