12 de set. de 2014

"Resistenz" - Capítulo 05: Reencontro

A última lembrança que Coraline tinha era de sentir os braços de Sebastian a erguendo do chão e a colocando dentro do carro. Depois disso, era como se a morena fosse envolta por uma espessa nuvem escura, e o principal motivo para ela se sentir tão atordoada ao acordar dentro do veículo num lugar aparentemente deserto.

Com alguma dificuldade, ela sentou-se para olhar melhor ao redor, mas não conseguiu localizar o assessor do irmão em lugar algum. Preocupada que algo ruim pudesse ter acontecido a Sebastian - da mesma maneira que acontecera com ela há menos de uma hora -, Coraline se içou para fora do carro, disposta a procurá-lo.

Havia dado apenas três ou quatro passos cambaleantes, devido à dor que ainda sentia por todo o corpo, quando um par de braços fortes a agarrou pelas costas, erguendo-a do chão com facilidade e fazendo-a gritar, num misto de susto e desespero.

- Quem é você e o que faz aqui? – uma voz masculina e ríspida indaga, muito próxima ao seu ouvido. – Quem lhe mandou aqui?

- Me. Larga! – a garota resmunga, dando ênfase a cada palavra, debatendo-se nos braços do seu captor. – Me solte agora, ou juro que farei você se arrepender!

- Acho que não, mocinha – o homem se limita a responder, com um toque de divertimento na voz, enquanto a levava em direção ao que parecia ser um antigo galpão.

Em poucos passos eles já se encontravam em frente à porta de metal, que foi aberta com um chute, fazendo ecoar um estrondo sinistro através do espaço aparentemente vazio.

– Me solta – Coraline voltou a dizer, tentando buscar forças para se desvencilhar. – Ou me mate, mas seja corajoso o bastante para me dar alguma chance de defesa – completa aos gritos, lembrando-se com pesar de seu arco e das flechas que estavam guardados no castelo.

- Senhorita Beckendorf? – a voz de Sebastian soou de algum lugar, fazendo-a parar de lutar por alguns instantes. – Meisner, solte-a! Ela está ferida!



Em questão de segundos, a garota já sentia o peso do corpo sobre seus próprios pés, mesmo que de maneira vacilante, e os braços que antes a apertavam contra o peitoral de quem a agarrara já não se encontravam mais ao seu redor.

Enquanto os olhos de Coraline se acostumavam à meia-luz do galpão, a garota tentava formular as perguntas que despejaria sobre Sebastian, desde “quem era o homem que a agarrara”, até “o motivo para estarem naquele lugar específico”.

Mas todas as questões e dúvidas morreram quando uma voz levemente familiar soou chamando pelo nome dela, fazendo-a perceber pela primeira vez o homem de cabelos escuros e fascinantes olhos verdes.

- Coraline? – ele a chama de novo, aproximando-se lentamente.

- Isso não é possível – a morena sussurra, encarando-o fixamente. – Não pode ser você... Pode? – continua, dando um pequeno passo na direção dele. – Sean? É... É mesmo você?

- Acho que sou... – ele murmura em resposta, diminuindo ainda mais a distância entre eles. – Seu rosto... Quem fez isso com você? – questiona, envolvendo o rosto da garota com cuidado, os dedos mal tocando a pele manchada de sangue.

- Eu não sei, eu só... – Coraline tenta dizer, lágrimas cristalinas se formando em seus olhos. – Eu senti tanto a sua falta – ela murmura, tocando o rosto dele com as pontas dos dedos, como se precisasse sentir que ele era mesmo real, e não apenas mais um de seus sonhos.

- Eu também senti a sua, pequena turdus merula – diz Sean, enquanto ajeitava uma mecha de cabelo dela atrás da orelha.

- Você ainda lembra! – ela exclama, parecendo surpresa, um leve sorriso brincando em seus lábios.

