"She walks in starlight in another world. It was just a dream.
Do you think she could have loved me?"
Muito tempo já havia se passado desde que Tauriel ouvira aquelas palavras, ditas em meio a um delírio apaixonado, mas elas sempre voltavam para assombrá-la. Bastava que as estrelas surgissem no céu para que a voz de Kili reverberasse em sua mente, tornando a dor ainda mais latente.
Ela havia voltado para o reino élfico da Floresta, o lugar que sempre chamara de lar, logo após despedir-se do anão, apenas alguns dias depois do término da grande batalha aos pés da Montanha Solitária. Tentara, de todas as maneiras, retomar sua vida, ocupando-se com seu posto de capitã da guarda; ou então, cantando às estrelas nas noites mornas, mas nada conseguia reparar seu coração despedaçado. Nada era capaz de cativá-la e ganhar seu afeto, e nenhuma palavra, por mais doce que fosse, podia fazê-la sorrir ou se importar.
Seu bem mais precioso passara a ser a pequena pedra gravada com runas que Kili lhe entregara, como uma promessa de que voltaria para ela. Carregava-a consigo a todo instante, e era capaz de passar horas infindáveis encarando-a em meio às lagrimas.
Aquele pequeno objeto fora tudo que restara de seu amado, e os manteria unidos enquanto ela continuasse respirando. Assim como a dor, que lhe provava, dia após dia, que seu sentimento era real.
Foi movida por essa dor - numa noite em que a lua surgira vermelha e dourada no céu -, que Tauriel deixou os limites do reino da Floresta para trás, disposta a nunca voltar. Iria ao encontro da única pessoa capaz de compreendê-la...
Munida de seu arco e sua adaga, a ruiva partiu em direção às Montanhas Azuis. Segundo Bofur, era naquela região que Dís, a irmã de Thorin, vivia. Mesmo com a retomada do reino de Erebor, a filha de Thrain não retornara ao lar, pois já não havia mais nada ali para ela sem os filhos e o irmão. Tauriel iria ao seu encontro, mesmo que fosse para cair de joelhos mais uma vez e chorar ao encará-la.
Os longos dias de viagem se passaram sem muita agitação. Um e outro orc ainda podia ser encontrado vagando entre a Floresta das Trevas e o vale de Valfenda, mas nenhum deles fora páreo para as flechas e lâminas manuseadas pela elfa. Mas, apesar disso, ela podia sentir um estranho cansaço tomando conta de seu ser, como se ela estivesse acordada por eras demais... Um preço pequeno a pagar por sua decisão.
Por fim, com o sol já caindo a oeste e mergulhando o mundo em escuridão, Tauriel alcançou seu destino. Mesmo que alguns olhares tenham se voltado desconfiados em sua direção, ela sentiu-se bem recebida, principalmente pelas crianças. Havia duas, em especial, que fizeram-na lembrar de Kili e de seu irmão, Fili. A ruiva percebeu-se encarando-os por um longo tempo, até que ambos se voltaram sorridentes em sua direção, acenaram alegremente e correram para uma outra ruazinha, desaparecendo de seu campo de visão.
Naquele instante, ela se permitiu devanear sobre a vida que poderia estar vivendo, se a grande batalha houvesse tomado outro rumo. Poderia estar percorrendo o mundo ao lado de seu amado; ou ainda, se estabelecido num lugar como aquele, talvez cuidando de uma garotinha de longos cabelos negros e olhos claros...
- Por que chora, senhora da floresta? - uma voz altiva indaga, fazendo com que Tauriel secasse as lágrimas apressadamente.
- Apenas sonhos de um coração despedaçado, senhora das montanhas - a ruiva responde, voltando-se para aquela que lhe dirigira a palavra com uma leve reverência.
E ali estava: os olhos claros como os do filho mais velho, os longos cabelos negros trançados às suas costas e o porte de quem pertencia à realeza... Aquela era Dís, filha de Thrain e mãe de Kili.
- Creio que eu saiba um pouco sobre corações feridos - a anã responde, com tristeza estampada em sua face. - Venha comigo, filha. Faça companhia a um senhora solitária - completa, estendendo uma das mãos para a elfa e levando-a consigo.
Pouco depois, ambas se encontravam sentadas junto a uma lareira crepitante, munidas com fumegantes xícaras de chá.
- Diga-me filha... Como se chama e o que faz tão distante de sua casa? - Dís indaga, encarando a convidada com sincero interesse. - Soube que estava à minha procura, mas não consigo imaginar o que poderia trazê-la até mim.
