Hoje completavam exatamente dois anos que ele havia ido. Não, Sherlock Homes não estava morto, mas era como se estivesse. Na mente de alguns, como o pobre John, ele realmente estava, mas Molly sabia que não.
Ela havia ajudado-o a enganar todos, era a única além do irmão do detetive que sabia que ele ainda vivia.
Mas, na prática, era como se já tivesse sido enterrado. Não ouvia nada sobre ele desde o dia de sua “morte”.
Molly chegou ao hospital, e depois de diversos corredores vazios e silenciosos, onde seus passos ecoavam altos demais, chegou a sua sala. Cercada daqueles cadáveres, era onde se sentia mais segura. Os corpos sem vida era sua única companhia a muito tempo.
Ela havia terminado com Tom, porque ele lembrava demais o detetive que há tanto tempo não via, e isso machucava seu coração. No seu intimo, ela sabia que só havia namorado ele devido a essa semelhança, e agora ela queria se manter o mais longe possível de qualquer coisa que lembrasse Sherlock.
Ela fez uma xícara de café e, com um suspiro, sentou-se em um dos bancos da extensa bancada do laboratório. A porta atrás de si rangeu um pouco, e ela pensou que fosse o vento.
- Molly - a voz rouca chamou, e por pouco a caneca de gatinhos não cai de suas mãos, derrubando o líquido quente em cima de si.
Um “oh” foi tudo que pode escapar quando ela se virou e pode ver o homem alto parado em sua porta. O mesmo cachecol, o mesmo sobretudo, os mesmo cachinhos adoráveis, ele era o mesmo de dois anos atrás.
Nada mesmo havia mudado, nem mesmo o que ela sentia por ele. Molly pensou que todo esse tempo serviria para esfriar o sentimento em seu coração até um amor fraterno, porém foi só colocar os olhos nele para tudo voltar como uma explosão.
Ela não reparou quando abandonou a caneca na bancada, ou quando seus pés começaram a se mover. Ela já estava abraçada a ele, seus braços firmemente envolvidos e sua cabeça descansando no peito magro dele quando a consciência de seus atos voltou, e ela chorava silenciosamente.
Não de tristeza. De alegria, de saudades, de alívio. Mesmo se estivesse triste, seu coração sorria a presença de Sherlock, e por isso mesmo nunca conseguiu passar muito tempo triste, decepcionada ou magoada com ele.
- Também senti sua falta, Molly – ele respondeu, e sua voz soava como música aos ouvidos da médica. Ele a abraçou em retorno, mesmo de desajeitadamente, e ela sentiu mais lágrimas escorrerem por suas bochechas. Ela nem mesmo sabia o que sentir naquele momento.
Levou longos minutos para Molly se recompor e largar Sherlock. Antes disso, ela só ficou ali, mergulhada nos braços e no calor do detetive de uma forma que ela sabia que nunca mais conseguiria ficar. Aquela era uma situação especial, uma exceção.
- Certo, estou melhor agora – ela secou as últimas lágrimas com a manga de seu jaleco – Eu só fiquei feliz de te ver. O que houve que você voltou?
- Era a hora – ele sorria levemente para ela – Londres é a minha cidade.
Ele não queria falar o outro motivo. Admitir que sentia falta deles... Dela, especialmente, era difícil.
Durante os anos que passou fora, Sherlock ficou muito sozinho, e consequentemente, teve muito tempo para pensar. A única pessoa que mantinha contato com ele era seu irmão Mycroft, e... Bem, Mycroft é Mycroft. Não era realmente uma companhia.
Ele sentia falta de John, e de sua amizade, e de Mrs. Hudson, e mesmo de Lestrade. Ah, e a pequena médica. A falta que sentia de Molly podia ser comparada a que sentia de John – e isso era grande coisa -, mas de uma forma diferente.
Molly era sua amiga, sim, mas ele se pegou pensando em outras coisas. Na forma em que ela sorria quando trazia seu café, apesar da frieza que ele a agradecia, dos seus suéteres coloridos, de como era prestativa e sempre estava ali.