- Eu me lembro de tudo que se refira a você – o moreno confidencia, aproximando-se mais para que apenas Coraline pudesse ouvi-lo.

Com a proximidade dele, a garota não pode se conter e o envolveu num abraço apertado, pondo-se nas pontas dos pés e escondendo o rosto na curva do pescoço de Sean, como já fizera na infância. Com aquele gesto, tentava superar os mais de vinte anos que haviam passado afastados um do outro e diminuir a saudade que sentira do primo.

O moreno, por sua vez, deixara-se mergulhar no perfume que vinha dos cabelos escuros da garota, recordando-se quantas vezes havia sonhado com esse momento ao longo dos anos. Apertava o corpo dela contra o seu o máximo que seu senso de proteção lhe permitia, sabendo que ela estava ferida. Afinal, não queria lhe causar ainda mais dor.

- Isso tudo é muito bonito e tocante – começa Meisner, que passara todo aquele tempo de braços cruzados -, mas temos assuntos mais urgentes para resolver, e agradeceria imensamente que me explicassem o que está acontecendo aqui! – exclama ele irritado, fazendo Sean e Coraline se afastarem.

- Essa – começa Sebastian, que até aquele momento mal ousara respirar – é a senhorita Coraline Beckendorf, princesa da casa de Kronenberg e...

- Minha prima – Sean o interrompe, passando o braço pela cintura da garota e puxando-a para mais perto de si, num gesto protetor. – Não vai querer machucá-la – completa, encarando Meisner seriamente.

- Diga isso ao pessoal do Verrat, caso nos encontrem aqui – o loiro retruca – Isso se lhe derem tempo de abrir a boca pra falar, não é?

- O Verrat segue ordens das famílias Reais, por que nós deveríamos temê-los? – Coraline indaga, sondando os rostos dos três homens em busca de alguma resposta.

- O simples fato de você estar conosco – começa Meisner, encarando-a – já é motivo suficiente para matarem você. O Verrat não dá chances de explicação, senhorita. Quando enfim descobrissem que você é uma das preciosas jóias da coroa, já estaria morta há muito tempo!

- Eu ainda não entendo por que...

- Já ouviu falar do Läufer, ou simplesmente da Resistência? – Sebastian questiona, interrompendo-a.

- Ouvi uma e outra conversa do meu irmão, onde ele mencionava isso – a morena responde, ainda parecendo confusa -, mas não sei exatamente o que significa.

- Não temos tempo para lhe explicar tudo agora, garota – o homem loiro resmunga. – E tenho dúvidas de que deveríamos mesmo lhe dizer alguma coisa sobre isso, afinal, você é a irmãzinha do Viktor, não?

- Eu não sou o meu irmão – Coraline exclama, seriamente.

- Sabemos disso – diz Sean, olhando feio para Meisner na sequência. – Mas ele tem razão, não temos tempo. É perigoso ficar aqui, querida – continua, agora olhando diretamente para a prima. – Além disso, você precisa de cuidados médicos – completa, tocando o rosto dela delicadamente.

- Eu estou bem, Sean!

- Posso lhe explicar tudo, mas não agora, não aqui – o moreno responde, sorrindo ao notar o bico de contrariedade da garota. – Sebastian pode me passar seu número de telefone, e quando for seguro, entrarei em contato, está bem? Agora preciso que vá para casa.

- Por que não me deixa ir com você? Não há nada no castelo para mim – ela murmura, sentindo a tristeza tomar conta de si outra vez. – E você acabou de voltar...

- Me escute Coraline – ele pede, mergulhando no mar azul-esverdeado do olhar dela. – Neste momento, não há nada que eu queira mais do que ficar com você, mas colocá-la em perigo não é uma opção. Voltaremos a nos ver, prometo. Mas agora preciso que vá com Sebastian.

