Pra começar tudo. Ela sentia ódio por ele ser tão exibido. O achava a pessoa mais petulante da face da Terra. Se irritava pelo fato de ele se achar sempre o dono da razão e adorar humilhar a força policial mais do que ajudar de fato a solucionar crimes.
Tudo nele a irritava, da altura ao perfume que usava. Da postura aos cabelos enrolados. Ela seria capaz de pedir um peblicito a própria rainha para que proibisse as pessoas a usarem sobretudos e a manterem cachos no cabelo, só para ver como ele iria se sair dessa. Talvez ela pedisse para a rainha abolir os homens com mais de 1.80m também, e assim ela se veria livre dele de uma vez por todas.
Ela tinha certeza que todos os ingleses seriam solícitos a ela e votariam para abolir o estilinho daquele idiota sem tamanho. Aliás, tamanho ele tinha sim, o exato para ser o maior inconveniente possível. Como Lestrade aguentava aquilo mesmo? Ela não sabia dizer.
Sally mal acreditava que teria que trabalho com ele. E sozinha! Maldito momento que Lestrade resolveu tirar férias! E onde estava aquele médico amigo dele, o tal de John Watson? Ele era bem mais agradável, mas ela não podia vê-lo em lugar nenhum.
Ela sabia sim que Lestrade merecia um tempo para ele, para espairecer e esquecer um pouco como era trabalhar tendo aquele idiota sempre por perto. Aliás, Sherlock brotava da terra nos momentos mais inoportunos, ela tinha certeza que Lestrade nunca o chamava, mas ele sempre estava lá.
Havia um corpo estatelado no chão da praça central de Londres, não era uma cena bonita de se ver as 8 horas da manhã, ainda mais após o café que Sally havia tomado as pressas. Mas ela não podia se dar ao luxo de escapar de seu dever.
E para piorar em absoluto toda a situação, era justamente o “aspirante a detetive” que havia tido a infelicidade de encontrar aquele homem morto na praça e havia telefonado para a delegacia. Ah, como Sally amaria colocar a culpa nele e deixá-lo trancado em uma cela por uma semana, mas ela sabia que ele daria um jeito de sair em menos de horas, então era bom tirar aquele pensamento de sua mente.
- Eu dei uma olhada no corpo enquanto vocês não chegavam. – ele comentou, se aproximando dela quando ela saltou do carro. Ah, ele sabia que dizer isso a ela era quase como um enfrentamento, o desrespeito que ele tinha com o trabalho policial a tirava do sério – Inclusive, vocês demoraram demais! 15 minutos para chegar aqui, vocês poderiam ter perdido vários detalhes e suspeitos.
- Sorte nossa que você estava aqui, não? – ela comentou com ironia, respirando fundo para não pular no pescoço dele.
- Sim, sorte mesmo. Lestrade não pode sair de férias que isso tudo já vira uma bagunça? – ou ele não sabia reconhecer uma ironia, o que ela duvidava, ou ele estava jogando com ela. No fim, ambas as coisas eram profundamente irritantes.
Ela se sentia tremendamente repetitiva, mas esse homem a tirava do sério, e “irritante” era a única palavra que ela tinha para defini-lo agora.
Ela passou por ele e seguiu até o corpo, não que ela quisesse, mas teve que levar a mão a boca ao ver a situação daquele homem, era como se ela estivesse vendo um porco acabar de ser abatido no matadouro. Ele era gordo e estava ensanguentado da cabeça aos pés. Ela teve que segurar a náusea e seu café da manhã dando voltas para o caminho errado.
Mas, claro, tudo tinha como piorar, pois Sherlock estava ali e fez pouco caso de sua situação no instante em que chegou ao seu lado.
- Acho que Lestrade fez mal em deixá-la no seu lugar. Anderson não estava disponível? Eu acho que ele não correria o risco de vomitar na cena do crime, sabe?
Ela tentou se recompor rapidamente e se virou para Sherlock possessa. Quem aquele imbecil achava que era? Ele estava falando com uma policial de verdade, não com um metido a espertinho que ganhava a vida como “detetive particular”. Ele deveria respeitá-la, no mínimo, já que ela fazia parte daqueles que realmente mantinha a vida das pessoas seguras, não é mesmo?
- Cale a boca e me deixe fazer meu trabalho! – ela praticamente rosnou para ele.
- Se você ainda o fizesse com destreza e eficiência... – ele revirou os olhos, e ela decidiu que o melhor tratamento para ele era o silêncio. Sherlock era o tipinho que precisava sempre ter a última palavra, por mais estúpida que essa última palavra fosse.
