Ah, o Natal! Essa época tão festiva e ao mesmo tempo tão fria...
Sherlock lembrava bem de como era o Natal da família Holmes, nunca o presente
que ele ou Mycroft anotavam no cartão de “sugestões” era dado a eles quando era
sua irmã que tirava um dos dois, e, ah, como a baixinha tinha uma sorte danada
de tirar eles. Sherlock podia jurar que havia dedo dos pais dele nisso, mas ele
nunca quis comentar isso com Mycroft. Afinal era bem capaz de o irmão armar uma
guerra em plena a ceia por isso.
Mas, agora, anos depois. Ele já era adulto e ver seus pais era uma das
tarefas mais difíceis de se fazer na vida. Mycroft às vezes dava as caras na
ceia que a Sra Hudson fazia para marcar a data, mas não era uma presença
confirmada todos os anos.
Mas, se não havia Mycroft, ainda havia John, Greg, Mary, Molly e a
própria Martha Hudson. Afinal, sozinho era a única alternativa que ele não
teria para as festividades. Mesmo se ele estivesse em meio a um caso
intrincado, o próprio Lestrade o faria deixar as coisas para depois e comer a
janta da senhora antes (para não magoá-la, claro).
Mas desde que Mary havia se juntado a eles uma revolução estava a ponto
de ser estabelecida. A loira queria que todos “se divertissem mais”, não apenas
que comessem um monte e se sentassem nos sofás do apartamento de Sherlock. Ela
queria troca de presentes, e não que apenas Molly, a senhora Hudson ou ela
comprassem, ela queria que todos (e isso incluía miseravelmente Sherlock)
dedicasse um minutinho que fosse de seu tempo para comprar algo para presentear
alguém.
Se Sherlock pudesse escolher qualquer um dentre todos, com certeza ele
daria um presente a Martha por aturá-lo há tanto tempo. Por ser tão (ou até
mais) próxima a ele que sua própria mãe. Por aturar suas maluquices e ainda
assim o querer por perto. Ela merecia, com certeza e ele daria a ela...
Ou será que daria a John? Afinal ele foi o seu melhor amigo, o primeiro
a levar o título, embora não fosse mais o único. Sim, porque agora também havia
Mary na jogada. A radiante esposa de John, uma figura que Sherlock aprendeu a
amar. Ela que é sagaz, esperta e entende seu modo de pensar, porque não
presenteá-la?
Mas, se for para falar de quem “entende” Sherlock, ele teria que abrir
uns parentes ali e colocar Molly. A legista podia não ser tão inteligente
assim, mas ela sempre foi aquela que o ofereceu uma mão nos momentos mais
difíceis, passando por cima de seu próprio orgulho para ajudá-lo, o entendendo
melhor que qualquer um, sendo a grande amiga leal que não o questionava...
Mas, questionamento era a marca registrada de Greg também! O policial
podia até não dar com a cara de Sherlock no começo, mas ele definitivamente foi
à pessoa que mais o aceitou de braços abertos e sem uma critica que fosse após
“voltar dos mortos”.
Quer saber? Se tivesse que escolher alguém Sherlock estava perdido,
miseravelmente perdido, então a ideia de Mary de fazer um “amigo secreto” não
parecia à pior de todas não. Ok, certo que ele não daria o braço a torcer, não
se mostraria tão entusiasmado em participar, mas o que os outros pensariam dele
se ele agisse assim, não?
E após ela fazer com que todos tirassem um papel com o nome de alguém e
ele quase deduzir quem havia tirado cada um na hora (afinal a maioria acabava
olhando para quem tirou no instante seguinte. Como eram bobos, não? “Só não
adivinhava ‘quem tirou quem’ aquele que não quisesse” segundo ele deduziu).
Quase porque uma ou outra pessoa havia lhe deixado com uma leve dúvida, mas ele
deixou passar, pois a mulher de John precisava falar quais seriam as regras
antes que todos corressem porta a fora.
Mas Mary foi rápida na formulação das variantes, estipulando um valor
mínimo, proibindo a todos de causar vergonha aos demais na hora de dar as dicas
de quem era seu amigo secreto (Sherlock perguntava o porquê de ela o ter
olhado, mas deixou passar) e proibiu presentes que não pudessem ser levados até
lá. Ela também deu apenas 24 horas para que todos comprassem o presente para
seu amigo e na noite seguinte estariam todos reunidos novamente.