- Eu vou – diz ela, de maneira decidida -, mas antes... – sussurra, colocando-se mais uma vez nas pontas dos pés e unindo seus lábios ao dele num beijo casto, mal ousando tocá-lo.

Apesar de ter consciência de que o perigo se aproximava mais e mais conforme eles se demoravam ali, Sean não resistiu ao impulso de aprofundar aquele beijo, dando a ele uma urgência que até a pouco ele desconhecia. Envolveu o corpo frágil de Coraline com seus braços e puxou-a para junto de si, sentindo o choque que o calor dela provocava em seu próprio corpo.

- Nós realmente precisamos ir agora, senhorita – a voz de Sebastian soou em algum lugar, fazendo com que eles se afastassem lentamente.

- Tudo bem Sebastian – a garota responde – Até mais Sean – completa, despedindo-se do primo com um sorriso e seguindo com o assessor do irmão para fora do antigo galpão.

Assim que a porta se fechou atrás deles, Meisner virou-se para Renard, com uma expressão de incredulidade estampada no rosto.

- O que diabos foi aquilo? – indaga, referindo-se ao beijo. – Você disse que eram primos, mas isso...

- Somos primos, mas Coraline também foi meu primeiro amor. Foi por amá-la que a rainha pediu a minha cabeça em uma bandeja e tive de fugir de Vienna – o moreno explica, enquanto deixavam o galpão. – O que sinto por ela nunca deixou de existir, e vê-la aqui me desestabilizou – confessa por fim.

- É, deu pra notar – o loiro responde com um leve sorriso, dando um tapinha nas costas do capitão e adiantando-se através do túnel escuro em seguida.

**********

Assim que Coraline tomou seu lugar no carro de Sebastian, pode sentir a exaustão tomando cada pedacinho de seu corpo. Era como se o surto de adrenalina que a invadira antes estivesse enfim se dispersando, dando lugar apenas ao cansaço depois dos últimos acontecimentos.

A garota sentia as pálpebras se fechando e a dificuldade em abri-las parecia maior a cada vez que ela piscava. Também tinha consciência da presença de Sebastian ao seu lado, observando-a, mas nem mesmo isso espantava a necessidade de fechar os olhos e abraçar a escuridão.

- Importa-se se eu fechar os olhos por alguns instantes? – a morena se esforçou a indagar, sabendo que sua voz soava um tanto engrolada.
- Claro que não, senhorita – o rapaz responde, com um leve aceno de cabeça. – Mas primeiro preciso pedir-lhe algo, se não for abusar de sua generosidade.

- Já expliquei que não sou meu irmão, não há necessidade de usar bajulações comigo – ela responde com um leve sorriso.

- Desculpe, deve ser força do hábito. Mas preciso pedir-lhe senhorita, se não por mim, mas por seu primo, que não comente com o senhor seu irmão sobre quem viu e o que ouviu esta noite.

- Se eu pensasse em contar algo sobre isso ao meu irmão, já o teria feito, não duvide disso. Afinal, ainda sua uma Beckendorf, não? Decidi confiar em você Sebastian, e manterei essa decisão, está bem? Pode estar certo disso.

- Obrigado por sua confiança senhorita – diz ele, desviando os olhos da estrada apenas por um instante para encará-la. – Me permite fazer mais uma pergunta?

- Que seria?

- O que há entre a senhorita e Sean Renard? O conheço há algum tempo, e nunca o vi tão dominado por emoções quanto agora há pouco.

- Viramos confidentes agora? – a garota indaga, num tom divertido. – É complicado... – ela começa dizer. - Existem quase três décadas entre mim e Sean, e um amor de infância. E quando minha mãe descobriu através de Viktor que havíamos prometido casar quando fôssemos grandes o bastante para isso, ela surtou e correu até a Rainha, exigindo que ela encontrasse uma maneira de afastar Sean de mim. À época, ela nutria esperanças de que eu me casasse com Erick e me tornasse a próxima rainha... – ela confessa, sem encará-lo. – Esperanças vãs que duraram apenas o tempo suficiente para que me despachasse para a Suíça – completa com um suspiro.

