Era
como se o ar ficasse em suspenso naquele momento. Aquela era a sala do
apartamento de Sherlock, o lugar que costumava trazer os clientes com os
maiores problemas de Londres. Porém, naquele momento, John e a senhora Hudson,
cada um com uma xícara de chá na mão, olhava perplexo para Sherlock e Mycroft,
que haviam acabado de chegar da rua, e encaravam a figura que havia saído do
banheiro.
A
figura em questão, a jovem Alice, estava sorridente, como se tivesse encontrado
grandes e amados irmãos naquele cômodo. Mesmo que não fosse esse o caso se
reparassem com atenção o como Mycroft parecia zangado ao vê-la.
-
Vejo que você voltou...
-
Claro, Mike, uma hora eu teria que voltar para casa, não? – ela disse com um
grande sorriso e abrindo os braços para ele. – Eu não ganho um abraço?
Ela
se aproximou, firme com a idéia de dar-lhe um abraço, e um providencial aperto
em suas bochechas depois, mas Mycroft entregou seu guarda chuva para Sherlock
sutilmente e pegou a garota pelos dois pulsos.
-
Não ouse. Eu sei qual é o plano por trás disso, mocinha.
-
Ora essa, onde estão seus modos Mycroft?! – a senhora Hudson se levanta revoltadíssima.
– Uma irmãzinha volta de viagem e você a trata como...como...
-
Oh cale-se, senhora Hudson.
-
Cale-se você, Mycroft – Sherlock se manifestou pela primeira vez, pigarreando
depois ao ver como foi notado. – Digo, contenha-se.
-
Sabe, essa garota aí? Ela é irmã de vocês e não James Moriarty – John tentou
fazer alguma piada para aliviar o clima, mas o efeito não foi o esperado já que
todos o encaravam com cara de poucos amigos.
-
Moriarty seria menos nocivo – Sherlock respondeu sem graça, ganhando ele mesmo
um abraço da garota em seguida, já que Mycroft havia desistido de segurá-la.
-
Ah, Sherlock, seu bobo, eu também morri de saudades – ela disse sorridente,
soltando-se dele e tentando subir as mãos para bagunçar seu cabelo em seguida,
mas Sherlock se desviou.
-
Oh quanta civilidade, não? – a senhora Hudson disse frustrada.
-
Não se preocupe, Martha, esses dois sempre foram uns ciumentos mesmo – ela
disse levantando o nariz e se fazendo de brava. – Mas, a propósito, amei sua
casa, Sherlock.
-
A pergunta é: como a achou?
-
Eu sabia que viria atrás da Martha, isso é fato – ela disse sorridente, mas
percebeu que ele não se convenceu e deu o braço a torcer na sequência. – E eu
vi seu endereço naquele seu site... Aliás, estudar cinzas de cigarro não é lá
um passatempo muito interessante, ouviu?
-
Aquilo é um estudo sério e não um passatempo.
-
Oh sim, eu acho que blogs são mesmo coisa de pessoas sérias, ah, como são! –
ela disse se sentando e pegando seu chá.
Sherlock
tentou segurar sua fúria, e John também não gostou do comentário, mas, Mycroft,
que era do contra, esboçou um leve sorriso.
-
Tenho que concordar com você, irmã – Mycroft começa, se sentando no lugar de
Sherlock em seguida. – A propósito, minhas desculpas senhora Hudson, poderia me
trazer uma xícara?
- Claro
– a senhorinha respondeu sorridente, resmungando ao dar as costas, num exato
tom que todos pudessem ouvir. – Interesseiro morto de fome, por isso está
gordo...
Sherlock
e John tentaram esconder um sorriso pelo comentário, mas foi o detetive o
primeiro a achar uma saída para aquilo.
-
A propósito, qual o motivo das luvas, Alice? Até onde sei o Canadá é bem mais
frio do que aqui... Você deveria estar com calor, pela lógica.
John
pensou em responder, mas pagaria para ver a dedução dos irmãos Holmes, ainda mais
por aquele ser um raro momento onde ele tinha toda a resposta, e eles ainda
não.
