Vários e vários anos haviam se passado desde que Smaug tomara Erebor, destruíra a próspera cidade de Dalle, ceifara centenas de vidas inocentes e expulsara Thorin e seu povo da cidade que eles haviam construído. A fumaça se dissipara, o fogo se extinguira, mas o terror daquele dia nunca fora esquecido. O rei por direito reconstruíra sua vida da melhor maneira possível, sempre buscando indicar aos demais o caminho mais honrado e digno a seguir, fazendo com que os anões que sobreviveram à fúria do dragão voltassem a prosperar, mesmo marcados por tamanha tragédia.
Mesmo incapaz de esquecer os horrores que presenciara no dia em que o monstro chegara, Thorin aprendera a enxergar e valorizar certos momentos em que a vida se tornava mais leve e colorida: as horas que passava junto aos sobrinhos pequenos, Fili e Kili, após longos períodos de trabalho ou em viagens com mercadores de Ered Luin. A irmã, Dís, ficara viúva havia alguns meses, e desde então, Thorin fazia questão de ser uma presença constante na vida dos sobrinhos, de todas as maneiras que aprendera com Thror e Thrain quando ainda nem tinha barba.
Os meninos, por sua vez, idolatravam o tio. Contavam as horas para vê-lo percorrer a rua que levava à praça do mercado, e corriam até ele assim que o mesmo pisava na primeira pedra da escada da frente, lançando-se nos braços do tio antes mesmo que Thorin tivesse oportunidade de dizer um "oi".
Nessas noites, jantavam sempre juntos, e o herdeiro de Durin fazia questão de ouvir o que Fili e Kili tinham para contar sobre o dia deles, todas as aventuras e descobertas. Mostrava-se sempre impressionado quando falavam sobre quantas latinhas vazias cada um derrubara com o estilingue, ou quem vencera a disputa com bastões, ou ainda, o que haviam feito de fantástico para fugirem de um banho bastante necessário. Para Thorin, era impossível não rir das traquinagens dos meninos, mesmo que a mãe deles fizesse cara de poucos amigos enquanto os filhos estavam por perto. Mas bastava os garotos pegarem no sono, após uma das histórias contadas pelo tio, para Dís comentar aos risos sobre as estripulias de ambos.
Numa dessas noites em família, após um jantar simples, mas não menos gostoso, Thorin se viu sentado próximo à lareira, embalado pelo som do crepitar do fogo enquanto soltava uma longa baforada de seu cachimbo. Fili e Kili, após um rápido e barulhento banho, juntaram-se a ele, sentando cada um num dos braços da grande cadeira que o tio ocupava.
- Tio Thorin - exclama Fili, com seus brilhantes olhos azuis -, que história o senhor vai nos contar hoje?
- Pode ser uma história de aventuras, com bravos guerreiros anões? - indaga Kili, saltitando inquieto no lugar.
O neto de Thror encarou-os em silêncio por algum tempo, recordando-se das histórias que ele mesmo havia ouvido quando criança. Haviam muitos heróis nos velhos contos e canções, mas nenhum deles presenciara ou lidara com um horror parecido a Smaug, nem vira ou sentira o que o fogo do dragão era capaz de fazer.
- Tio Thorin? - os meninos indagaram em uníssono, fazendo-o voltar ao "aqui e agora".
- Claro, teremos bravos príncipes guerreiros e aventuras - ele responde, colocando o cachimbo de lado e ajeitando os sobrinhos mais confortavelmente em seu colo. - "Numa terra longínqua ao norte, quase na borda do mundo, havia um único e solitário monte. Os mais antigos o chamavam de Montanha Perdida, e havia um terrível motivo para que fosse chamado dessa maneira...
Aquela montanha já fora o lar de um povo justo e próspero, mas fora perdida há muitos anos para uma besta de fogo e destruição: Marthran, um grande demônio alado com escamas de um vermelho tão vívido que, quando refletia a luz do sol, parecia inundar toda a terra num mar de sangue. Seu rugido se assemelhava ao estrondo da maior das tempestades, e fazia até mesmo o mais corajoso dos guerreiros estremecer. O vento quente produzido pelo seu voo era capaz de arrancar árvores e telhados, e o fogo por ele expelido arrasava plantações e cidades.
Durante muitos e muitos anos, o dragão viveu sob a montanha sem ser incomodado, desfrutando das riquezas que ali encontrara e incitando medo e ódio no coração de várias gerações. Durante todo aquele tempo, ninguém jamais ousara desafiar seu poder. Mas isso mudaria muito em breve...
Há milhas e milhas de distância da Montanha Perdida, dois jovens príncipes anões preparavam-se para marchar de encontro à Montanha e a Marthran, dispostos a depor o monstro e retomar a antiga cidade cravada no coração da montanha. Frerin e Darin eram descendentes do antigo Rei sob a montanha, e traziam em seus cernes o desejo de vingar todas as vidas perdidas no dia em que o dragão chegara, além da vontade de ver os salões de Ered Lumen repletos de vida outra vez.
