15 de ago. de 2014

"Resistenz" - Capítulo 02: Insônia

Coraline sofrera muito com crises de insônia quando era mais jovem, principalmente nos meses que se seguiram à partida do primo. Mas com o passar do tempo as coisas voltaram ao normal, e a hora de dormir deixou de significar longas horas de silenciosa tortura.

Infelizmente, aquela era uma noite incomum em que a garota recebia novamente sua velha conhecida. A morena já estava deitada há algum tempo, mas permanecia bem acordada, rolando de um lado a outro na cama. O relógio no celular indicava que já passava da uma hora da madrugada, e Coraline se sentia mais desperta do que quando acordara pela manhã.

Irritada pela falta de sono e aborrecida de tanto olhar para o teto, a garota deixou a cama, e após trocar a camisola por uma roupa mais confortável, desceu pé ante pé os incontáveis degraus de pedra que a levariam ao térreo.

Após uma passadinha rápida pela famosa “sala de armas” – que muitas vezes assustara a ela e aos meninos quando pequenos -, a morena se dirigiu ao pátio que ficava nos fundos do castelo, onde a probabilidade de ser vista e incomodada àquela hora era relativamente menor.

À luz dos archotes – naquele lugar, o novo se misturava ao velho com certa harmonia -, Coraline escolheu como alvo uma das árvores mais próximas ao muro dos fundos, imaginando ali um daqueles conhecidos círculos formados por vários anéis coloridos. Em seguida, posicionou uma das flechas que trouxera consigo no arco e ajustou a mira, esticando ao máximo a corda antes de soltá-la.

A flecha cortou o ar com seu zumbido característico, e em segundos, se encontrava cravada na madeira exatamente onde a moça se propusera a acertar. Nos minutos seguintes a cena se repetiu várias e várias vezes, e logo, a maioria das árvores se encontrava com uma flecha cravada em seu tronco.

- Pontaria invejável – diz uma voz familiar nas sombras, fazendo a garota pular de susto.



- Sebastian! – Coraline responde, mais alto do que pretendia, mirando a flecha na direção dele. – Nunca mais faça isso, eu poderia tê-lo acertado! E... Espere, está me espionando? – completa, sem baixar o arco.

- Oh não, jamais faria isso senhorita! Estava sem sono e resolvi caminhar um pouco pra pensar, apenas isso – ele se desculpa, erguendo as mãos na altura dos ombros, gesto que fez com que a morena abaixasse a arma. – Aliás, desculpe a intromissão, mas não fazia ideia que a senhorita apreciava o tiro com arco e flecha. É realmente muito boa com isso.

- Bem... quando se tem um irmão como o meu, ou melhor, uma família como a minha, é preciso saber alguns truques caso queira permanecer respirando.

- Não acho que seus pais, tios, ou até mesmo seu irmão seriam capazes de fazer algo contra a senhorita.

- Se for pelo bem maior das famílias reais, o sangue não serviria de impedimento – ela responde sombriamente, voltando a atenção para o arco mais uma vez.

- Acho que não posso discordar disso, senhorita – Sebastian assente. – Lidar com a Realeza é tarefa para poucos...

- Mas você faz isso com maestria, está aqui desde que Eric assumiu os negócios, e continua ao lado de Viktor... não deve ter muito a temer. Aliás, você parece diferente da maioria das pessoas que cercam meu irmão.

- Diferente?  - ele questiona, visivelmente mais tenso.

 - Sim, você parece mais... simpático, não sei explicar com precisão. Mas parece alguém em quem eu seria capaz de confiar.

- Obrigado pelo voto de confiança, senhorita.

- Apenas continue fazendo por merecê-lo, Sebastian.

- Sim senhorita. Boa noite – o rapaz se despede, com um leve sorriso, deixando Coraline sozinha novamente.