-
Depende muito da parte do Canadá onde você está – ela disse dando uma
piscadinha.
-
Ou então do que pretende esconder, não é mesmo irmã? – e desta vez era Mycroft
quem dava razão a Sherlock.
-
Sabe, se fosse Hariet aqui, eu a abraçaria, diria que senti saudades e
realmente ficaria feliz em vê-la – John tentou salvar a garota, mas Alice
pareceu não notar a ajuda.
-
E o que eu poderia querer esconder, irmãozinho?
-
Muitas coisas – Mycroft começou. – Sua profissão, por exemplo. Ou então coisas
mais obscuras como cortes, hematomas... – ele respondia triunfante.
-
Ou um casamento – mas foi Sherlock quem deu a resposta.
-
Ponto para Sherlock – ela respondeu tranquilamente, bebericando seu chá. –
Sempre o achei mais inteligente, Mike, não importa que você não concorde – ela
provocou.
-
Sua opinião não conta, Alice, você sempre foi a mais comum de nós – Mycroft
começou a falar, mas só então se deu conta das palavras do irmão e levantou do
sofá em um pulo. – Como assim você casou?
-
Me casando, Mycroft – ela respondeu. – Eu duvido que você tenha ido ao
casamento de John, mas essas coisas acontecem em uma bela cerimônia, ouviu?
-
Com a família presente! – ele alegou.
-
Ah sim, a família presente é parte disso – ela respondeu displicente. – Mas a
família de meu noivo estava lá mesmo. E estava tudo tão lindo!
-
Acho que o que Mycroft quis dizer é o porquê de não ter nos dito nada Alice –
Sherlock tentou manter-se controlado, mesmo que sua paciência estivesse quase
se esvaindo, tal qual a do irmão.
-
Mas eu disse... Em tese eu escrevi. Mamãe e papai estavam no casamento e
disseram que só não os convidaram porque Mycroft é anti-social demais e você
estava se fazendo de morto em algum lugar desconhecido. Eu não podia desmarcar
a cerimônia até vocês decidirem parar com toda essa brincadeira sem graça...
Os
dois irmãos se encararam, como se perguntassem sem palavras qual deles poderia
argumentar algo após essa.
-
A propósito, eu chorei um dia inteirinho por sua causa – Alice acusou Sherlock.
– Eu quase voltei para cá, ouviu? Mas mamãe disse que não haviam dito nada para
ela, então você deveria estar vivo. Deveriam ter me avisado!
-
A segurança nacional era mais importante do que comunicar algo tão trivial para
você – Mycroft respondeu rapidamente. – E se você fizesse questão eu teria
sabido sim, você tem meu endereço! – mas a revolta ainda estava nele.
-
Mike, querido, se eu for avaliar bem a coisa, eu não gostaria de você me
difamando para a família de meu noivo, não gostaria que os avaliasse, ouviu?
Ah, e eu também não queria ter que explicar a todos que meus irmãos não gostam
de fotografias e ficariam de fora do álbum do meu casamento... Aliás, imagina
só: “meu irmão trabalha pra rainha e é proibido de aparecer em fotos e o outro,
ah, ele está se fazendo de morto, ele não pode aparecer!”, não acho que iriam
me achar sã.
-
Sabe, querida – a senhora Hudson voltou com mais chá e mais xícaras, entregando
um prato de biscoitos nas mãos de John, o local mais distante de Mycroft. – Acho
que seu irmão mais velho está com ciúmes por você ter descoberto onde Sherlock
morava e não ter mandado um convite para ele, mesmo sabendo onde ele morava.
-
Quem é ele, Alice? – e desta vez era Sherlock, que tentando manter seu ar sério
e controlado, decidiu tomar os rumos da conversa.
-
Isso realmente importa, irmão? Mesmo que eu diga que meu esposo é um homem de
bem, de princípios e íntegro, tanto você quanto Mike vão fuçar e vasculhar até
descobrir algo de errado que ele possa ter feito, nem que tenha sido na
maternidade!