- Sinto muito por isso, senhorita.

- Obrigada Sebastian... Mas no final das contas, a Suíça me fez bem, não é? Agora é sua vez: qual é a sua história?

- O que... Como? – ele indaga, confuso.

- Eu abri meu coração pra você, agora é a sua vez! – Coraline responde seriamente, caindo na gargalhada em seguida ao ver a cara de espanto do rapaz. – Relaxe, ok? Estou brincando com você, Sebastian! Mas não pense que não vou cobrar isso um dia. Só não agora, porque meus olhos não ficam mais abertos – completa, ajeitando-se da melhor maneira possível no assento e fechando os olhos.

**************

Cerca de vinte minutos mais tarde, Sebastian estacionava o carro em frente à entrada principal do castelo de Kronenberg. O restante da viagem havia sido silencioso, marcado apenas pelo som da respiração regular de Coraline.

O rapaz podia sentir os olhares dos sentinelas em suas costas, mas não ligou para aquilo. Sabia que era só questão de tempo para que a notícia de sua chegada com a princesa chegasse aos ouvidos do príncipe herdeiro.

Mal havia tomado a adormecida Coraline nos braços e subido o primeiro lance de escadas quando deparou-se com Viktor, acompanhado de dois seguranças pessoais. “Ainda mais rápido do que eu esperava”, pensou Sebastian, enquanto fazia uma pequena reverência levemente desengonçada.

- Será que poderia ter a bondade de me explicar o que está acontecendo aqui? – o príncipe questiona, encarando-o com frieza. Estava impecável num de seus ternos caros, como se os estivesse esperado até aquele momento.

- Sua irmã, Alteza – começa o rapaz, com firmeza. - Ela sofreu um pequeno acidente, ligou para cá e me dispus a buscá-la. A senhorita Coraline está ferida, abalada e cansada, e por isso acabou adormecendo no carro. Não quis acordá-la... – completa, acenando para a garota em seus braços.

- Ferida? – exclama Viktor, aproximando-se para observar a irmã de perto. Ao ver a face da garota lacerada e ainda suja de sangue, tal como a blusa que ela estava vestindo, o príncipe voltou-se para um dos seguranças. – Você! Leve-a para o quarto e permaneça à porta até a chegada do médico. Não permita que ninguém entre sem a minha permissão, entendeu?

 Assim que o segurança sumiu pelas escadas junto com Coraline, Viktor voltou se atenção para seu assessor mais uma vez.

- O que houve? Quem foi que ousou machucá-la? – ele indaga de maneira controlada, mas Sebastian pode notar a fúria flamejando no olhar dele.

- Não sei dos detalhes, senhor. A senhorita sua irmã apenas me disse que havia sido assaltada e que levaram seu carro, e tudo de que consegue lembrar é que seu agressor possui pelos escuros e garras afiadas.

- Isso explica os cortes no rosto... – murmura Viktor, para si mesmo. – Um wesen a atacou então?

- É o mais provável, Alteza.

- Todos os nossos carros são munidos de um chip localizador. Preciso que ative-o e tente descobrir a localização do carro da minha irmã o mais rápido possível! Quanto estiver com a informação em mãos, mande me chamar. Eu mesmo contatarei o pessoal do Verrat.

- Sim senhor!

- E quando estiver no escritório, ligue para o médico da família. Tire-o da cama se for necessário, mas ordene que venha ver a minha irmã o quanto antes!

- Como quiser, Alteza. Mas senhor... Perdoe a minha indiscrição, mas o que planeja fazer com o provável ladrão que atacou a senhorita Coraline?

- Tudo o que precisa saber é que ninguém machuca a minha irmã e vive! – responde Viktor, dando as costas a Sebastian e subindo as escadas em seguida.



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