*************

O relógio mostrava que já se aproximavam das seis da tarde em Portland, e faltava quase uma hora para o final do expediente “normal” do capitão Renard, mas tudo que ele precisava – e ansiava - agora era deixar o departamento. Como embarcaria para a Áustria logo cedo pela manhã, teria de organizar algumas coisas antes de partir.

Já havia contatado a pessoa que assumiria seu cargo nos dias que estaria ausente, e tratado de toda a parte burocrática de suas repentinas “férias” e de sua viagem. Agora faltava arrumar a mala e planejar alguns pequenos esquemas de segurança, caso se fizessem necessários.

O primeiro deles seria mudar os códigos do sistema de segurança do apartamento, assim a probabilidade do lugar ser invadido por alguém mandado pela “família” diminuiria consideravelmente. O próximo passo seria estabelecer uma ponte de contato segura com Nick e os outros, alguém em quem ele pudesse confiar e que estaria a salvo de ter seus telefonemas interceptados.

Pensando nisso, Sean deixou o departamento e se dirigiu à loja de especiarias de Rosalee, a Fuchsbau amiga de Nick, e que já o ajudara em outras ocasiões. Se havia alguém com quem ele poderia contar, e que seria irrastreável para as famílias Reais, esse alguém seria ela. Agora o capitão só precisaria convencê-la disso.

Aliás, não precisaria apenas convencê-la, mas também ganhar a confiança de Rosalee. Do mesmo modo que ter o sangue Real correndo em suas veias o ajudava a ter bons contatos e facilidade em certas áreas, também lhe proporcionava uma dose igual de inimigos e desconfiança, coisas com as quais Sean precisou lidar desde muito cedo.

Estava tão absorto em seus pensamentos que nem mesmo se deu conta de que já estava parado em frente à loja há alguns minutos, com o motor do carro ainda ligado. Se fosse uma situação de risco, onde estivesse em uma emboscada ou algo parecido, provavelmente já teria pago por seu descuido.

Com a consciência de que andava se distraindo com facilidade nas últimas horas – para ser mais exato, desde que ouvira Sebastian dizer o sobrenome de Coraline -, o príncipe enfim deixou o automóvel e se dirigiu ao interior da loja.

Foram necessários pouco mais de quinze minutos para que ele pudesse explicar a Rosalee a importância da colaboração dela, sendo o canal de comunicação enquanto ele estivesse fora do país, e fazê-la confiar nele, ao menos em relação a esse assunto.

Sean já estava com a mão na maçaneta, pronto para sair da loja, quando se viu sendo questionado por Rosalee:

- Desculpe a intromissão, mas... está tudo bem?

- Por que a pergunta? – diz ele, sem entender o que a levara a perguntar algo daquele tipo.

- Sei que nos vimos poucas vezes Capitão Renard, e na maioria delas em situações bastante estranhas – Rosalee começa a explicar -, mas se tem algo do qual eu tenho orgulho, é de ser uma ótima observadora – continua ela, aproximando-se mais um passo. – Há algo diferente em você, ou melhor, no seu olhar.

- Lhe asseguro que não acordei mais ninguém de um coma mágico e nem estou alucinando – Sean responde, saindo para o ar fresco do começo da noite em Portland.

- Não é isso – diz a fuchsbau, seguindo atrás dele. – Não há nenhum fulgor alucinado em seu olhar, muito pelo contrário. É algo mais natural, mais... real, talvez – ela tenta esclarecer, mesmo que com certa dificuldade. – Mas enfim, isso não é da minha conta. Desculpe.

- Não, tudo bem. Agradeço a preocupação, de qualquer modo, ainda mais com o meu histórico – o capitão agradece. - Até mais, senhorita Calvert – completa ele, finalmente embarcando no carro.

************

Quando finalmente terminou de arrumar a pequena mala que levaria consigo para a Europa, Sean pode enfim jogar-se no confortável sofá da sala de estar de seu apartamento. As grandes janelas lhe proporcionavam uma vista incrível da cidade, que se tornava ainda mais especial quando se podia ter a companhia de um cálice de vinho.