E aonde exatamente iriam se encontrar outra vez? Oras, claro que na
casa de Sherlock! Ele não sabia precisar o momento que sua casa virou point de encontro ou se a decisão dela
foi tomada apenas para que ele não tentasse fugir de participar. E, bem, ele
também tentou cogitar mentalmente a hipótese de terem se preocupado de como a
senhora Hudson andaria sozinha pela rua, então tentou não fazer nenhuma
objeção, já que o motivo principal poderia não ser exatamente ele.
E no dia seguinte, ou melhor: noite, lá estavam eles reunidos. Martha
Hudson andava de um lado para o outro, trazendo tudo o que havia cozinhado para
o apartamento de Sherlock. Ele se perguntava como ela havia tido tempo de
cozinhar e comprar o presente de seu amigo secreto... Ele havia ficado em
dúvida com ela, embora devesse ser simples definir que a senhorinha tirou, ele
realmente havia ficado com uma leve dúvida.
O ponto principal é que na hora
marcada estavam todos reunidos na sala de Sherlock para revelar o amigo
secreto. Molly ajudou Martha a servir chocolate quente (a desculpa era que se
alguém bebesse algo, Mary poderia ficar com vontade e ninguém queria que a
filha de John nascesse com cara de Martine, por exemplo...).
Após isso, Sherlock estava a ponto de pegar seu violino para fazer o
tempo passar mais rápido, mas John pareceu prever isso e sugeriu que se
começasse a revelação do amigo secreto. Mary concordou sorridente, dizendo que
não agüentava mais esperar. E se Mary estava curiosa...bem, não havia nada que
não fizessem para uma mulher grávida ser alegrada, foi o que Sherlock concluiu.
Por alguns instantes todos se encaravam com cara de paisagem e ninguém
parecia querer tomar a dianteira. Sherlock, contrariando a tudo, foi o primeiro
a se manifestar, o que instantaneamente fez os olhares se voltarem a ele com
espanto. Afinal todos ali achavam que ele seria a ultima pessoa a se
prontificar em começar a brincadeira e o fato de ser justamente ele o primeiro
calou qualquer votação ou sugestão de quem fosse.
- A pessoa que eu tirei tem a altura mediana... Claro, digamos que se
for ver, pelos últimos indicativos de altura publicados pelo senso deste ano,
essa pessoa está exatamente na linha de altura média da população inglesa... Em
seu sexo, aliás. Porque, se formos analisar... – ele começou a falar, mas John
o cortou.
- Entendemos a altura Sherlock, pule para outro ponto, por favor.
- Todo mundo já entendeu que você não se tirou, querido! – Martha
completou docemente, mas aquele sorriso meio bobo indicava a Sherlock que
aquela senhorinha safada havia sim bebido algo alcoólico escondida. Mas, por
Mary, era melhor não comentar isso.
Sherlock rolou os olhos e bufou frustrado, “ok, vamos encerrar isso
logo, vamos a dicas comuns”.
- Certo, a pessoa que eu tirei consegue me suportar... – mas Sherlock
foi interrompido por um pigarro de Lestrade.
- Isso pode ser qualquer um dos presentes nessa sala, então – ele disse
sorridente, quanto todos seguiam com risinhos.
- Dê pistas mais fáceis, por favor – Molly pediu gentilmente.
- A pessoa tem um diploma e o usa...
- Bem, isso é intrigante, eu nunca perguntei quem tinha um diploma
entre nós... – John disse sem graça. – Embora seja aparente que Molly e eu
temos...
Lestrade pigarreou mais uma vez, sem graça.
- E eu, não é mesmo?
- Ah, sim – John disse sem graça. – E você, claro.
- Se eu der mais uma pista então ficará óbvio... – Sherlock disse ao
dar de ombros, mas ao invés de dizer qualquer oura coisa, ele caminhou até
Molly e lhe estendeu uma caixa. – Todos são péssimos em dedução aqui, mas,
Molly Hooper, eu tirei você.
- Oh, sério? – ela disse sorridente, pegando a caixinha em mãos.
–Obrigada e, ah, estou curiosa!
Todos encaravam o pacote na mão de Molly e quando ela tirou o que havia
lá dentro ninguém sabia se riria ou não, já que a cara que médica fez foi de
extrema derrota.
- Ah, um rolinho de pelos... Obrigada... eu acho... – ela praticamente
sussurrou a última parte, mas Sherlock e todos ouviram.
