A morena cumprimentava cada funcionário com um sorriso contido, e não levou mais do que cinco minutos para chegar ao setor da qual era responsável. O dia, esperava ela, seria bastante corrido e trabalhoso, mas ao menos a manteria bastante ocupada, sem tempo para remoer a última ameaça feita por Viktor.
Com um suspiro, ela tirou o sobretudo que vestia e o pendurou nas costas da cadeira à sua mesa e só então se sentou, apanhando uma lista na pasta que deixara ao lado do computador no dia anterior. Ali estava o esquema que ela havia montado para a nova exposição dos “Tesouros Seculares”, um trabalho que já havia lhe tomado várias semanas de pesquisas e preparação.
Estava mergulhada em suas anotações e fotos há mais de uma hora, totalmente imersa em seu trabalho, quando um grande copo de café expresso se materializou à sua frente, fazendo-a dar um pulinho na cadeira. Ao erguer os olhos, deparou-se com Jocelyn, sua assistente.
- Da próxima vez, podia ao menos fazer algum barulhinho pra se anunciar, Josie – diz Coraline com um sorriso, pegando o copo que a moça lhe estendia. – Ou corremos o risco de ver tudo isso – continua, apontando para a pilha de papéis à sua frente – molhado de café!
- Contratarei uma banda marcial na próxima vez chefinha, fique despreocupada – a ruiva, de cabelos longos e cacheados, responde seriamente, puxando um bloquinho do bolso de seu blazer e fazendo de conta que anotava a ideia para que não viesse a esquecê-la.
- Não seja boba! – a curadora exclama, rolando os olhos diante daquela piadinha sem graça.
- Ok, eu paro... Mas terá de me dizer o porquê de estar aqui pouco depois das sete da manhã, e com essa carinha de cansada, Srta. Beckendorf – diz a outra, cruzando os braços e analisando-a com atenção enquanto se sentava numa das cadeiras em frente à mesa de Coraline.
- Some uma crise de insônia mais um encontro breve com Viktor, e teremos isso! – a morena argumenta, apontando para si mesma.
- Seu irmão precisa urgentemente de uma namorada, sabia? Talvez assim ele largasse um pouco do seu pé. Bom... eu até me ofereceria para o cargo, mas conheço a fama do Viktor, então, sem chance!
- Duvido que um relacionamento pudesse ser distração suficiente para fazê-lo largar do meu pé, mas não custa nada sonhar, não é? – Coraline responde, com um dar de ombros. – Agora... O que acha de focarmos no trabalho hein?
- Faremos isso chefinha, mas antes diga-me: você tomou café da manhã? – a assistente indaga, como se a mulher à sua frente fosse uma menininha de cinco anos de idade.
- O café conta? – e a carinha que a morena fez em seguida a deixou mesmo parecendo uma criança pega no flagra após alguma peraltice.
- Não mesmo mocinha! Venha, vamos até o Alt Wien. Estou mesmo precisando de uma xícara de Melange*, e você vai se sentir bem melhor depois de comer um delicioso croissant e talvez um pedaço de torta de damasco! – diz Josie, dando a volta na mesa e puxando Coraline consigo.
(*Típico café com leite de Viena, possui uma camada bem espessa de leite vaporizado.)
*************
Assim que Coraline e Josie voltaram ao museu, as horas passaram sem que a morena se desse conta delas. O trabalho lhe tomou toda a sua atenção, e vez ou outra ela ainda se desvencilhava de sua pilha de papéis e passava pela sala da exposição para conversar com alguns dos visitantes.
Quando enfim deu por si, já passavam das duas da tarde e a curadora não havia sequer saído para almoçar ainda, mesmo que sua assistente tenha protestado uma ou duas vezes nesse meio tempo. Coraline havia acabado de apanhar sua bolsa quando um toque à porta de sua sala chamou-lhe a atenção. Ao erguer os olhos, deparou-se com uma das últimas pessoas que imaginava encontrar naquele dia.
