30 de jun. de 2014

One Shot: Como Bons Irmãos



Era como se o ar ficasse em suspenso naquele momento. Aquela era a sala do apartamento de Sherlock, o lugar que costumava trazer os clientes com os maiores problemas de Londres. Porém, naquele momento, John e a senhora Hudson, cada um com uma xícara de chá na mão, olhava perplexo para Sherlock e Mycroft, que haviam acabado de chegar da rua, e encaravam a figura que havia saído do banheiro.

A figura em questão, a jovem Alice, estava sorridente, como se tivesse encontrado grandes e amados irmãos naquele cômodo. Mesmo que não fosse esse o caso se reparassem com atenção o como Mycroft parecia zangado ao vê-la.

- Vejo que você voltou...

- Claro, Mike, uma hora eu teria que voltar para casa, não? – ela disse com um grande sorriso e abrindo os braços para ele. – Eu não ganho um abraço?

Ela se aproximou, firme com a idéia de dar-lhe um abraço, e um providencial aperto em suas bochechas depois, mas Mycroft entregou seu guarda chuva para Sherlock sutilmente e pegou a garota pelos dois pulsos.

- Não ouse. Eu sei qual é o plano por trás disso, mocinha.

- Ora essa, onde estão seus modos Mycroft?! – a senhora Hudson se levanta revoltadíssima. – Uma irmãzinha volta de viagem e você a trata como...como...

- Oh cale-se, senhora Hudson.


- Cale-se você, Mycroft – Sherlock se manifestou pela primeira vez, pigarreando depois ao ver como foi notado. – Digo, contenha-se.

- Sabe, essa garota aí? Ela é irmã de vocês e não James Moriarty – John tentou fazer alguma piada para aliviar o clima, mas o efeito não foi o esperado já que todos o encaravam com cara de poucos amigos.

- Moriarty seria menos nocivo – Sherlock respondeu sem graça, ganhando ele mesmo um abraço da garota em seguida, já que Mycroft havia desistido de segurá-la.

- Ah, Sherlock, seu bobo, eu também morri de saudades – ela disse sorridente, soltando-se dele e tentando subir as mãos para bagunçar seu cabelo em seguida, mas Sherlock se desviou.

- Oh quanta civilidade, não? – a senhora Hudson disse frustrada.

- Não se preocupe, Martha, esses dois sempre foram uns ciumentos mesmo – ela disse levantando o nariz e se fazendo de brava. – Mas, a propósito, amei sua casa, Sherlock.

- A pergunta é: como a achou?

- Eu sabia que viria atrás da Martha, isso é fato – ela disse sorridente, mas percebeu que ele não se convenceu e deu o braço a torcer na sequência. – E eu vi seu endereço naquele seu site... Aliás, estudar cinzas de cigarro não é lá um passatempo muito interessante, ouviu?

- Aquilo é um estudo sério e não um passatempo.

- Oh sim, eu acho que blogs são mesmo coisa de pessoas sérias, ah, como são! – ela disse se sentando e pegando seu chá.

Sherlock tentou segurar sua fúria, e John também não gostou do comentário, mas, Mycroft, que era do contra, esboçou um leve sorriso.

- Tenho que concordar com você, irmã – Mycroft começa, se sentando no lugar de Sherlock em seguida. – A propósito, minhas desculpas senhora Hudson, poderia me trazer uma xícara?

- Claro – a senhorinha respondeu sorridente, resmungando ao dar as costas, num exato tom que todos pudessem ouvir. – Interesseiro morto de fome, por isso está gordo...

Sherlock e John tentaram esconder um sorriso pelo comentário, mas foi o detetive o primeiro a achar uma saída para aquilo.

- A propósito, qual o motivo das luvas, Alice? Até onde sei o Canadá é bem mais frio do que aqui... Você deveria estar com calor, pela lógica.

John pensou em responder, mas pagaria para ver a dedução dos irmãos Holmes, ainda mais por aquele ser um raro momento onde ele tinha toda a resposta, e eles ainda não.