Dessa forma, numa clara manhã de verão, os irmãos se puseram em marcha, munidos de machados duplos e simples, espadas de lâmina única, punhais afiados e um arco com uma aljava cheia de flechas com ponteiras feitas do mais antigo ferro azul, capaz de perfurar a mais resistente das defesas. Usavam também cotas de malha e armaduras de um bronze profundo, ricamente desenhadas nos padrões dos anões.
Montados em pôneis robustos e confiáveis, Frerin e Darin percorreram longas estradas e caminhos pouco conhecidos, enfrentaram grupos de orcs e monstros do lago, com presas afiadas e recobertos de musgo; e em outras ocasiões, depararam-se com grandes feras aladas, com seus olhos vermelhos e garras venenosas.
Várias semanas após deixarem para trás o lugar que chamavam de lar, os príncipes enfim depararam-se com as encostas rochosas da Montanha Perdida, uma longa extensão de terreno pedregoso e sem vida, onde nem mesmo os pássaros ousavam cantar. Nada crescia ali há várias décadas, e não se via nada além de poeira, destroços do que um dia fora uma próspera cidade e fuligem de dragão.
Mais dois dias foram necessários para que os anões alcançassem a entrada secreta no lado noroeste da montanha, ribanceira acima e sem a ajuda das montarias. Dizia a lenda que apenas os legítimos herdeiros de Ered Lumen seriam capazes de encontrá-la e adentrar por seus longos e escuros corredores. Um pagamento de sangue deveria ser realizado, e só então, a passagem tornaria-se visível.
A noite já caíra há muito quando Frerin e Darin finalmente se viram entre as paredes da montanha, contemplando o que um dia fora o reino de seus antepassados. Apenas mais alguns quilômetros corredor abaixo separavam os príncipes de Marthran, a besta de fogo e morte, e a expectativa para tal encontro tomava mais e mais os corações dos irmãos.
Ali, na relativa segurança dos corredores desertos, os anões de Ered Lumen deixaram-se cair ao chão, entregando-se a uma noite de sono repleta de sonhos de glória, morte e labaredas incandescentes. Acordaram algumas horas mais tarde, sem saber exatamente por quanto tempo haviam dormido ou em que parte do dia ou da noite estavam. Ali, entre as paredes de rocha sólida e fria, era fácil perder a noção do tempo, mesmo que isso não servisse de desculpa para adiar a missão que eles tinham pela frente.
Assim, deixaram para trás qualquer coisa que não possuísse uma lâmina ou uma afiada ponteira de ferro e começaram a longa descida até o grande salão do trono, onde era mais provável encontrarem Marthran refastelando-se num tesouro que não lhe pertencia. Caminharam em silêncio por um longo tempo, até por fim alcançarem o portal que os levariam aos grandes salões da cidade-fortaleza.
Depararam-se com paredes ricamente ornamentadas, mesmo sob uma grossa camada de poeira e fuligem, que seguiam por longos corredores, onde antigamente deveriam arder archotes para iluminar o caminho de quem passava por ali. E, reverberando fracamente entre as paredes, havia uma melodia calma e suave, que fez com que Frerin e Darin franzissem o cenho e encarassem desconfiados a penumbra à frente deles.
- Será possível que haja alguém vivendo nessas ruínas? - questionou o mais velho dos irmãos, seguindo em frente com passos cautelosos, mas não menos decididos.
- Se houvesse questionado há algumas horas atrás, eu diria ser impossível - Darin responde, honestamente. - Mas agora, já não tenho tanta certeza. Além disso - ele continua, com um leve sorriso -, é preciso ser muito corajoso, ou muito burro, para viver perto de uma criatura que pode separar sua carne dos ossos com um único sopro!
- Acho que a parcela de burrice seria maior, mas isso não vem ao caso - diz Frerin, com um leve dar de ombros. - Precisamos descobrir de onde está vindo essa música, e onde se esconde o dragão.
Após essa rápida conversa, os príncipes anões adentraram ainda mais no labirinto de corredores de Ered Lumen, sempre seguindo o som das notas suaves que flutuavam no ar carregado. A cada passo, mais próximos eles ficavam de descobrir a origem daquele som, embora não soubessem com certeza se aproximavam-se também de Marthran enquanto seguiam aquele caminho.
O que eles não esperavam era descobrir as duas coisas ao mesmo tempo: a origem da música e a localização da fera escarlate! Ali, no grande salão dos antigos reis do povo de Durin, o dragão dormia, com boa parte do corpo enterrado sob uma volumosa quantia de ouro. E próximo a ele, uma harpa dourada numa antiga caixa de música espalhava a melodia suave pelo ambiente, como se ninasse a grande besta! Conseguiam até mesmo ouvir o ressonar ruidoso do dragão, assim como também era visível a fumaça vaporosa que saía das narinas do grande animal.
- Já tinha ouvido falar sobre encantadores de serpentes no deserto, mas é a primeira vez que vejo um lagarto gigante num sono encantado! - o mais novo comenta, olhando a cena com uma expressão de sincero espanto no rosto.
- Talvez seja a nossa chance de livrar a Terra-Média da ameaça de Marthran de uma vez por todas! - o irmão exclama, desembainhando a espada e dando um passo à frente.