- O que faz aqui? – ela indaga seriamente, encarando o rapaz loiro e de olhos claros que sorria em sua direção.
- Seu irmão me ligou hoje pela manhã – ele começa, aproximando-se lentamente -, e disse que talvez uma visita melhorasse o seu humor – continua, estendendo uma rosa vermelha para ela. – Aceita almoçar comigo, querida?
- Alexander, eu...
- Não adianta fingir que já almoçou, pois um dos seguranças já me garantiu que a senhorita não deixou o museu ao meio-dia – diz o rapaz, sentando-se na beirada da mesa.
- Não deveria ter dado ouvidos ao Viktor – Coraline responde, depositando a rosa que recebera num copo que fora esquecido ao lado do monitor.
- Mesmo depois de tantos anos morando na Suíça, você continua a mesma menina arisca, não é? Espero que se torne mais dócil após nosso casamento.
- Você propôs esse casamento sabendo como sou, então não vejo motivos para reclamar disso agora – a morena murmura com um sorriso forçado, afastando delicadamente as mãos de Alex de seus cabelos. – E bem... Já que você está aqui, é melhor não perder a viagem, certo? Vamos logo almoçar, estou mesmo com fome – completa, apanhando sua bolsa e se dirigindo à porta em seguida.
************
O relógio já marcava 5:30 da manhã quando Sean enfim abriu os olhos. Aquela deveria ser a centésima vez que o despertador do celular começara a tocar sobre o criado-mudo, e ele não encontrara mais nenhuma desculpa para permanecer na cama por mais “cinco minutos”.
Contra a vontade, ele sentou-se e encarou a paisagem ainda escura que podia vislumbrar da janela de seu quarto. Muito longe em sua mente, um alerta soava, fazendo-o ter a impressão de que estava esquecendo algo muito importante.
Somente quando seu olhar pousou sobre a cômoda, onde deparou-se com a pequena pilha de papéis formada por seu passaporte e por sua passagem para Viena, foi que ele enfim se deu conta de que já deveria estar à caminho do departamento àquela hora, e não sentado ali.
Sean se pôs de pé num pulo, desfazendo-se de paletó, gravata e camisa enquanto se encaminhava para o banheiro. Cinco minutos depois já estava de volta, os cabelos ainda úmidos e uma toalha envolvendo sua cintura.
Mais dez minutos e o bastardo já se encontrava devidamente vestido e com a mala pronta, seguindo em direção ao elevador que o levaria até a garagem.
***************
Foram necessários pouco mais de quinze minutos para que o moreno chegasse ao departamento de polícia. Graças ao horário, o trânsito ainda não se tornara caótico, então o trajeto foi percorrido em menos tempo do que o normal. Renard também não pretendia prolongar muito sua permanência ali, ou acabaria perdendo o voo, que tinha horário de partida marcado para as 6:30. Caso isso acontecesse, teria de esperar mais seis horas pela próxima decolagem, ideia que não o agradava nem um pouco.
Passou pelo pessoal cumprimentando-os apenas com acenos breves, sem parar para conversas. Dirigiu-se diretamente ao seu escritório, fechando a porta atrás de si ao entrar. Após guardar uns poucos pertences pessoais na última gaveta de sua escrivaninha e trancá-la em seguida, apanhou o celular de número restrito e o guardou no bolso do paletó.
- Se perguntarem por mim - diz ele, ao parar à mesa dos detetives Griffin e Burkhardt -, estarei aproveitando o Sol nas belas praias do Havaii! Volto em alguns dias - continua, com um sorriso. - Se receberem qualquer ligação minha, desconsiderem. Não serei eu. Qualquer coisa que eu precise lhes informar, passarei à Rosalee e ela é quem vai contatar vocês. Agora preciso mesmo ir ou perderei o voo. Até a volta! – completa, agora com o semblante mais sério.
- Até mais chefe, e cuide-se! - Hank responde, dando tapinhas nas costas de Sean ao se despedir.
- Mantenha-se vivo – Nick completa, com um aceno de cabeça.