- Eu estava cansado de ver tantos pelos de gato em suas roupas e, bem,
não são pelos dos gatos desenhados, então achei que lhe seria algo muito útil –
e ele ainda teve a cara de pau de sorrir depois, mas ela continuava encarando o
rolinho em sua mão. E, bem, eu achei que causaria essa decepção em você também,
afinal nem sempre queremos algo útil, não? – ele emendou falar e tirou de seu
sobretudo uma outra caixinha. – Então seu presente é composto, pegue – ele
jogou a caixinha para Molly, que não conseguiu pegá-la no ar, mas foi ajudada
por Lestrade.
Ela agradeceu o auxilio e, desta vez, ao abrir seus olhos brilhavam de
felicidade, não demorou para que ela tirasse a pulseirinha com “gatinhos de
prata”em várias poses possíveis e novelos de lá presos em pequenos pingentes a
ela.
- Oh, é linda – ela disse sem graça, indo abraçar Sherlock. – Obrigada!
E após os agradecimentos, que terminaram deixando ambos meio sem graça
após o abraço, Molly (já de pulseira nova) decidiu continuar com o amigo
secreto de uma vez, afinal todos estavam bem curiosos quanto a seus presentes,
ela tinha certeza.
- Bem, minha vez – ela disse o óbvio, mas ninguém fez nenhum comentário
sobre isso – a pessoa que eu tirei é muito dedicada em seu trabalho.
- Obrigado Molly – Sherlock estendeu a mão, mas ela puxou o presente
para si.
- Hei, não é você! – e ele acabou dando de ombros depois, já que todos
estavam tentando esconder seus risinhos com a cena.
- Então é você John... – Sherlock ainda fez sua última tentativa.
- Não é não!
- Impressão minha ou ele acha que nós não trabalhamos? – Mary cutucou
Greg e comentou séria, mas ele deu de ombros.
- Acho que é o inspetor – Martha comentou após bebericar seu copo de
vinho.
- Sim! – Molly disse aos pulinhos, indo até Lestrade para entregar seu
presente. – Greg é meu amigo secreto.
- Obrigado, Molly – e ele realmente pareceu feliz com quem o tinha
tirado, já que praticamente esqueceu da senhora Watson ao seu lado e foi abrir
seu presente.
- Eu achei que você gostaria de algo para carregar sua papelada da
polícia – ela disse sorridente quando ele tirou uma bonita pasta de couro de
dentro do pacote.
Era possível ver no ar o como Lestrade realmente parecia nas nuvens por
ser Molly a pessoa que o tirou, aquilo deixou pareceu deixar Sherlock bem
irritado, já que ele pigarreou e sugeriu que o inspetor dissesse logo quem ele
havia tirado de uma vez, enquanto demonstrava sua irritação se sentando ao lado
de seu violino.
- Ah, sim. A pessoa que eu tirei é alguém muito querido.
- Podemos excluir o Sherlock então, não? – Mary perguntou sarcástica.
- Ah, a vingança feminina... – Sherlock disse com um sorriso sem graça,
mas ela riu em retorno e piscou pra ele.
- Sou rancorosa sim, pergunte ao John.
- Ah ela é mesmo... Mas também é bem querida, seria Mary, Lestrade? –
ele perguntou ao amigo, mas teve uma negativa em resposta.
- Vá pegar seu presente senhora Hudson – Sherlock disse desgostoso, mas
fazendo a velhinha dar um pulinho de alegria quando Greg confirmou que era ela.
Martha iria pegar o embrulho, mas Greg a advertiu que era pesado para
ela e colocou em cima da mesa. Sendo assim, a boa senhora foi para lá ainda
mais alegre e ficou radiante ao rasgar o papel de presente e deparar-se com uma
linda caixa de madeira lustrosa. Rapidamente ela mexeu no fecho a abriu, seus
olhos se encheram de lágrimas quando ela viu aquele belo e completíssimo
faqueiro de prata a sua frente.
- Mas é uma das coisas mais lindas que eu já ganhei na vida! – ela
disse honestamente e deu um abraço calorosos em Greg.
Até mesmo Molly e Mary deram um jeitinho de espiar dentro do presente
da senhora Hudson e seus olhinhos brilharam também com a visão dos talhes com
detalhes delicados em seus cabos efeitos de prata inteiriça. Era possível ver
seu próprio reflexo sem trabalho em cada uma daquelas peças.
Martha voltou até a sala e pegou dois pacotinhos, dizendo sem graça.