Ela não era bonita ou chamativa como ele imaginava que seriam as mulheres sexualmente atrativas. Loiras altas e esculturais, artificialmente bronzeadas e de dentes tão brancos que cegavam, trajando roupas curtas e papos fáceis.
Molly era simples, vestia-se como uma colegial e não parecia ter nada de especial na aparência. Mas, ainda assim, Sherlock a achava mais bonita do que qualquer uma dessas misses universo, se é que Sherlock Holmes tinha capacidade de achar alguém bonita.
Ele tinha, na verdade. Beleza é uma opinião, mas envolvia muitos padrões que ele conseguia desvendar e aplicar.
Por exemplo, ele sabia que A Mulher era bonita. Apesar de não se loira, ela se vestia e maquiava apropriadamente, era alta o suficiente, sedutora, além de ter um quadril largo. Quadris largos sempre foram importantes, porque ajudavam no nascimento do futuro bebê.
Molly não tinha quadris largos, mas isso não importava.
Ele nem mesmo sabia no que estava pensando, e balançou a cabeça para afastar esses pensamentos então. Ele havia aprendido a evitar pensar em Molly, porque isso o deixava confuso. Envolvia tantas coisas que ele não entendia, e Sherlock detestava não entender qualquer coisa.
Eles entraram num silêncio que não era propriamente estranho, mas ainda assim incomodou Molly.
- Que tal um café? – ela sugeriu apenas para quebrar aquele silêncio.
- Ah, sim, eu gostaria muito – ele respondeu, meio aéreo, ainda um tanto envolvido nos pensamentos misteriosos e indecifráveis, mesmo para ele.
Ela então saiu para o corredor rumo a sala comum, e ele seguiu atrás sem reparar. Ela pegou uma caneca branca no armário e encheu-a com o café que a pouco havia feito, e ele só a olhava com um olhar perdido, como se sua mente não estivesse ali.
- Pensando em John? – ela perguntou de repente – Ele sente sua falta.
- Hã... Sim. – ele demorou para responder, como se não estivesse ali, uma atitude estranha – Ele vai levar um grande susto quando me ver – ele riu – Ainda terei que pensar numa forma teatral de me apresentar.
- Tenho certeza que vai pensar em algo – ela estendeu a caneca para ele – Aqui está.
A mão dele esbarrou na dela, um enorme clichê. Mas não para o detetive. O frio na barriga não era comum, o calorzinho no coração também não. Ele se sentia congelado, admirado, assustado, tudo de uma vez só.
Ele queria abraça-la agora, e foi o que ele fez. Ainda com a xícara na mão, ele curvou-se até que pudesse enterrar a cabeça no ombro dela, e isso o fez se sentir melhor.
- O que é isso? – ela exclamou, surpresa.
- Não sei – admitir isso era problemático – Eu só senti uma enorme... necessidade de fazer isso. Acho que estou ficando doente. – e ele continuava abraçado nela, apesar da posição desconfortável, porque se separar seria pior.
- Você não parece quente – ela pousou a mão na nuca dele – Está sentindo algo?
- Não. Só... Só me abrace de volta. – ele pediu com a voz fraca.
O café esfriou na mão dele enquanto eles ficavam ali. Mergulhados no silêncio e no calor do abraço, eles tentavam entender o que acontecia.
Para Molly, ele havia voltado tão estranho, bem mais que o habitual. Ele nunca tinha sido tão tátil assim, nem parecera tão frágil. Ela se perguntava se algo havia acontecido durante aquele tempo. A perda de alguém amado? Mas seria mesmo Sherlock capaz de amar?
Sherlock estava imerso numa enorme confusão mental. Ele havia entrado naquela salinha bagunçada do seu palácio, a mesma que evitava fazia um longo tempo, e agora estava perdido na confusão.
Ele queria tantas coisas agora... Ele queria continuar nos braços de Molly, e também queria ir embora, se afastar, porque ela era a culpada por aquela confusão... Indiretamente, pelo menos.