- Depende muito da parte do Canadá onde você está – ela disse dando uma piscadinha.

- Ou então do que pretende esconder, não é mesmo irmã? – e desta vez era Mycroft quem dava razão a Sherlock.

- Sabe, se fosse Hariet aqui, eu a abraçaria, diria que senti saudades e realmente ficaria feliz em vê-la – John tentou salvar a garota, mas Alice pareceu não notar a ajuda.

- E o que eu poderia querer esconder, irmãozinho?

- Muitas coisas – Mycroft começou. – Sua profissão, por exemplo. Ou então coisas mais obscuras como cortes, hematomas... – ele respondia triunfante.

- Ou um casamento – mas foi Sherlock quem deu a resposta.

- Ponto para Sherlock – ela respondeu tranquilamente, bebericando seu chá. – Sempre o achei mais inteligente, Mike, não importa que você não concorde – ela provocou.

- Sua opinião não conta, Alice, você sempre foi a mais comum de nós – Mycroft começou a falar, mas só então se deu conta das palavras do irmão e levantou do sofá em um pulo. – Como assim você casou?

- Me casando, Mycroft – ela respondeu. – Eu duvido que você tenha ido ao casamento de John, mas essas coisas acontecem em uma bela cerimônia, ouviu?

- Com a família presente! – ele alegou.

- Ah sim, a família presente é parte disso – ela respondeu displicente. – Mas a família de meu noivo estava lá mesmo. E estava tudo tão lindo!

- Acho que o que Mycroft quis dizer é o porquê de não ter nos dito nada Alice – Sherlock tentou manter-se controlado, mesmo que sua paciência estivesse quase se esvaindo, tal qual a do irmão.

- Mas eu disse... Em tese eu escrevi. Mamãe e papai estavam no casamento e disseram que só não os convidaram porque Mycroft é anti-social demais e você estava se fazendo de morto em algum lugar desconhecido. Eu não podia desmarcar a cerimônia até vocês decidirem parar com toda essa brincadeira sem graça...

Os dois irmãos se encararam, como se perguntassem sem palavras qual deles poderia argumentar algo após essa.

- A propósito, eu chorei um dia inteirinho por sua causa – Alice acusou Sherlock. – Eu quase voltei para cá, ouviu? Mas mamãe disse que não haviam dito nada para ela, então você deveria estar vivo. Deveriam ter me avisado!

- A segurança nacional era mais importante do que comunicar algo tão trivial para você – Mycroft respondeu rapidamente. – E se você fizesse questão eu teria sabido sim, você tem meu endereço! – mas a revolta ainda estava nele.

- Mike, querido, se eu for avaliar bem a coisa, eu não gostaria de você me difamando para a família de meu noivo, não gostaria que os avaliasse, ouviu? Ah, e eu também não queria ter que explicar a todos que meus irmãos não gostam de fotografias e ficariam de fora do álbum do meu casamento... Aliás, imagina só: “meu irmão trabalha pra rainha e é proibido de aparecer em fotos e o outro, ah, ele está se fazendo de morto, ele não pode aparecer!”, não acho que iriam me achar sã.

- Sabe, querida – a senhora Hudson voltou com mais chá e mais xícaras, entregando um prato de biscoitos nas mãos de John, o local mais distante de Mycroft. – Acho que seu irmão mais velho está com ciúmes por você ter descoberto onde Sherlock morava e não ter mandado um convite para ele, mesmo sabendo onde ele morava.

- Quem é ele, Alice? – e desta vez era Sherlock, que tentando manter seu ar sério e controlado, decidiu tomar os rumos da conversa.

- Isso realmente importa, irmão? Mesmo que eu diga que meu esposo é um homem de bem, de princípios e íntegro, tanto você quanto Mike vão fuçar e vasculhar até descobrir algo de errado que ele possa ter feito, nem que tenha sido na maternidade!