O problema é que Sherlock nunca era estúpido.
Ela ajudou os policiais a cercarem o corpo e deu ordem para que eles mantivessem todos os curiosos longe, e depois de vestir suas luvas, ajoelhou-se perto do corpo em busca de evidências.
- O horário de morte foi entre 2h e 4h da manhã, a julgar pela rigidez do corpo e pelo sangue acumulado.
- Sim, e ele vinha pela a esquerda e foi atingido por seu opositor após passar pela sombra daquela árvore. Que é claro, por seu tamanho e porque eu já passei aqui a noite muitas vezes, tem uma sombra que se estende por aproximadamente 4 metros do tronco. Um local perfeito para se pegar alguém.
- Você fala como se fosse a pessoa que o emboscou – ela disse a contra gosto, só para irritá-lo, mas não se dando ao trabalho de olhá-lo.
- Você bem gostaria que fosse – ele comentou simplesmente, dando de ombros. – Pouparia muito trabalho e você finalmente se veria longe de mim. É, mas é uma pena que você está errada.
- E como você pode provar que eu estou? – ela olhou para ele por cima do ombro, como em um desafio – Não fale que não pode ser você porque a ligação para a polícia foi sua, porque...
- ... Poderia ser uma estratégia para despistar a polícia. – ele a interrompeu. – Sim, eu sei. Mas você sabe dessa impossibilidade agente Donovan, afinal, veja onde ele foi atingido, isso é incompatível com a minha altura – ah sim, a resposta que o abolia do crime. Não seria dessa vez que ele seria culpado pelo corpo posto ali. Quanto tempo mesmo ela ia demorar para colocar em prática aquele plano mirabolante de falar com a rainha?
Sally se levantou após um tempo, após anotar algumas coisas em um caderninho e estar totalmente ciente de que Sherlock tentava olhar o que ela escrevia por sobre os ombros dela. Mas, claro, tal como Tom e Jerry no desenho animado, ela puxava o bloco para si só para não dar o gostinho para ele. Ela não queria mais nenhum comentário depreciativo quanto a seu trabalho, então era bom que desse um jeito de voltar a delegacia logo, onde pelo menos ela teria como sumir da vista dele.
Ela deu as coordenadas para os outros policiais para que terminassem todo o serviço de fotografar o corpo e suas intermediações. O médico legista já estava a postos com a maca para levar o corpo dali, e ela dava graças a Deus por toda essa eficiência. Se ouvisse mais algum comentário de Sherlock ela fazia questão de forçar o vômito para os sapatos dele, só para vê-lo correr para a Baker Street e deixá-la em paz.
Para sua sorte, em alguns minutos tudo estava pronto e os policiais deixavam a cena do crime, após jogarem uma boa quantidade de água na calçada para evitar mais falatório. Até mesmo os jornalistas pareciam estar comportados naquele dia e não a importunaram, somente falaram com os outros oficiais e a deixaram voltar a seu serviço na delegacia em paz.
Em momento algum ela pensou em oferecer carona para Sherlock, mas é claro que ele se enfiou em um carro de polícia e ninguém parecia disposto a tirá-lo de lá. Na verdade, se Sally o tirasse do carro a impressa poderia cair em cima dele e Sherlock daria seu showzinho de super detetive nos jornais, o que ela não precisava ver acontecer na ausência do chefe.
Sally estava a ponto de entrar na sala que era de Lestrade para ter um pouco mais de privacidade para pensar no caso, quando vê Sherlock indo de encontro com Anderson. Ela sabia que aquele pobre idiota iria dar trela para aquele arrogante e, pior, se deixassem eles conversando, era bem capaz de Anderson contar cada passo que ela desse para resolver o caso para ele depois e isso ela não podia deixar acontecer.
Ela andou revoltosa até a mesa de Anderson e o impediu de convidar Sherlock para se sentar.
- Anderson, ele está de saída.
- Eu? Engano seu agente Donovan – Sherlock não se abalou e puxou a cadeira para se sentar mesmo sem convite.
Mas antes que ele pudesse sentar-se, ela o puxou pelo sobretudo.
- Lestrade não está aqui e eu não sou obrigada a tolerá-lo aqui, senhor! – ela disse a última palavra com uma força sobre humana para não substituí-la por um palavrão.
- Na verdade, eu não posso ser tocado de uma delegacia, agente. Afinal aqui é um local público e, segundo as leis de nossa majestade, eu posso ficar aqui sim – ele sorriu irônico ao responder.
