No passado ela havia sido jovem, impulsiva, apaixonada. Um amor não estava em seus planos, já que estava naquele país apenas para “passar suas férias”. Longe de todo aquele espírito recatado, movimentos e pensamentos controlados, graciosos, que eram exigidos de qualquer moça inglesa.
Atravessar
o Oceano para Martha parecia o certo... Na verdade não tão certo. Mas ela tinha
sede de aventura, uma vontade avassaladora de saber que era dona de seu próprio
nariz, senhora de seus atos e que não haveria ninguém na Terra capaz de
julgá-la... (Não alguém conhecido e cuja interpretação lhe doesse ao menos...)
Porém
ela logo abandonou o conceito de férias e decidiu passar um tempinho mais ali,
com a desculpa de que “queria conhecer um pouco mais da América”. Quando, na
verdade, queria mesmo era um pouco de distância da Inglaterra, isso sim.
Porém,
nesse ‘Novo Mundo’, uma senhorita achar um novo trabalho não parecia ser a
coisa mais fácil a ser feita. Ela estava andando por todos os lugares da
Flórida com um jornal a mão e currículos – que ridiculamente não tinham como
ser confirmado (pois quem faria uma chamada interurbana pra ter certeza de suas
referências?).
Foi
com grande alegria – e um certo ar de desconfiança – que ela comemorou ao
conseguir sua primeira entrevista de emprego. Sorriso no rosto e um ar
confiante foi o que a levou a agência. E, mesmo que ela não fosse uma jovem
flor do campo (mesmo que ainda estivesse assegurado para si o status de
senhorita) lá foi ela com toda a convicção e pose adolescente.
A
agência a indicou um endereço, a porta dos fundos de um renomado parque de
diversões; mas é claro que Martha dificilmente teria como saber isso estando a
apenas duas semanas na Flórida.
Um
senhor gorducho, vestido de policial, mas com estranhas orelhinhas de rato
desenhadas em seu uniforme, foi quem a deixou entrar para sua entrevista. Não
que ela tenha gostado da piscadinha capciosa que ele a deu após passar pelos
portões, mas ela fingiria não ter visto nada se fosse para um bem maior.
“Ser
empregada e finalmente mandar em seu nariz”, esse era seu lema, seu mantra
interno. Então, lá foi ela, seguindo a caminho até a porta que lhe foi
indicada.
Mas,
a cada passo que ela dava a coisa parecia ainda mais estranha. O local parecia
incomum, como se fosse os fundos de um grande cenário.
Uma
esticada na visão para dentro das salas pelo qual passava mostrou-lhe uma
porção de tecidos coloridos em araras intermináveis. Pessoas passavam pelos
corredores com roupas nada corriqueiras. Havia um homem (pelo menos era o que
ela acreditava pelo som da voz) com uma enorme cabeça de rato encostado na
parede do corredor que falava com uma moça de vestido azul, cabelo loiro curto
e uma coroa em forma de tiara em sua cabeça.
As
peças estavam começando a se juntar na mente de Martha quando ela passou por
uma porta escrito “Walt Disney, diretor”. Aquilo foi o suficiente para ela
congelar no local ao se dar conta de “onde estava”.
Uma
senhora de pele morena veio ao encontro de Martha e, após se certificar de que
ela era a “inglesa que viria para a entrevista”, a arrastou para a sala certa.
Foi
com grande alegria que, naquele dia, Martha descobriu que seria a nova
companheira de Mickey Mouse e sua turma naquele grande parque temático. Como
era dançarina, suas aptidões lhe deram um emprego para se apresentar em uma das
novas atrações e logo ela se tornou fixa ali, mudando de papel a cada novo
calendário.
Foi
em uma tarde de verão, quando ela interpretava uma dançarina exótica, que seus
olhos se encontraram com o de um distinto senhor em meio à multidão. Ele,
aliás, também pareceu esquecer-se do mundo ao seu redor no momento em que seus
olhares se encontraram.
Frank
Hudson era seu nome, e ela não teria conseguido passar um dia a mais de sua vida
sem saber essa informação. O moço, aliás, também estava bem interessado em
saber quem era Martha, e como se tivessem combinado, após o espetáculo, eles se
procuravam em meio a multidão.
Parecia
que a vida dela finalmente havia entrado nos eixos. Um novo país, um novo
emprego e um grande amor, o que mais ela poderia esperar da vida, não?
Ele
até havia lhe dado um apelido carinhoso, Sissons, e ele soava engraçadinho a
seus ouvidos, embora ela não entendesse de fato o porque daquilo.
E
assim, apaixonados, logo estavam trocando alianças. Mesmo que “uma princesa ou
uma rata” a tenha dito que aquilo parecia apresado demais. “O que elas sabiam
da vida, não?”, ela questionava furiosa em sua mente, embora em sua fachada se
resumisse a sorrir, agradecer e dizer que era “o que seu coração queria” com
toda a cordialidade inglesa que lhe era característica.