***************
Minutos depois, já no aeroporto, Sean apanhou mais uma vez o aparelho celular no bolso do paletó e apertou no botão para rediscar. Foram necessários apenas três toques para que a voz de Meisner ecoasse pela linha.
- Uma ligação da Realeza é sempre sinal de alerta – diz ele, com um leve toque de humor na voz.
- Assim como uma da Resistência – Renard retruca, enquanto se encaminhava ao portão de embarque. – O voo parte em menos de dez minutos, e devo chegar à Viena pouco depois das nove da manhã, no seu horário local.
- Estarei no aeroporto. Boa viagem – Meisner responde, desligando em seguida.
***************
Horas mais tarde, em Viena...
O museu já estava para fechar e Coraline, como na maioria das vezes, era uma das últimas pessoas a deixar o lugar. Jocelyn já havia saído há mais de quinze minutos, dizendo ter um jantar marcado com um novo pretendente.
O compromisso da amiga fez a morena recordar de seu próprio almoço na companhia do noivo. Contrariando todas as expectativas, a hora que haviam passado na companhia um do outro não fora nenhuma tortura.
Apesar de conhecer Alexander a vida toda – já que as famílias de ambos mantinham negócios em comum desde sempre -, Coraline desconhecia o lado mais bem humorado e cavalheiresco do rapaz. Afinal, sempre o vira como mais um dos “soldadinhos” que comumente faziam parte do círculo de relacionamentos de sua família.
Quando eram crianças, Alex se comportava de maneira mais contida, como qualquer outro menino cuja família tivesse alguma relação com a realeza. E depois que a garota fora mandada para um colégio interno na Suíça, apenas algumas semanas depois da partida de Sean, o pouco contato que tinham se reduziu a nenhum.
Coraline passara seus anos escolares no “Instituto Le Rosey”, um dos estabelecimentos de ensino mais bem conceituados da Europa, e mesmo depois de completar sua graduação, ela permaneceu no país, matriculando-se na “Universidade das Artes de Zurique”. Lá, fez parte da turma do curso de artes visuais, onde se especializou em curadoria.
Com mais de quinze anos longe de Viena, a garota jamais pensaria que, poucos meses depois de regressar à cidade, pudesse ser surpreendida por um pedido de casamento. Mas foi exatamente isso que aconteceu.
À época, seu pai, que ainda era vivo, não foi a favor do compromisso, pois julgava que a filha precisaria de mais algum tempo para se estabelecer e se adaptar novamente à sua cidade natal. Mas com sua morte cerca de três anos depois, e com as decisões da família agora cabendo a Viktor, não haveria mais ninguém impedindo que aquela aliança fosse formada.
Dessa forma, o noivado entre Alexander e Coraline foi formalizado pouco tempo depois, mesmo sob os protestos da morena, que tinha dificuldades em aceitar que seu futuro fosse moldado aos caprichos de seu irmão.
Foi por isso que a garota não se esforçou para conhecer o homem com o qual estava destinada a se casar, mesmo que vários meses tenham se passado desde então. E de que adiantaria, afinal? Que diferença faria? Não havia mais nada que ela pudesse fazer para mudar aquilo, e nem mesmo um segredo sombrio no passado de Alexander seria capaz de demover Viktor de sua decisão.
Mas naquela tarde, durante o almoço, o rapaz conseguira surpreendê-la. Havia muito mais em Alexander do que a imagem de “peão de xadrez” que Coraline fazia dele. Alex era gentil e refinado, amante das artes e um violinista e compositor promissor. Infelizmente, aquilo só poderia ser levado adiante como um hobby, já que se esperava tanto dele como quanto era esperado dela.
Em dado momento, a morena se viu ansiando por um encontro menos formal, sem a rigidez que as reuniões de família infligiam, onde poderia ouvir o loiro tocar e se deixar levar pela doce melodia de uma de suas composições. Poderiam conversar até tarde, beber um bom vinho e, quem sabe, rir juntos. Talvez até mesmo dançar ao som de uma das composições de Mozart.