- Ah claro, na delegacia você pode fica – ela concordou a contra gosto, mas levantou o tom da voz depois, – mas não na área de funcionários! Afinal essa é uma área restrita, como diz a placa da entrada, que eu tenho certeza que você observou! Então, se quer ficar na delegacia você tem duas opções, a primeira é a sala de entrada e a segunda é uma cela. Eu vou te dar a chance de escolher sua acomodação, mas já aviso que posso perder a chave da cela se você a escolher.
- Ela é sempre assim histérica ou em só durante esses dias do mês? – Sherlock vira para Anderson e faz a pergunta como se Sally não estivesse ali na sua frente.
- Só quando respira – Anderson respondeu, mas vendo a cara de confuso de Sherlock ele deu de ombros. – Ah, esquece.
- Ei, você não colabore com ele! – ela exclamou, dando um tapa no colega, que se esquivou do segundo.
- Como eu imaginava. – Sherlock comentou, e por fim, sentou – Eu tenho permissão do próprio Lestrade, seu superior, se você esqueceu, para estar aqui, não precisa se alarmar.
Ela voltou então para sua mesa, sentando com um bufo impaciente e ligando o seu desktop para receber os resultados da perícia. Eles logo chegaram, e checando com o canto dos olhos se Sherlock ainda estava distraído com Anderson, ela abriu os arquivos.
Enquanto ela analisava os resultados, no fundo de sua mente, ela pensava sobre o pseudo-detetive na mesa ao lado importunando Anderson. Por que ela não poderia simplesmente ter um dia tranquilo de trabalho? Por que ele tinha que estar sempre por ali, rondando-a e atormentando-a? E, claro, criticando seu trabalho, como se ele fosse o deus da dedução. Ele poderia até ser bom para desvendar certas situações, mas Deus, ele não é detetive! “Detetives consultores” não existem!
Ela suspirou novamente, tentando tomar coragem para voltar a questionar Anderson e para que juntos pudessem avaliar aqueles resultados. Tudo seria mais simples sem aquela pessoa plantada entre eles, mas ela já havia visto que era impossível movê-lo dali. Ela tinha que pensar até que estava com sorte pelo próprio Anderson não ter aberto os resultados em seu computador e não estar compartilhando com o “inimigo”.
- Anderson, por favor – ela tentou soar simpática para ver se assim eles não fariam um alarde – você pode, por favor vir até aqui.
- Donovan, na verdade, eu estou ocupado aqui – ele disse olhando para o monitor, enquanto Sherlock estava com cara de paisagem olhando para sabe-se lá Deus onde.
- Anderson – ela foi mais dura dessa vez – venha aqui, agora!
- Está com os resultados para compartilhar conosco agente Donovan – o “maldito detetive consultor” afirmou, e ela bufou.
- Estou com um assunto que só diz respeito aos verdadeiros policiais, senhor Holmes! Agradeceria se fizesse a gentileza de manter-se calado, já que sou forçada a trabalhar na sua presença.
- Vamos discutir também sobre direitos humanos? – Sherlock perguntou levantando as sobrancelhas. – Acho que daqui para frente direi a Lestrade que ficarei por aqui, vocês são mais animados do que ele.
- Não se atreva a fazer piadinhas comigo, entendeu? Você não tem direito algum de zombar com a polícia metropolitana, a propósito, se levarmos isso aos superiores de Lestrade você pode até ser condenado por desacato.
- Isso é um desafio? – ele perguntou sem se abalar.
- Ah não, sério – desta vez foi Anderson. – Eu vou dar um tempo para vocês, eu não aguento isso, parecem duas crianças. Aliás, como dizia meu avô, vocês que são brancos que se entendam... Quer dizer, ah, eu vou buscar um café! – ele deu uma longa olhada para Sally – Vocês entenderam.
- Eu não entendi. – ele saiu antes de poder ouvir Sherlock comentar, fazendo Sally dar um pequeno tapinha na testa, sem acreditar nas palavras do suposto detetive.
- E depois você se diz inteligente! – ela exclamou. – Bem, eu não sou paga para te explicar piadas se você não as entende. Na verdade, eu não sou paga nem para te aturar!
- Por que você é sempre tão má comigo Sally? – ele fez um beicinho e voz de uma criancinha inocente – Eu amo tanto você...
- Por que você é sempre tão má comigo Sally? – ele fez um beicinho e voz de uma criancinha inocente. – Eu amo tanto você...
-Você o quê? – ela perguntou pasma.
- Exatamente o que eu disse: você é tão má comigo que amo tanto você. Injusto isso, viu? Toda essa crueldade gratuita contra mim, que só estou tentando ajudar você.
