15 de jun. de 2014

One Shot: Além do Mar



No passado ela havia sido jovem, impulsiva, apaixonada. Um amor não estava em seus planos, já que estava naquele país apenas para “passar suas férias”. Longe de todo aquele espírito recatado, movimentos e pensamentos controlados, graciosos, que eram exigidos de qualquer moça inglesa.

Atravessar o Oceano para Martha parecia o certo... Na verdade não tão certo. Mas ela tinha sede de aventura, uma vontade avassaladora de saber que era dona de seu próprio nariz, senhora de seus atos e que não haveria ninguém na Terra capaz de julgá-la... (Não alguém conhecido e cuja interpretação lhe doesse ao menos...)

Porém ela logo abandonou o conceito de férias e decidiu passar um tempinho mais ali, com a desculpa de que “queria conhecer um pouco mais da América”. Quando, na verdade, queria mesmo era um pouco de distância da Inglaterra, isso sim.

Porém, nesse ‘Novo Mundo’, uma senhorita achar um novo trabalho não parecia ser a coisa mais fácil a ser feita. Ela estava andando por todos os lugares da Flórida com um jornal a mão e currículos – que ridiculamente não tinham como ser confirmado (pois quem faria uma chamada interurbana pra ter certeza de suas referências?).

Foi com grande alegria – e um certo ar de desconfiança – que ela comemorou ao conseguir sua primeira entrevista de emprego. Sorriso no rosto e um ar confiante foi o que a levou a agência. E, mesmo que ela não fosse uma jovem flor do campo (mesmo que ainda estivesse assegurado para si o status de senhorita) lá foi ela com toda a convicção e pose adolescente.
A agência a indicou um endereço, a porta dos fundos de um renomado parque de diversões; mas é claro que Martha dificilmente teria como saber isso estando a apenas duas semanas na Flórida.

Um senhor gorducho, vestido de policial, mas com estranhas orelhinhas de rato desenhadas em seu uniforme, foi quem a deixou entrar para sua entrevista. Não que ela tenha gostado da piscadinha capciosa que ele a deu após passar pelos portões, mas ela fingiria não ter visto nada se fosse para um bem maior.

“Ser empregada e finalmente mandar em seu nariz”, esse era seu lema, seu mantra interno. Então, lá foi ela, seguindo a caminho até a porta que lhe foi indicada.
Mas, a cada passo que ela dava a coisa parecia ainda mais estranha. O local parecia incomum, como se fosse os fundos de um grande cenário.

Uma esticada na visão para dentro das salas pelo qual passava mostrou-lhe uma porção de tecidos coloridos em araras intermináveis. Pessoas passavam pelos corredores com roupas nada corriqueiras. Havia um homem (pelo menos era o que ela acreditava pelo som da voz) com uma enorme cabeça de rato encostado na parede do corredor que falava com uma moça de vestido azul, cabelo loiro curto e uma coroa em forma de tiara em sua cabeça.

As peças estavam começando a se juntar na mente de Martha quando ela passou por uma porta escrito “Walt Disney, diretor”. Aquilo foi o suficiente para ela congelar no local ao se dar conta de “onde estava”.

Uma senhora de pele morena veio ao encontro de Martha e, após se certificar de que ela era a “inglesa que viria para a entrevista”, a arrastou para a sala certa.

Foi com grande alegria que, naquele dia, Martha descobriu que seria a nova companheira de Mickey Mouse e sua turma naquele grande parque temático. Como era dançarina, suas aptidões lhe deram um emprego para se apresentar em uma das novas atrações e logo ela se tornou fixa ali, mudando de papel a cada novo calendário.

Foi em uma tarde de verão, quando ela interpretava uma dançarina exótica, que seus olhos se encontraram com o de um distinto senhor em meio à multidão. Ele, aliás, também pareceu esquecer-se do mundo ao seu redor no momento em que seus olhares se encontraram.

Frank Hudson era seu nome, e ela não teria conseguido passar um dia a mais de sua vida sem saber essa informação. O moço, aliás, também estava bem interessado em saber quem era Martha, e como se tivessem combinado, após o espetáculo, eles se procuravam em meio a multidão.

Parecia que a vida dela finalmente havia entrado nos eixos. Um novo país, um novo emprego e um grande amor, o que mais ela poderia esperar da vida, não?

Ele até havia lhe dado um apelido carinhoso, Sissons, e ele soava engraçadinho a seus ouvidos, embora ela não entendesse de fato o porque daquilo.

E assim, apaixonados, logo estavam trocando alianças. Mesmo que “uma princesa ou uma rata” a tenha dito que aquilo parecia apresado demais. “O que elas sabiam da vida, não?”, ela questionava furiosa em sua mente, embora em sua fachada se resumisse a sorrir, agradecer e dizer que era “o que seu coração queria” com toda a cordialidade inglesa que lhe era característica.