- E, bem, a pessoa que eu tirei é alguém que mora em meu coração – a
senhorinha começou a falar emocionada – e para mim é como um filho, mesmo com
todos os seus defeitos, é claro. – E embora Sherlock já estivesse de pé de
novo, ela estendeu as mãos para John. – E isso é para você, meu querido, mesmo
que tenha me abandonado. Aliás, eu só posso me alegrar por fazer ele continuar
vindo aqui, viu querida? – ela completou ao olhar para Mary, que tinha os olhos
cheios de lágrimas com as palavras iniciais da senhorinha.
John deu um passo a frente a agradeceu a senhora Hudson, mas ela não o
deixou abrir já, pois tinha mais um presente a dar.
- E como toda mãe, não posso fazer desfeita senão vou deixar alguém
emburrado, não? – ela disse ao dar uma cotoveladinha em Mary e seguindo
sorridente até Sherlock com outro pacotinho. – Pronto, assim nada de briga...
Tanto Sherlock quanto John abriram seus presentesapós um agradecimento
a senhorinha e se depararam com cachecóis, certamente feitos por ela, mas o de
John era vermelho com uma letra “J” bordada em uma das pontas e o de Sherlock
era azul com uma letra “W” bordada em uma das pontas.
- Só ficou faltando o seu Greg – a senhora Hudson comentou.
- Mas... W? - Mary perguntou sem
graça. – Acho que a senhora errou...
- Não errou não, amor, Sherlock tem como primeiro nome Willian – John
disse sorridente, enquanto a esposa faziam um “ahhhh”, que foi seguido também
por Molly e Lestrade. – Eu não fazia ideia.
- Uma mãe sempre sabe o nome de seus bebês, querida – a senhorinha
completou.
Antes que a situação toda ficasse mais constrangedora, John decidiu que
estava na hora de ele continuar logo com a revelação do amigo secreto.
- Minha vez, então... – ele disse sem graça, segurando seu embrulho. –
A pessoa que eu tirei é alguém muito importante para mim.
- Isso é vago, querido – Mary disse com um sorriso – já que só sobraram
Sherlock e eu – ela piscou depois para deixá-lo ainda mais corado.
- De fato... E se eu disser que conheci essa pessoa em um momento
difícil não ajuda, né?
- Definitivamente ficamos na mesma, John – Sherlock em tom de desafio.
John não era bom em manter o mistério, e isso ficou totalmente claro
quando ele andou até Mary e lhe entregou uma caixa grande.
-Eu tirei você, minha querida.
- Owwwn! – ela disse feliz. – Então eu acho que deveria ter ido com
você as compras, não? – ela brincou, lhe dando um selinho em agradecimento. –
Não importa, o que for eu sei que vou amar.
E dito isso ela abriu a tampa da caixa
encontrou um livro que parecia bem antigo e uma caixa ainda menor.
- Esse livro era o que minha mãe usava para contar histórias para
Harriet e eu, achei que nosso bebê iria gostar dele.
- Isso é tão fofo – ela disse agradecida de verdade, enquanto as outras
mulheres da sala faziam sonoros “oowwwnns”.
Mas logo Mary pegou a outra caixinha e a abriu, deparando-se com um colar
com um pingente de menininha em ouro. Ela levou a mão à boca emocionada, mas
depois que voltou a si, deu vários selinhos em John enquanto agradecia o
presente.
Após se recompor e dar um jeitinho de espantar as lágrimas de
felicidade em seu rosto, Mary se levantou sorridente e encarou Sherlock.
- Não vai ter graça eu fazer mistério, né?
- A não ser que você tenha tirado Mycroft.
- Mycroft estava brincando? – a senhora Hudson perguntou confusa. Mas
como John negou com a cabeça ela decidiu voltar a beber seu vinho e fingir que
não havia perguntado aquilo.
- Mas realmente eu estava curioso para saber como você me descreveria,
senhora Watson.
- Ah – ela deu de ombros, – eu podia começar com as tais estatísticas
de altura ou então falar sobre ser alguém que conheceu John antes de mim... Não
sei, mas, o que importa é seu presente, não é? – ela tentou mudar de assunto,
levando para ele o presente de uma vez, já que ela era extremamente grata por
ser salva de ter que dar pistas de quem tirou.
Sherlock pegou o estranho embrulho vermelho com um ar levemente
desconfiado, mas antes que ele pudesse abri-lo, Mary já se pôs a explicar.
- Como eu não achei que encontraria nada que pudesse te surpreender em
uma loja, acho que vai gostar disso, já que não veio de loja alguma.