E, para piorar, ele sentia algo que nunca havia experimentado na vida. Era uma espécie de formigamento. Uma necessidade de estar permanentemente junto a ela.
Então a porta abriu com um estrondo, e uma garotinha loirinha estava parada a porta. O susto foi tanto que Sherlock chegou a dar um salto para trás (e como ele não ouviu os passos da menina? Ele estava ficando fraco?), enquanto Molly encarou, envergonhada, o chão. Era constrangedor ser pega numa situação assim, principalmente quando ela era inocente.
- Ops, aqui não é o banheiro, né? – ela falou em sua voz fininha.
- Não, querida. Mas eu posso te levar até lá – Molly, já recuperada do susto, respondeu – Como é seu nome, bonitinha?
- Emma! – ela sorriu – E o seu, moça legal?
- Eu sou a Molly, e meu amigo ali é o Sherlock – ele acordou do transe que estava ao ouvir seu nome, e olhou para menina.
- Sherlock, que nome estranho! – ela enrugou o nariz, e depois riu, enquanto pegava na mão de Molly que a conduziria pelos corredores. Sherlock seguiu-as, não querendo ficar sozinho na sala.
- Estamos começando uma investigação – Molly começou, tentando distrair a menina – Meu amigo é detetive, sabe, ele vai nos ajudar a encontrar o banheiro.
- Eu vou? Por Deus, Molly!, você trabalha aqui a anos e sabe perfeitamente onde fica o banheiro!
- Calado! – o olhar que ela lançou para ele realmente o fez calar – Entre na brincadeira! - Molly sussurrou.
- Sério que você é detetive, amigo da Molly?! – Sherlock era um nome complicado demais para a pequena Emma pronunciar – Que legal! Você desvenda mistérios?
Sherlock se segurou para não responder que não “desvendava mistérios”, mas sim usava a lógica em situações que mentes normais não conseguiam usar. Mas a garotinha era menos ainda que uma mente adulta normal, ela era só uma criancinha, então ele só concordou.
Os banheiros eram relativamente perto de onde estavam, então em pouquíssimos minutos já estava na frente da porta com um bonequinho de vestido branco em fundo rosa.
- Chegamos Emma! – Molly anunciou – Posso perguntar onde sua mãe está? – ela não queria deixar a menina sozinha, claro.
- Ela está na recepção, a gente veio aqui porque meu irmão quebrou o braço – ela explicou.
- Ah... Que bom que não é nada sério, não é mesmo? Acha que consegue achar o caminho depois?
- Sim, consigo sim. Obrigada Molly, você é muito legal! – ela acenou, entrando no banheiro – Você também, amigo detetive da Molly!
Sherlock se permitiu sorrir levemente. Ninguém nunca tinha o chamado de legal tão rapidamente assim. Quer dizer, poucas pessoas no mundo já haviam considerado ele uma pessoa legal, pessoas que não encheriam uma mão se contássemos, e geralmente levava um tempo até chegarem nessa conclusão.
- Quem diria, Sherlock Holmes sendo legal! – Molly riu, ratificando o pensamento dele.
- Ei, eu posso ser legal sim, tá... – ele cruzou os braços, emburrado como uma criança pequena.
- Duvido! – ela riu enquanto voltavam para o laboratório. – Sério, eu te desafio a ser legal com alguém.
- Desafia? – ele ergueu a sobrancelha – Você sabe que não recuso um. Aceito.
E ele sabia exatamente o que fazer. A forma mais rápida de ganhar aquela aposta era ser legal com ali que já estivesse ali, e os únicos presentes eram ele e Molly. A lógica, então, dizia para ele ser legal com ela.
Mulheres... Não eram exatamente um problema. Complicadas talvez, complexas, mas não um problema. Ele sabia lidar com elas, agradá-las, ser cortês e galante. Talvez a aparência não fosse o seu forte, mas a gentileza poderia ser.
E, principalmente, ele conhecia Molly. Ele sabia como ser “legal” com ela.