Sentada sozinha em seu escritório, Coraline se deu conta de que, se as circunstâncias fossem diferentes, poderia ser capaz de se apaixonar por Alexander, de amá-lo e de querê-lo bem. Mas a obrigação do compromisso fazia cada célula de seu ser lutar contra aquilo. Seu orgulho lhe dizia para manter-se distante até não haver mais esperança de êxito, e além disso quando esta acabasse.
Por outro lado, a morena se questionava se havia mesmo necessidade de ser tão rígida consigo mesma. Que bem lhe faria? Afinal, se o casamento era certo, para que se privar de ser feliz ao lado de Alexander, ainda mais agora que descobrira o homem que havia por trás de sua fachada de pedra? O fato de ter sido uma fria armação de Viktor não podia lhe impedir de tirar o melhor proveito daquilo, certo?
Sufocada por todas aquelas perguntas, a moça enfim pegou sua bolsa e seu sobretudo e deixou a sala, apagando as luzes atrás de si ao sair.
**************
Horas depois...
Sean já estava viajando há quase doze horas, e mesmo que tivesse pegado no sono em algum momento enquanto sobrevoavam o oceano, sentia o cansaço fazer cada músculo de se corpo doer. Além disso, não conseguia evitar a tensão que vinha se instaurando em seu íntimo desde que Meisner lhe dissera para voltar à Viena.
E não era apenas a proximidade da reunião com a cúpula da Resistência que o inquietava, mas também o regresso à sua cidade natal.
Durante treze felizes anos, o moreno pode chamar Viena de lar, mesmo sabendo que várias pessoas ao seu redor o menosprezavam por ser um reles bastardo. Quando criança, ele até se magoara com aquilo, mas junto de Coraline, a opinião do resto do mundo não lhe afetava mais.
Lembrava-se com uma nitidez dolorosa do momento em que sua mãe disse que teriam de partir o mais depressa possível da cidade, e que muito provavelmente jamais poderiam voltar, já que a esposa de seu pai pedira a cabeça deles em uma bandeja.
Confuso e amedrontado com a repentina mudança em seu destino, o rapaz só se deixou convencer após a mãe lhe explicar o motivo da ira súbita da rainha: Anabelle, a irmã do rei e mãe de Viktor e Coraline, havia se dirigido à Senhora da casa de Kronemberg, exigindo que Sean fosse afastado de sua filha, pois, dissera ela, mesmo que fosse um devaneio vindo de duas crianças, jamais aceitaria o casamento de sua filha com um bastardo qualquer.
Mesmo que se sentisse quebrado, não havia nada que Sean pudesse fazer para remediar aquela situação, e só restou a ele e à mãe fugirem na calada da noite, como ratos pestilentos. Por sorte, sua prima fora corajosa o bastante para sair às escondidas de seus aposentos para despedir-se dele, dando ao rapaz uma oportunidade de vê-la uma última vez.
Poucas horas depois daquela despedida, eles já se encontravam bem distantes do castelo e de Viena. Em três dias chegaram à França, e dali partiram para a América, longe o bastante de qualquer membro da família Real.
Em menos de um mês, já se encontravam definitivamente instalados na cidade de Portland, no estado do Oregon, onde Sean e a mãe recomeçaram suas vidas. Desde então, o moreno nunca havia retornado à sua cidade natal, mesmo que tenha voltado à Europa em algumas ocasiões.
Mas isso mudaria em poucas horas...

0 comentários:
Postar um comentário
Oiiie pessoal!
Esse blog possui diversas fics de séries, livros, desenhos, jogos, etc.
Com uma variedade tão grande nós precisamos saber como vocês chegaram até ele e o que gostaram de ler para continuar escrevendo fics desse fandom.
Então, por favor, deixem-nos um comentários do que leram e o que acharam, ok?
Vocês também podem sugerir o que gostariam de ler e tentaremos atender ao pedido ;D