* * * * *

E os meses se passaram, um a um.

Embora eles dividissem uma casa, ela pouco sabia sobre a vida do marido. Porém, logo algumas coisas começaram a incomodá-la. Como, por exemplo, as cartas queimadas após ele as ler ou os telefonemas sussurrados de madrugada. Mesmo que a princípio ela tentasse não se importar, com o tempo aqueles atos começaram a preocupá-la.

Uma tarde de inverno foi o que bastou para partir em mil pedaços o coração e as esperanças de Martha. Ela nunca iria se esquecer. Estava em um café, sentada com a garota que interpretaria Jasmine em Aladdin na próxima temporada de atuações.

Elas conversavam animadas quando Frank apareceu do outro lado da rua. O primeiro impulso dela seria gritar para o amado, após apontá-lo a amiga e dizer quem era. Mas a garota a impediu quando viu que ele sorria pra outra que corria em sua direção.

É claro que Martha tentou alegar que poderia ser qualquer um, alguém muito parecido com Frank. Mas, por dentro, ela sabia muito bem que aquele era seu marido e que isso era uma traição, não importava a desculpa que ele desse.

A menina que interpretava Alice, aquela do País das Maravilhas e que corria desesperadamente atrás de um coelho branco, lhe ofereceu sua casa e ajuda. Afinal, ela disse com muita convicção que tinha um primo, que conhecia um rapaz, que talvez pudesse ajudá-la.

Martha estava agoniada e disposta a não aceitar ajuda de terceiros, mas a loirinha garantiu que o jovem detetive poderia descobrir quem era a lambisgóia. E que, depois, todas as princesas poderiam ajudá-la na hora de mostrar aquela cidadã como às coisas aconteciam nos bastidores da Disney!

Kennedy, o primo da garota que fazia Alice (e que estranhamente se chamava Alice mesmo), trabalhava como agente da CIA. De início aquilo não surpreendeu Martha, já que a garota havia falado que ele conhecia um jovem detetive muito competente, em sua mente o rapaz só poderia ser policial mesmo.

Mas, depois, quando alguém a explicou que a CIA era a mesma coisa que os cargos mais importantes da Scotland Yard. Martha pensou o como aquilo não era nada parecido com a Guarda Metropolitana, o como eles eram muito mais importantes. O frio na barriga foi enorme e ela quase quis desistir. Afinal, levar um caso corriqueiro de traição para eles deveria ser motivo de piada, não?

Mas Alice não a deixaria desistir de jeito nenhum e, tentando arrumar as coisas só as piorou, mencionando que eles eram como a Interpol, na verdade, mas que seu primo não deixaria o caso passar.

Pensar na Interpol investigando uma traição quase fez Martha desmaiar. ”Essa garota vai fazer com que sejamos presas, isso sim!”, era o que sua mente lhe gritava enquanto elas esperavam o rapaz na entrada do prédio.

Martha estava quase correndo dali quando Kennedy chegou sorridente. Ele tinha os mesmos olhos e a mesma cor de cabelo da garota e, bem, o abraço nela provava que eram parentes muito próximos. A garota o disse que precisava da ajuda dele, apresentando Martha em seguida e dizendo o como aquele caso precisaria muito daquele detetive extraordinário que ele havia contado a ela que estava trabalhando com eles em uns casos.

Kennedy as levou até a sala dele e, entre alguns soluços e muito medo, Martha contou o como a atitude de Francis era suspeita. O rapaz a ouviu sem interrompe-la, mas foi a descrição do marido traidor que o fez gelar, só ela bastou para que ele mandasse que chamassem o detetive Holmes urgentemente.

Um garoto entrou na sala, ele parecia como um office boy e não deveria ter mais de 15 anos. Ele se dirigiu a Kennedy e os olhares das garotas mostraram todo tipo de espanto quanto o policial disse que aquele menino era o tal detetive famoso.

Mais uma vez, Martha pensou em desistir. “Como uma criança poderia ajudá-la?”, sua mente a questionava, mesmo que ela não quisesse ofender a capacidade dos policiais, a ideia de que contratassem crianças como detetives era tão absurda...

Sherlock Holmes, o garoto, pediu para que ela contasse a história dela e deduziu que era inglesa antes mesmo que ela abrisse a boca. Martha quase pode ficar impressionada por aquilo, mas o que realmente a assustou foi a capacidade de dedução do rapaz, ele resolveu o caso todo sem se mexer do lugar e pediu a Kennedy um mandado de prisão para Francis.

O coração de Martha ficou pequenininho, mas Kennedy a explicou quem Francis realmente era: um mafioso conhecido, há anos procurado, e que precisava se detido a qualquer custo.