Ele já podia sentir o cansaço cobrando o preço daquele dia exaustivo, os olhos se tornando cada vez mais pesados, mas não sentia a mínima vontade de se levantar dali e ir pro banho. Aquelas almofadas macias pareciam embalá-lo cada vez mais, aconchegando-o num abraço que o fazia lembrar-se dela. Qualquer gesto de carinho sempre fazia sua mente vagar até ela... Seria sempre ela.

O príncipe bastardo podia, inclusive, visualizar a garotinha – da maneira como lembrava-se dela -  naquele exato instante.

Os cabelos escuros ondulando com o vento enquanto ela corria, fugindo para o alto da árvore mais próxima quando eles, junto com Erick e um emburrado Viktor, brincavam de pega-pega fora dos limites dos muros do Castelo.

Podia ouvir o som do riso divertido de Coraline - que até mesmo os pássaros paravam para ouvir, totalmente quietos - tão nitidamente que sentia seu peito apertar. Então se pegava vislumbrando o sorriso encantador da prima, que sempre o fazia se sentir mais aquecido.

No segundo seguinte, percebia o som de galhos se partindo e de uma garotinha indo de encontro ao chão, para depois sentir seu mundo vindo abaixo junto com um grito de dor.

- Coraline! – dizia ele, correndo de encontro a ela e amparando-a da melhor maneira possível, seus olhos já tão marejados quanto os da menina. – Estou aqui, vou cuidar de você – completava aos sussurros, fazendo um grande esforço para que as lágrimas não rolassem por seu rosto.

E antes que ela pudesse lhe dizer qualquer coisa, sentia-se sendo puxado para longe dela, caindo de encontro ao tronco da árvore.

- Saia de perto da minha irmã, seu bastardo – rosnava Viktor, encarando-o como se a culpa pela queda de Coraline fosse de Sean. – Não acha que já fez o bastante nos arrastando até aqui?

- Mas... Mas...

- Sem “mas”, Sean. Eu cuido dela – o garoto tornava a dizer, encarando-o com um olhar tão frio quanto o gelo. – E não ouse se aproximar novamente dela hoje, a menos que queira me dar um motivo para quebrar o seu nariz.

Com essa ameaça, o pequeno Sean se via obrigado a permanecer onde estava, enquanto observava Viktor levando Coraline de volta para o Castelo em seus braços, com Erick em seu encalço.

Algum tempo depois, a escuridão e o frio fizeram-no voltar a se mover, erguendo-se com dificuldade e retomando o caminho pelo qual haviam vindo. Precisava ver Coraline o quanto antes, e estava decidido a não acatar mais nenhuma ordem de seu primo, mesmo que isso significasse uma fratura.

Seguindo por corredores que sabia que Viktor não costumava usar com frequência, Sean alcançou o quarto da prima em poucos minutos. Após parar à porta e verificar que não havia som de vozes, o garoto abriu a porta com o máximo de silêncio que conseguiu e se esgueirou para dentro do cômodo.

À luz de uma pequena luminária, ele pode visualizar o rosto adormecido de Coraline, mais pálido do que de costume e com visíveis manchas arroxeadas logo abaixo dos olhos. Parecia mais frágil do que uma das bonecas de porcelana da menina.

Com cuidado para não acordá-la, o garoto se aproximou da cama e sentou-se na beirada do colchão, afagando carinhosamente o rosto da prima, seu olhar recaindo em seguida sobre braço engessado da garota.

- Sean... – ela murmurava, abrindo os olhos lentamente.

- Hey pequena turdus merula – dizia ele baixinho e com um sorriso de alívio, referindo-se a um pequeno pássaro nativo da Europa -, como se sente? Foi um voo um tanto arriscado, não acha?