*
* * * *
E
os meses se passaram, um a um.
Embora
eles dividissem uma casa, ela pouco sabia sobre a vida do marido. Porém, logo
algumas coisas começaram a incomodá-la. Como, por exemplo, as cartas queimadas
após ele as ler ou os telefonemas sussurrados de madrugada. Mesmo que a princípio
ela tentasse não se importar, com o tempo aqueles atos começaram a preocupá-la.
Uma
tarde de inverno foi o que bastou para partir em mil pedaços o coração e as
esperanças de Martha. Ela nunca iria se esquecer. Estava em um café, sentada
com a garota que interpretaria Jasmine em Aladdin na próxima temporada de
atuações.
Elas
conversavam animadas quando Frank apareceu do outro lado da rua. O primeiro
impulso dela seria gritar para o amado, após apontá-lo a amiga e dizer quem era.
Mas a garota a impediu quando viu que ele sorria pra outra que corria em sua
direção.
É
claro que Martha tentou alegar que poderia ser qualquer um, alguém muito
parecido com Frank. Mas, por dentro, ela sabia muito bem que aquele era seu
marido e que isso era uma traição, não importava a desculpa que ele desse.
A
menina que interpretava Alice, aquela do País das Maravilhas e que corria
desesperadamente atrás de um coelho branco, lhe ofereceu sua casa e ajuda. Afinal,
ela disse com muita convicção que tinha um primo, que conhecia um rapaz, que
talvez pudesse ajudá-la.
Martha
estava agoniada e disposta a não aceitar ajuda de terceiros, mas a loirinha
garantiu que o jovem detetive poderia descobrir quem era a lambisgóia. E que,
depois, todas as princesas poderiam ajudá-la na hora de mostrar aquela cidadã
como às coisas aconteciam nos bastidores da Disney!
Kennedy,
o primo da garota que fazia Alice (e que estranhamente se chamava Alice mesmo),
trabalhava como agente da CIA. De início aquilo não surpreendeu Martha, já que
a garota havia falado que ele conhecia um jovem detetive muito competente, em
sua mente o rapaz só poderia ser policial mesmo.
Mas,
depois, quando alguém a explicou que a CIA era a mesma coisa que os cargos mais
importantes da Scotland Yard. Martha pensou o como aquilo não era nada parecido
com a Guarda Metropolitana, o como eles eram muito mais importantes. O frio na
barriga foi enorme e ela quase quis desistir. Afinal, levar um caso corriqueiro
de traição para eles deveria ser motivo de piada, não?
Mas
Alice não a deixaria desistir de jeito nenhum e, tentando arrumar as coisas só
as piorou, mencionando que eles eram como a Interpol, na verdade, mas que seu
primo não deixaria o caso passar.
Pensar
na Interpol investigando uma traição quase fez Martha desmaiar. ”Essa garota
vai fazer com que sejamos presas, isso sim!”, era o que sua mente lhe gritava
enquanto elas esperavam o rapaz na entrada do prédio.
Martha
estava quase correndo dali quando Kennedy chegou sorridente. Ele tinha os mesmos
olhos e a mesma cor de cabelo da garota e, bem, o abraço nela provava que eram
parentes muito próximos. A garota o disse que precisava da ajuda dele,
apresentando Martha em seguida e dizendo o como aquele caso precisaria muito
daquele detetive extraordinário que ele havia contado a ela que estava
trabalhando com eles em uns casos.
Kennedy
as levou até a sala dele e, entre alguns soluços e muito medo, Martha contou o
como a atitude de Francis era suspeita. O rapaz a ouviu sem interrompe-la, mas
foi a descrição do marido traidor que o fez gelar, só ela bastou para que ele
mandasse que chamassem o detetive Holmes urgentemente.
Um
garoto entrou na sala, ele parecia como um office boy e não deveria ter mais de
15 anos. Ele se dirigiu a Kennedy e os olhares das garotas mostraram todo tipo
de espanto quanto o policial disse que aquele menino era o tal detetive famoso.
Mais
uma vez, Martha pensou em desistir. “Como uma criança poderia ajudá-la?”, sua
mente a questionava, mesmo que ela não quisesse ofender a capacidade dos
policiais, a ideia de que contratassem crianças como detetives era tão
absurda...
Sherlock
Holmes, o garoto, pediu para que ela contasse a história dela e deduziu que era
inglesa antes mesmo que ela abrisse a boca. Martha quase pode ficar impressionada
por aquilo, mas o que realmente a assustou foi a capacidade de dedução do
rapaz, ele resolveu o caso todo sem se mexer do lugar e pediu a Kennedy um
mandado de prisão para Francis.
O
coração de Martha ficou pequenininho, mas Kennedy a explicou quem Francis
realmente era: um mafioso conhecido, há anos procurado, e que precisava se
detido a qualquer custo.