- Seria um colar de macarrão? Você está treinando como fazer isso para
ajudar sua filha no pré- escolar? – ele perguntou levantando as sobrancelhas,
tentando parecer sério, embora falasse em tom de zombaria.
- Claro que não - a loira responde, dando um tapinha no ombro do
detetive. - É só algo que talvez você entenda, porque eu só posso olhar para
isso aí e achar bonito. Mas saber o que tem aí de fato… Aí já são outros
quinhentos...
- Você me deu um caso, então? – ele perguntou intrigado, começando a
abrir o embrulho.
- Na verdade, não - e a resposta dela fez Sherlock encará-la com uma
leve curiosidade transparecendo em seu semblante. - Meu bisavô por parte de pai
era músico e compositor, e havia algumas partituras dele perdidas na casa da
minha antiga família. Eu imagino que sejam músicas muito bonitas, já que meu
pai falava sempre com grande respeito do avô talentoso. - ela continuou a
explicar, sorrindo. - Enfim, eu só posso acreditar na palavra de meu falecido
pai, mas você poderá confirmar, não? - a esposa de John completou, saltitando
no lugar como uma menininha de cinco anos.
Sem demonstrar nenhum outro sentimento além da seriedade habitual, o
detetive por fim tirou um pequeno maço de folhas amareladas de dentro do papel
decorado com sinos natalinos. Sherlock examinou as partituras, uma a uma, sem
dizer uma palavra sequer, o que estava deixando Mary mais ansiosa a cada
instante.
O que ela não tinha como saber, já que ele não demonstraria com tanta
facilidade - é claro! -, é que o detetive estava realmente maravilhado com o
conteúdo que tinha em mãos. Com a rápida análise que ele fizera, já pudera
concluir que tinha um material excelente em mãos, verdadeiras obras primas que,
executadas por um músico de talento, fariam até mesmo a pessoa mais fria se
desmanchar em lágrimas.
Com um suspiro teatral, Sherlock deu as costas aos amigos e dirigiu-se
até seu violino, tirando-o do suporte em seguida. Apoiou a primeira partitura
sobre a mesinha de canto e arriscou executar algumas notas, fazendo-as saírem
totalmente desafinadas e fora do compasso só para criar um climazinho básico de
suspense.
- Oh meu Deus, isso é péssimo - Mary murmurou, levando as mãos ao
rosto.
Essa foi a deixa para o detetive-barra-violinista fazer soar pela
aquecida sala do 221B da Baker Street as notas suaves e cadenciadas da
composição do bisavô da senhora Watson, que no instante seguinte o encarava com
uma expressão admirada e com pequenas poças de lágrimas já formando-se em seus
olhos claros.
Conforme a música ganhava vida e corpo aos comandos suaves de Sherlock,
um a um dos presentes se entregava à emoção: Molly já sentara-se na poltrona
normalmente ocupada pelo detetive, chorando copiosamente enquanto o observava;
Greg levara uma das mãos à boca, numa tentativa fraca de esconder o que estava
sentindo; John, por sua vez, postara-se ao lado da esposa enquanto afagava as
costas dela e secava suas lágrimas cristalinas; e até mesmo Martha havia
deixado de lado seu chocolate quente
batizado com vinho para prestar total atenção na melodia que preenchia o
ar.
Minutos mais tarde, quando aquela primeira composição chegou ao fim, o
homem dos cachos encantadores voltou a pousar seu violino no suporte,
dirigindo-se diretamente até Mary em seguida e abraçando-a apertado.
- Obrigado por confiar a mim um bem tão valioso, Sra. Watson - disse
ele, com a voz levemente embargada. - Sinto-me honrado e profundamente grato -
completa, meio sem jeito, libertando-a do abraço.
- Milagres de Natal existem, meus queridos - exclama a Sra. Hudson, com
um largo sorriso. - Sherlock enfim foi capaz de demonstrar sentimentos! -
completa ela, fazendo o detetive cruzar os braços no segundo seguinte, na
melhor pose de garotinho emburrado.
- Acho que já chega de vinho pra você, Martha! - ele responde,
aproximando-se rapidamente e esvaziando o copo da senhorinha num só gole. -
Vamos jantar!
E dizendo isso, Sherlock tomou seu lugar à grande mesa de jantar que
eles haviam montado, sendo prontamente seguido pelos demais. E bem, ele jamais
confessaria, mas sentia-se realmente feliz aquele momento.



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