Nesse momento, o som de metal tilintando fez com que os príncipes parassem de imediato. Uma avalanche de moedas chegava aos pés deles, e esse era o único som que se ouvia naquele instante. Todo o resto mergulhara num silêncio mortal, inclusive a harpa dourada. Houve tempo apenas para que ambos se encarassem receosos por alguns segundos, antes de um grave rugido fazê-los cair de costas.
- QUEM OUSA ADENTRAR O MEU REINO E TOCAR NO MEU OURO? - o rugido rouco e ameaçador do dragão reverberou pelas paredes, fazendo tudo estremecer. - Está pedindo pela morte, está sim! Não encontrarão outra coisa senão fogo e dor nos meus salões, anões! - Marthran completou, erguendo-se magestosamente e tingindo de vermelho o ouro ao seu redor.
Um milésimo de segundo separou Frerin e Darin da grande labareda expelida pelo monstro no instante seguinte. Ambos rolaram para longe da grande besta, escapando do fogo no momento exato enquanto uma nova avalanche de moedas os soterrava.
- Darin, as flechas! - Frerin exclama ao finalmente colocar-se de pé, com a espada em punho. - Acerte-o, irmão!
- Flechas? Nenhuma flecha é capaz de perfurar o couro de um dragão! - a fera voltou a rugir, com um golpe monstruoso de sua longa cauda.
- Tem certeza disso, sua abominação? - o mais velho indaga, com um sorriso desafiador. - O ferro azul dos anões pode discordar disso! - ele completou, encarando a besta.
- Ferro azul? Apenas mito, pequeno ladrão - o dragão responde, mostrando as longas e afiadas presos no que parecia um sorriso desdenhoso. - Nenhuma arma é capaz de me matar!
- Isso é o que vamos descobrir- e agora era Darin que encarava o monstro, com a corda do arco esticada e uma flecha pronta para cruzar o ar.
- Dois ladrões? Tanto melhor, pois a refeição será mais farta! - Marthran ruge outra vez, lançando uma nova labareda em direção dos anões.
Na tentativa de escapar do calor abrasador, Darin deixou a flecha escapar antes de cair, passando longe o bastante do dragão para que ele nem mesmo percebesse a presença do objeto. Curiosamente, a harpa dourada foi atingida por essa mesma flecha após ricochetear numa das altas pilastras, fazendo com que algumas notas musicais voltassem a ressoar pelo grande salão.
Frerin, que observava cada movimento da besta, percebeu o exato instante em que a concentração de Marthran foi abalada pela música, como se ele se rendesse momentaneamente ao som.
- Irmão, a harpa é a chave! Acerte a harpa! - ele grita, brandindo a espada contra as escamas vermelhas do dragão, na tentativa de fazê-lo prestar atenção somente em si por alguns instantes. - Agora!
Ao comando do irmão, Darin puxou uma nova flecha de sua aljava, mirando-a diretamente nas cordas douradas do instrumento. No segundo seguinte, a flecha cortava o ar com um zunido surdo, fazendo com que a música voltasse a reverberar pelas paredes.
Percebendo que o dragão vacilara novamente, o mais novo dos príncipes atirou uma nova flecha, seguida de outra e mais outra, até que a harpa prosseguiu por si só com a melodia encantadora.
Marthran parecia cada vez mais confuso e lento, dando a Frerin a chance de aproximar-se o bastante para arrancar uma grossa escama vermelha de seu couro, muito próximo de onde deveria estar o coração da grande fera.
- Darin… Acerte o coração... Agora!
Com um movimento rápido, o anão lançou a última flecha feita do ferro azul, fazendo-a cortar o ar em velocidade e afundar-se, certeira, no peito de Marthran, fazendo-o rugir de dor antes de tombar de lado sobre o monte de ouro. A fera ainda resfolegou uma última vez antes de sua brasa extinguir-se e de suas escamas escurecerem, tomando a cor de um vermelho tão escuro que se parecia com sangue coagulado.
- Está morto? - Frerin exclama, incrédulo. - Está realmente morto! Darin, Marthran está morto! Nós conseguimos... - ele grita em seguida, largando-se de joelhos no chão, tomado por um misto de euforia e alívio.
- Retomamos o nosso lar, nós o vencemos! - o mais novo responde, aproximando-se do irmão e tocando em seu ombro.
- Ered Lumen é dos anões mais uma vez, vamos voltar pra casa.” - completa Thorin com um leve sorriso, encarando os olhares deslumbrados de Fili e Kili.
- Essa foi a melhor história de todas, tio Thorin! - o sobrinho mais velho exclama.
- E um dia seremos heróis, com o Frerin e Darin - completa Kili, atirando uma flecha imaginária.
- Ajudaremos o senhor a retomar Erebor, tio!
- E veremos o Rei sob a Montanha retornar ao seu trono.
- Tenho certeza de que, um dia, serão os heróis do nosso povo e farão parte de contos e canções de bravura - o herdeiro do trono de Erebor responde, bagunçando os cabelos de ambos. - Mas agora, é hora de irem para a cama, está bem? Até mesmo os melhores guerreiros precisam de descanso de vez em quando.


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