- Me chamo Tauriel - a ruiva responde, apanhando a runa e estendendo-a na direção de Dís. - Lutei ao lado de seu filho Kili no que chamam de Batalha dos Cinco Exércitos, e o vi padecer tentando honrar o irmão e me proteger... - e nesse momento, novas lágrimas banhavam o rosto dela. - Vim prestar-lhe minhas condolências, eu acho, e buscar algum apoio.
- Conheceu meus meninos? - e também Dís já chorava a essa altura, abandonando sua xícara e tomando as mãos trêmulas da elfa nas suas. - Fili e Kili morreram como guerreiros, honrando aquilo em que acreditavam?
- Os melhores junto de seu irmão, pelo que contam as canções em Valle... Corajosos, leais e honrados!
- Meus filhos... - a senhora de cabelos escuros murmura, com um sorriso fraco. - Infelizmente isso não foi suficiente para trazê-los a salvo para mim...
- Sinto muito por sua perda, senhora - diz Tauriel, com a voz embargada. - Tive a honra de conhecer seus filhos, e pude ver a devoção com que cuidavam um do outro... Foi assim até o último instante.
- Exatamente como foram criados para ser. Perdemos muitas pessoas que amamos ao longo dos anos, filha, então os ensinei a proteger um ao outro, da mesma forma que meu irmão cuidou de nosso povo desde que perdemos Erebor... - Dís explica, emocionada. - Mas posso ver que você também está sofrendo, querida. Não vejo a aura iluminada tão característica de seu povo a envolvendo. A resposta está na runa que você trouxe?
- Foi entregue a mim por seu filho, senhora, numa promessa de que voltaríamos um para o outro. Uma promessa que não pudemos cumprir... - a ruiva responde, sem encarar sua anfitriã.
- Você salvou meu Kili em Esgaroth, não é? A elfa de longos cabelos cor de fogo que livrou o sangue de meu filho do veneno morgul. Meu filho a amava, e posso ver que você também o ama. Nenhum outro motivo a teria trazido tão longe.
- Nem mesmo tive tempo de dizer isso a ele - Tauriel murmura, com a visão embaçada pelas lágrimas que continuavam umedecendo seu rosto delicado. - E tudo que me restou foi isso - continua, segurando a pequena runa bem firme entre as mãos. - Mas acho que ela pertence à senhora, Dís, filha de Thrain - completa, voltando a estender a pequena pedra na direção da anã.
- Não querida, foi um presente do meu Kili para você. É seu!
- Como a senhora consegue suportar? Como consegue acordar todos os dias, sabendo que não poderá ver seus filhos sorrindo?
- A dor se tornou uma companhia presente, junto de todas as lembranças... Mas preciso seguir em frente, mesmo que me custe muito a cada dia.
- A senhora é admirável! Penso que não sou dotada de tamanha honra ou força, já que...
- Abriu mão da imortalidade de seu povo? Não vejo um sinal de fraqueza nisso, querida!
- Tem certeza? - a elfa indaga, encarando os olhos azuis da mãe de seu amado.
- Você apenas optou por um vida mortal, e isso não é pouco! Significa muitos anos convivendo com a perda. Você não é fraca, Tauriel! Meu filho não se apaixonaria por você se fosse assim - completa, afagando as mãos da ruiva.
Nos instantes que se seguiram, apenas o crepitar da lareira se fez ouvir na sala aquecida. Elfa e anã estavam mergulhadas em seus próprios pensamentos e dúvidas, em lembranças felizes e tristes...
O brilho pálido da lua já entrava pela pequena janela quando a elfa se pôs de pé de repente, apanhando a chaleira ao fogo e servindo mais chá para ambas. Dís aceitou sua xícara com um sorriso, bebendo um gole quente e acalentador em seguida.
- Acho que já é o momento de seguir meu caminho - diz Tauriel minutos depois. - Afinal, não é sempre que um navio deixa a Terra Média rumo às terras imortais além do mar, não é? - completa, com um sorriso fraco, ao colocar-se de pé.
- Está indo embora? - Dís indaga, surpresa.
- Mas antes quero que fique com isso - a ruiva responde, tirando um colar de prata ornado com um pequeno cristal branco. - Foi um presente de meus pais - continua, colocando a joia nas mãos da irmã de Thorin.
- É lindo, querida... Mas... Mas você não precisa partir. Por que não fica em Ered Luin, fazendo companhia a essa senhora das montanhas? Será bem vinda filha, não duvide disso! Sou uma filha de Durin, mas posso ser mais compreensiva do que a maioria dos anões. - Dís exclama, voltando a tomar as mãos de Tauriel nas suas. - Cuidarei de você como cuidou de meus meninos, o que me diz?
- Que as terras além mar podem esperar mais alguns anos - a elfa responde, com um sorriso sincero. - É bom estar em casa.


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