- É isso que irmãos mais velhos fazem, Alice – agora era a vez de Mycroft deixar transparecer um pouco de sua preocupação fraternal. – Esse... esse sujeito pode ser um serial killer, ou ainda  um espião tentando obter informações confidenciais da Coroa Britânica. Ele pode ter se aproximado de você para tentar chegar a mim!

- Ah, por favor Mycroft, você pode ainda não saber, mas o centro do universo não é você – a garota responde, agora parecendo realmente brava. – Jasper nem ao menos sabe que você é o homem de confiança da dona Liz!

- Rainha Elisabeth II, Alice! Demonstre um pouco de respeito!

- Passei meus últimos quinze anos vivendo na Suíça, Mike, não me vejo mais na obrigação de obedecer a certas regras britânicas.

- Mas está em Londres agora, então exijo que se comporte como tal – ele retruca, visivelmente irritado.

- Vocês estão parecendo crianças de cinco anos de idade – a senhora Hudson comenta, bebericando seu chá enquanto sorria por conta das intriguinhas infantis entre eles.

- Ao menos estão agindo como irmãos – John responde, achando graça daquilo tudo. Afinal, em todos os anos que conhecia Mycroft, nunca o vira tão descompassado.

Mycroft estava de pé, com uma cara ameaçadora para uma Alice que descansava calmamente sua xícara em um pires. John se perguntava mentalmente de quem Sherlock tomaria partido quando começou a ouvir os acordes iniciais de uma melodia.

Alice sorriu, ela adorava quando Sherlock começava a tocar violino do nada, mas Mycroft, por outro lado, se revoltava ainda mais com aquilo.

-Sherlock! – ele gritou. – O que diabos esta fazendo?

- Estou salvando você de um provável infarto, Mycroft – Sherlock respondeu sutilmente, continuando sua melodia como se nada tivesse acontecido.

É claro que o mais velho dos irmãos Holmes não gostou daquela resposta e tentando manter sua compostura, que já a muitos o havia abandonado desde que Alice contara sobre seu casamento, pensou em dar meia volta e sair dali.

A senhora Hudson puxou seu lencinho do bolsinho de seu casaco e tentou limpar as lágrimas que começavam a escorrer de seu rosto. Enquanto John estava maravilhado com tal melodia, mesmo morando anos com o detetive ele nunca a havia conhecido.

Mycroft se deteve a porta, como se só então tivesse reparado em algo. Alice, por sua vez, parecia totalmente estática, nem ao menos piscava.

- Nós nunca fomos o conceito normal de irmãos – Sherlock começou a dizer. – Não como você e Harriet, John. Mas houve um tempo em que Mycroft queria que fossemos tão inteligentes como ele e isso irritava Alice, mais do que a mim.

Alice fungou antes de completar a frase do irmão.

- E foi aí que eu ganhei uma valsa em violino de presente, a primeira composta pelo meu irmão – Alice tentou sorrir ao dizer aquilo.

Mycroft tentou acertar sua postura e mexer em sua gravata antes voltar. Ele estava envergonhado, havia agido mal, levado pelas emoções que ele tanto temia. Em sua mente, naquele momento de revolta, Alice ainda era a menina que causava problemas e não se dava bem com os ensinamentos que ele tentava transmitir na infância. Mas as palavras de Sherlock o acordaram, ela havia crescido, e as atitudes deles tinham que mudar.

- Bem, creio que eu tenha agido por impulso, me desculpe. Mas sua segurança é importante para nós, Alice. Mesmo que você não acredite – ele começou a dizer e a garota baixou o olhar. – Mas, eu acho, que ainda não é tarde demais para me dar aquele abraço, não?

A garota levantou o olhar, tentando conter lágrimas que insistiam em cair, mas que se transformavam agora em alegria e com um pulinho correu ao irmão mais velho e o abraçou.

- Você é um chato, mas eu te amo.


- Você também é uma chata – ele retrucou em tom de brincadeira. – Mas é minha irmãzinha caçula.






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