Era simples. Ele a puxou pelo braço até colar o corpo ao dela e a beijou. Ele tinha certeza que esse momento era o maior sonho dela (ou talvez ele só estivesse sendo estupidamente convencido).
Quando o beijo foi quebrado, Molly não sabia onde enfiar a cara. Ok, ele definitivamente havia ganhado aquela aposta. Mas todo o esforço dela em esquecê-lo teve seu derradeiro final naquele instante. Não que ela tivesse tido tanto progresso, de qualquer forma, mas tudo o que havia conquistado estava no lixo agora. Ela irrevogavelmente amava Sherlock, e nada poderia mudar isso, não mais.
- Acho que ganhei – ele comentou, dando um passo para trás e ajeitando seu sobretudo – Eu preciso ir agora Molly. Mas tarde discutimos o meu prêmio pela vitória.
E, com uma piscadela, ele saiu da sala rumo à saída do hospital. Plantar uma bomba e sair de fininho, oh, isso era tão a cara dele.
Molly é quem não sabia onde enfiar a sua. Como ela o encararia mais tarde? Será que aquele beijo significou algo para ele, ou ela era a única boba balançada?
Ela voltou as suas atividades, como se para esquecer que, mais uma vez, o fantasma de Sherlock Holmes havia vindo assombrá-la. E para apagar também de sua mente o quanto ela gostava disso.
Já Sherlock, enquanto caminhava pelas frias ruas de Londres, pensava na sua inesperada atitude em relação à morena. Para qualquer um que perguntasse, ele responderia que foi apenas para ganhar a aposta, mas no fundo... Ele sabia que havia mais. Que aquele beijo, nada mais que lábios colados, tinham outros significados.
E assim ele descobriu que havia cometido outro erro. Se importar era um erro, e ele já amava John. Agora, ele amava Molly também. E talvez bem mais do que deveria.
- Infelizmente não tem fotinho de gatinho com o meu nome :(
1 comentários:
Ficou um amorzinho, e olha que eu nem shippo Sherlolly! Bom, eu shippava tudo em Sherlock há um tempinho atrás, mas algo obscuro aconteceu e corrompeu a minha mente... Voltando a fic.
Primeiro, a foto da capa. (não sei se fala capa aqui...), eu acho essa cena sexy as hell, devia ter um tutorial de "Como beijar uma garota" com o gif dessa cena, explicado tudo detalhadamente.
Eu estava tendo uma sensação estranho de "já li isso antes", aí chegou na parte da garotinha, e eu lembrei que você já me mandou isso. Essa one, inclusive, ficou muito fofa, o que é meio inesperado, considerando que... well, you know.
O abraço foi minha coisa preferida, amo abraços, mesmo acreditando que o quote "Never a trust a hug, it's just a way to hide your face", eu acho que todo mundo precisa de um de vez em quando... Até mesmo o Sherlock.
"- Não sei – admitir isso era problemático – Eu só senti uma enorme... necessidade de fazer isso. Acho que estou ficando doente. – e ele continuava abraçado nela, apesar da posição desconfortável, porque se separar seria pior.
- Você não parece quente – ela pousou a mão na nuca dele – Está sentindo algo?
- Não. Só... Só me abrace de volta. – ele pediu com a voz fraca."
Ahhh Sherlock, não precisa mentir que está doente. Todo mundo sabe que você só queria abraçar a Molly <33
Adorei a garotinha, e fico feliz que você não tenha tirado ela da história. Eu li uma one que ele cuida filha do John/Mary, e ele pode ser super legal com crianças também. Tipo o Archie (é Archie ?), ele lidou muito bem com ele.
"E assim ele descobriu que havia cometido outro erro. Se importar era um erro, e ele já amava John. Agora, ele amava Molly também. E talvez bem mais do que deveria."
Ouço a voz do Mycroft na minha cabeça "Caring is not an advantage, Sherlock"
Adorei a one, e desculpa se o comentário ficou pequeno :(
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