- Dolorida... Mas feliz em te ver. Aliás, já que está aqui, poderia pegar mais um cobertor? Estou com frio.

- Frio? – o garoto questionava, encarando-a desconfiado. – Coraline, você está com febre! – continuava ele, tocando a testa dela. – Vou chamar ajuda, ok? Você precisa de algum remédio, e...

- Não, por favor... – e Sean ainda podia lembrar com nitidez da nota de desespero na voz da garota quando esta o segurou junto a si. – Fica aqui comigo.

- Sempre... Enquanto precisar de mim.

Embora estivesse vendo Coraline apenas em suas lembranças, o bastardo não pode impedir as palavras de saírem de seus lábios mais uma vez, mesmo que ninguém além dele pudesse ouvi-las. Também não pode deixar de pensar no quanto foi doloroso ter de quebrar aquela promessa, e no quanto gostaria que fosse mais simples voltar a cumpri-la.

Derrotado e exausto, Sean enfim deixou a sala de estar e se dirigiu ao quarto, caindo na cama no instante seguinte. Não queria mais lembranças, não queria mais sentimentos... apenas uma noite sem sonhos.

*************

Enquanto em Portland um membro da Realeza finalmente se entregava ao sono, a milhares de quilômetros dali, outro já estava de pé.

Mesmo que tenha ido deitar novamente só às duas da manhã, Coraline já se encontrava à mesa para o café da manhã poucos minutos depois das sete. Infelizmente, a falta de sono lhe cobrara seu preço, fazendo com que manchas arroxeadas aparecessem sob seus olhos, dando-lhe um aspecto cansado.

A garota encarava uma torrada quando ouviu a aproximação de alguém. Ao erguer o olhar, deparou-se com a última pessoa que gostaria de ver logo cedo.

- Caiu da cama? – a morena questiona, voltando a encarar a torrada.

- Bom dia pra você também, irmã – diz Viktor, ao ocupar seu lugar. – Eu tinha a leve impressão de que nossa mãe havia lhe dado educação. Vejo que me enganei – completa ele, com um suspiro.

- Guardo minha boa educação para quem merece – ela responde, sem se abalar. – O que não é o seu caso, irmão.

- Não me lembro de ter lhe dado permissão para passar a noite fora, Coraline. Estava com Alexander? – o príncipe pergunta, sem dar atenção à resposta dela, enquanto se servia de café.

- O que? Não! É claro que não passei a noite com Alexander – Coraline rebate, indignada. – De onde tirou essa ideia absurda?

- Você está com olheiras horríveis – diz ele, encarando-a seriamente –, achei que fosse por conta de algum ato de rebeldia. Além do mais, não vejo por que passar um tempo com seu noivo seja algo tão absurdo.

- É claro que você não entende, já que foi você quem arranjou esse casamento ridículo! – a garota rosna, largando o guardanapo sobre o prato e afastando a cadeira. – Se me der licença... perdi o apetite – completa, erguendo-se rapidamente.

- Coraline... – Viktor murmura num tom suave, segurando-a pelo pulso. – Deveria aprender a controlar seu temperamento. Acho que não seria nada bom pra você se aparecessem mais algumas manchas arroxeadas nesse rostinho bonito, não é? – completa ele, com um sorriso.

- Obrigada pelo conselho, mas eu dispenso. – ela responde, puxando o braço para se livrar do aperto em seu pulso. – Até mais, Viktor – diz a morena, dando as costas para ele e deixando a sala de jantar.



0 comentários:

Postar um comentário

Oiiie pessoal!

Esse blog possui diversas fics de séries, livros, desenhos, jogos, etc.

Com uma variedade tão grande nós precisamos saber como vocês chegaram até ele e o que gostaram de ler para continuar escrevendo fics desse fandom.

Então, por favor, deixem-nos um comentários do que leram e o que acharam, ok?

Vocês também podem sugerir o que gostariam de ler e tentaremos atender ao pedido ;D