*
* * * *
Nos
dias seguintes e por meses a fio, a televisão noticiava que a CIA havia
prendido o mafioso e o como aquilo havia desencadeado uma onda de prisões
importantes. O julgamento de Francis aconteceu dois meses depois, e nesse período
Martha não podia nem pensar em sair da cidade, mesmo que sua vontade de voltar
para sua casa em Londres fosse enorme.
Por
um instante ela teve medo de recomeçar, mas ficar nos Estados Unidos já não lhe
parecia algo bom. Imagina se ela tivesse o azar de se envolver com outra pessoa
de má índole? Aquilo seria sua ruína.
No
dia do julgamento, ela foi chamada. Martha estava assustada e ficou feliz ao
ver o rosto do jovem detetive no corredor. Ela tentou puxar conversa com o
garoto e após um tempinho ele cedeu. Ela tremia, o que o deixou preocupado e o
fez ouvi-la por um momento.
Martha
o contou o sonho que teve na noite anterior, um em que Francis se soltava da
cadeia, fugia após ser preso, e iria atrás dela para matá-la. Sherlock queria
dizer a ela que aquilo não aconteceria, mas ele sabia bem o como fugas da
cadeia eram coisas corriqueiras naquele país.
Tentando
acalmá-la, era o que Martha acreditava, ele prometeu que faria com que Francis
nunca pudesse sair para a sociedade novamente. Ela queria saber detalhes
daquilo, embora acreditasse que fosse uma promessa vã, mas foi chamada a depor
naquele instante.
Ela
olhou para a cara do homem em que amava e se sentiu terrível. Por um momento
ele era tudo pra ela, a terra, o ar, a sua força vital, e no instante seguinte
ela o havia visto com outra na rua. Embora um advogado tenha feito perguntas a
ela que tentavam induzi-la a dizer que fazia parte do esquema, Martha suspirou
e contou a ele o que havia passado.
Suas
palavras causaram uma certa comoção geral entre as pessoas que assistiam e
julgavam o caso, mas quando ela subiu o olhar, viu a cólera e a raiva em
Francis e o como seu sonho poderia se tornar realidade. Aquilo a empalideceu e
o próprio juiz viu o como ela era inocente com aquela cena.
Quando
ela deixou o banco de testemunhas, não conseguiu continuar ali por muito tempo.
Era triste demais saber o como havia sido burra, o como havia acreditado em
alguém tão ruim e entregado seu coração a um estranho ao crer em amor a
primeira vista.
No
dia seguinte, Martha começava a empacotar suas coisas, após receber uma carta
de Kennedy que a dizia que estava livre para voltar a Londres, quando sua
campainha tocou. Ela atendeu a porta com o mesmo ar de tristeza que havia
deixado o tribunal, mas lá estava o pequeno Sherlock com um grande sorriso.
“Como
sabia que eu morava aqui?”, foi a primeira coisa que ela conseguiu dizer após o
susto de revê-lo.
“Eu
sei muitas coisas, senhora. Entre elas, é claro, sei que não deve estar ciente
de tudo o que se passou no tribunal após sua saída”. Aquelas palavras dele
encheram os olhos dela de lágrimas.
“Eu
não me importo”, ela tentou falar da boca pra fora, mas seu olhar entregava o
oposto.
“Pois
deveria”, ele lhe respondeu sorridente. “Francis foi condenado a morte e, bem,
eu dei um jeitinho de provar o como a senhora foi lesada e... espero que o que
tenham depositado para a senhora no banco seja o suficiente”, ele lhe disse
entregando um papel do banco com informações de uma conta.
Antes
que Martha pudesse falar qualquer coisa, ele já se preparava para sair, mas
parou a porta para dizer suas ultimas palavras.
“Sei
que vai voltar para Londres, com certeza, a verei por lá daqui algum tempo.
Tenha uma boa viagem, senhora Hudson”.


1 comentários:
Jura que Francis é um apelido pra Frank e eu não sabia? Vivendo e aprendendo... Ou então você apresentou ele de uma forma e passou o resto da one chamando de outra kkkkkk Acontece.
Outra coisa, o que seria Sissons? Procurei no google e achei um site sobre curva de carboidratos, mas tenho quase certeza que não era a isso que você se referia...
Enfim, adorei ei ei a one, e eu disse que viria aqui! Me poupar dos finais funciona!
Sherlock sendo agradável uma vez na vida, e com essa que, no futuro, será a provedora de seu lar. Que bonitinho.
Eu faria agora uma piadas e pá, porque você colocou uma atriz de doctor who pra ser a Mrs. Hudson na capa, mas vou poupá-la desse tormento que sou kkkkkk
Esse comentário está horrível, desaprendi a fazer comentário, shame on me. Mas achei legal de verdade, com todo o meu coraçãozinho.
Beijão!
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