* * * * *

Nos dias seguintes e por meses a fio, a televisão noticiava que a CIA havia prendido o mafioso e o como aquilo havia desencadeado uma onda de prisões importantes. O julgamento de Francis aconteceu dois meses depois, e nesse período Martha não podia nem pensar em sair da cidade, mesmo que sua vontade de voltar para sua casa em Londres fosse enorme.

Por um instante ela teve medo de recomeçar, mas ficar nos Estados Unidos já não lhe parecia algo bom. Imagina se ela tivesse o azar de se envolver com outra pessoa de má índole? Aquilo seria sua ruína.

No dia do julgamento, ela foi chamada. Martha estava assustada e ficou feliz ao ver o rosto do jovem detetive no corredor. Ela tentou puxar conversa com o garoto e após um tempinho ele cedeu. Ela tremia, o que o deixou preocupado e o fez ouvi-la por um momento.

Martha o contou o sonho que teve na noite anterior, um em que Francis se soltava da cadeia, fugia após ser preso, e iria atrás dela para matá-la. Sherlock queria dizer a ela que aquilo não aconteceria, mas ele sabia bem o como fugas da cadeia eram coisas corriqueiras naquele país.

Tentando acalmá-la, era o que Martha acreditava, ele prometeu que faria com que Francis nunca pudesse sair para a sociedade novamente. Ela queria saber detalhes daquilo, embora acreditasse que fosse uma promessa vã, mas foi chamada a depor naquele instante.

Ela olhou para a cara do homem em que amava e se sentiu terrível. Por um momento ele era tudo pra ela, a terra, o ar, a sua força vital, e no instante seguinte ela o havia visto com outra na rua. Embora um advogado tenha feito perguntas a ela que tentavam induzi-la a dizer que fazia parte do esquema, Martha suspirou e contou a ele o que havia passado.

Suas palavras causaram uma certa comoção geral entre as pessoas que assistiam e julgavam o caso, mas quando ela subiu o olhar, viu a cólera e a raiva em Francis e o como seu sonho poderia se tornar realidade. Aquilo a empalideceu e o próprio juiz viu o como ela era inocente com aquela cena.

Quando ela deixou o banco de testemunhas, não conseguiu continuar ali por muito tempo. Era triste demais saber o como havia sido burra, o como havia acreditado em alguém tão ruim e entregado seu coração a um estranho ao crer em amor a primeira vista.

No dia seguinte, Martha começava a empacotar suas coisas, após receber uma carta de Kennedy que a dizia que estava livre para voltar a Londres, quando sua campainha tocou. Ela atendeu a porta com o mesmo ar de tristeza que havia deixado o tribunal, mas lá estava o pequeno Sherlock com um grande sorriso.

“Como sabia que eu morava aqui?”, foi a primeira coisa que ela conseguiu dizer após o susto de revê-lo.

“Eu sei muitas coisas, senhora. Entre elas, é claro, sei que não deve estar ciente de tudo o que se passou no tribunal após sua saída”. Aquelas palavras dele encheram os olhos dela de lágrimas.

“Eu não me importo”, ela tentou falar da boca pra fora, mas seu olhar entregava o oposto.

“Pois deveria”, ele lhe respondeu sorridente. “Francis foi condenado a morte e, bem, eu dei um jeitinho de provar o como a senhora foi lesada e... espero que o que tenham depositado para a senhora no banco seja o suficiente”, ele lhe disse entregando um papel do banco com informações de uma conta.

Antes que Martha pudesse falar qualquer coisa, ele já se preparava para sair, mas parou a porta para dizer suas ultimas palavras.

“Sei que vai voltar para Londres, com certeza, a verei por lá daqui algum tempo. Tenha uma boa viagem, senhora Hudson”.





1 comentários:

Luiza disse...

Jura que Francis é um apelido pra Frank e eu não sabia? Vivendo e aprendendo... Ou então você apresentou ele de uma forma e passou o resto da one chamando de outra kkkkkk Acontece.

Outra coisa, o que seria Sissons? Procurei no google e achei um site sobre curva de carboidratos, mas tenho quase certeza que não era a isso que você se referia...

Enfim, adorei ei ei a one, e eu disse que viria aqui! Me poupar dos finais funciona!

Sherlock sendo agradável uma vez na vida, e com essa que, no futuro, será a provedora de seu lar. Que bonitinho.

Eu faria agora uma piadas e pá, porque você colocou uma atriz de doctor who pra ser a Mrs. Hudson na capa, mas vou poupá-la desse tormento que sou kkkkkk

Esse comentário está horrível, desaprendi a fazer comentário, shame on me. Mas achei legal de verdade, com todo o meu coraçãozinho.

Beijão!

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