Sally levantou da cadeira com um pulo, derrubando-a no chão em meio ao caminho. Sherlock até se levantou de onde estava para oferecer ajuda a detetive, que parecia um tanto quanto perturbada.
- Esse tipo de bajulação não me compra, viu? – ela disse revoltada, apontando para ele.
- Viu – ele diz suspirando. – E depois você fica aí negando que é você quem me trata mal. Acho que começamos com o pé errado, talvez... Mas é você quem anda levando toda essa inimizade a diante, Sally. Por quê? Você quer conversar a respeito disso por acaso?
- Escute aqui! – ela disse totalmente descompassada. – Eu não, eu não... – mas se perdeu em meio a palavras.
- Você não? – ele tentou incentivar, mas ela perdeu a paciência e atirou o primeiro objeto que encontrou na mesa: um furador de papel.
Sherlock se abaixou a poucos instantes de ser atingido e não resistiu a olhar para onde o furador havia ido, bem aos pés de uma pobre secretária que ali passava.
- Acho que não foi um bom dia para termos essa conversa não? – Sherlock disse se levantando. – Como eu sei que você sabe que o rapaz é um fugitivo da policia aliado a máfia italiana e procurado pela Interpol, acho que meu trabalho pode terminar por aqui, não?
- Não ouse a sair daqui Sherlock Holmes! – Sally grita com ele, impedindo-o de dar um passo que seja. – Se você tinha todas as respostas porque me chamou?
- Porque eu queria ajudá-la? – ele disse meio incerto, pensando se era mesmo bom para sua vida continuar ali ou não.
- É isso que me irrita em você, se você tem a porcaria da chave do enigma, porque diabos fica com esses joguinhos infames?
- Porque você provavelmente gritaria comigo que esse é o seu trabalho, e não o meu, e que é para eu parar de me meter nele! Só que, desculpa te avisar, eu não vou parar.
Sherlock estava simplesmente se divertido com as reações de Sally. No início, era só uma brincadeira, para provar a ela que ele conseguia entender piadas... Mas parece que quem não conseguia entende-las era ela. Sally estava levando toda aquela bobagem que saia da boca do detetive a sério, sério demais. E a reação dela era simplesmente hilária!
- Principalmente porque – ele continuou – estar aqui é uma das poucas formas de estar perto de você.
Sally não podia acreditar que ela realmente estava vivendo para ver isso acontecer. Não só Sherlock Holmes mostrando ter algum sentimento e sensibilidade, mas se declarando para ela, que sempre o maltratou. Aquela situação provava que há homens que gostam de ser pisados.
Mas o que ela faria com tudo isso? Sherlock gostando dela? O irritante e estúpido “detetive de brincadeira” se declarando tão apaixonadamente para ela, e Sally estava sem palavras.
Apavorada, sim porque aquela era a única palavra que descrevia os sentimentos de Sally, ela pegou a chave de seu carro temerosa e começou a andar, não sem antes falar para Sherlock não segui-la.
Ele ficou lá, plantado com cara de coitado, apenas esperando Anderson voltar. Por sorte o detetive estava bem posicionado para ver e ouvir tido de tudo o que se passou em sua ausência.
- Ok, eu não esperava que fosse ser tão rápido! – ele deu um tapinha no ombro do detetive – Meus parabéns!
- Eu não jogo para perder, meu caro. – Sherlock sorriu com o próprio sucesso.
- Por quanto tempo você acha que ela vai te evitar?
- Para sempre, eu espero. E com a minha atuação maestral, não duvido. Ela realmente acreditou que eu gosto dela. Isso são vinte libras, por favor.
- Eu poderia prendê-lo por extorsão – Anderson brincou, mas Sherlock continuou com a mão estendida.
- Não seja tão mau perdedor.
Anderson deu de ombros e pagou o dinheiro, ele estava a ponto de se sentar em sua cadeira quando se lembrou que deveria perguntar a Sherlock se a história sobre o corpo era real, mas, para variar, nem sinal dele por aí.
- Acho que o jeito é consultar a Interpol... – ele deu de ombros.
Sherlock, vinte libras mais rico, por sua vez, voltava para casa, satisfeito. Não só havia ganhado a aposta de Anderson, como também de Lestrade, da senhora Hudson e de Mary, era só uma questão de sair colhendo os rendimentos e torcer para que Sally não soubesse, ou senão, aí sim, ele acreditava que ela poderia jogá-lo em uma cela e perder a chave de vez.


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