- É
isso que irmãos mais velhos fazem, Alice – agora era a vez de Mycroft deixar
transparecer um pouco de sua preocupação fraternal. – Esse... esse sujeito pode
ser um serial killer, ou ainda um espião
tentando obter informações confidenciais da Coroa Britânica. Ele pode ter se
aproximado de você para tentar chegar a mim!
-
Ah, por favor Mycroft, você pode ainda não saber, mas o centro do universo não
é você – a garota responde, agora parecendo realmente brava. – Jasper nem ao
menos sabe que você é o homem de confiança da dona Liz!
-
Rainha Elisabeth II, Alice! Demonstre um pouco de respeito!
-
Passei meus últimos quinze anos vivendo na Suíça, Mike, não me vejo mais na
obrigação de obedecer a certas regras britânicas.
-
Mas está em Londres agora, então exijo que se comporte como tal – ele retruca,
visivelmente irritado.
-
Vocês estão parecendo crianças de cinco anos de idade – a senhora Hudson
comenta, bebericando seu chá enquanto sorria por conta das intriguinhas
infantis entre eles.
-
Ao menos estão agindo como irmãos – John responde, achando graça daquilo tudo.
Afinal, em todos os anos que conhecia Mycroft, nunca o vira tão descompassado.
Mycroft
estava de pé, com uma cara ameaçadora para uma Alice que descansava calmamente
sua xícara em um pires. John se perguntava mentalmente de quem Sherlock tomaria
partido quando começou a ouvir os acordes iniciais de uma melodia.
Alice
sorriu, ela adorava quando Sherlock começava a tocar violino do nada, mas
Mycroft, por outro lado, se revoltava ainda mais com aquilo.
-Sherlock!
– ele gritou. – O que diabos esta fazendo?
-
Estou salvando você de um provável infarto, Mycroft – Sherlock respondeu
sutilmente, continuando sua melodia como se nada tivesse acontecido.
É
claro que o mais velho dos irmãos Holmes não gostou daquela resposta e tentando
manter sua compostura, que já a muitos o havia abandonado desde que Alice
contara sobre seu casamento, pensou em dar meia volta e sair dali.
A
senhora Hudson puxou seu lencinho do bolsinho de seu casaco e tentou limpar as
lágrimas que começavam a escorrer de seu rosto. Enquanto John estava
maravilhado com tal melodia, mesmo morando anos com o detetive ele nunca a
havia conhecido.
Mycroft
se deteve a porta, como se só então tivesse reparado em algo. Alice, por sua
vez, parecia totalmente estática, nem ao menos piscava.
-
Nós nunca fomos o conceito normal de irmãos – Sherlock começou a dizer. – Não
como você e Harriet, John. Mas houve um tempo em que Mycroft queria que
fossemos tão inteligentes como ele e isso irritava Alice, mais do que a mim.
Alice
fungou antes de completar a frase do irmão.
-
E foi aí que eu ganhei uma valsa em violino de presente, a primeira composta
pelo meu irmão – Alice tentou sorrir ao dizer aquilo.
Mycroft
tentou acertar sua postura e mexer em sua gravata antes voltar. Ele estava
envergonhado, havia agido mal, levado pelas emoções que ele tanto temia. Em sua
mente, naquele momento de revolta, Alice ainda era a menina que causava
problemas e não se dava bem com os ensinamentos que ele tentava transmitir na
infância. Mas as palavras de Sherlock o acordaram, ela havia crescido, e as
atitudes deles tinham que mudar.
-
Bem, creio que eu tenha agido por impulso, me desculpe. Mas sua segurança é
importante para nós, Alice. Mesmo que você não acredite – ele começou a dizer e
a garota baixou o olhar. – Mas, eu acho, que ainda não é tarde demais para me
dar aquele abraço, não?
A
garota levantou o olhar, tentando conter lágrimas que insistiam em cair, mas
que se transformavam agora em alegria e com um pulinho correu ao irmão mais
velho e o abraçou.
-
Você é um chato, mas eu te amo.


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