O céu tomado por nuvens cinzentas, as gotas de chuva gélidas e o vento frio – que açoitava sem dó quem quer que ousasse por os pés fora de casa – eram um perfeito retrato do humor da garotinha que aguardava junto ao alto muro de pedra, tentando manter-se anônima aos olhos de possíveis curiosos.
A mente e o coração de Coraline eram um turbilhão de sentimentos. Encolhida para se proteger do frio, ela tentava organizar os pensamentos conflitantes e focar no que era mais importante naquele momento: despedir-se de Sean. Não podia perdê-lo para sempre sem antes dizer que sentiria sua falta, sem dizer o quanto ele era importante...
A noite caía rapidamente quando movimentos próximos ao beco, que ficava no fim dos muros do castelo, fizeram o coração da garota dar um salto em seu peito. Por alguns instantes, ela achou que pudesse ter sido descoberta, que sua mãe enviara algum dos empregados vir buscá-la e levá-la à força para o interior das paredes de pedra, mas não era nada disso. Em meio às sombras, Coraline pode identificar os movimentos quase felinos de seu primo, e logo os cabelos escuros e os claros olhos verdes podiam ser reconhecidos de onde ela estava.
- O que você está fazendo aqui? – diz o garoto, aproximando-se rapidamente e a envolvendo em um abraço apertado. – Não sabe o risco que está correndo?
- Eu... Eu precisava me despedir... – ela responde, a voz mal passando de um sussurro.
- Admito que eu também tinha esse mesmo desejo – e enquanto Sean ajeitava uma mecha de cabelo atrás da orelha da garota, um fraco – mas sincero – sorriso brotou em seus lábios. – Agora preciso que volte ao castelo. Não me perdoaria nunca se te descobrissem aqui! Além do mais, mamãe quer colocar a maior distância possível entre nós e a rainha da Casa Kronenberg.
- Eu sinto tanto, Sean! – Coraline diz em meio às lágrimas, sem conseguir encarar o primo. – Se não fosse pela minha mãe...
- Você não tem culpa de nada, está bem? Prometa pra mim que vai esquecer essa ideia e que não vai se martirizar depois que eu partir! A rainha só precisava de um motivo razoável para nos caçar, por assim dizer, e sua mãe deu isso a ela. Isso é tudo, e você não é culpada de nada ok? – ele explica, tocando o rosto dela para que seus olhares se encontrassem mais uma vez. – Agora eu preciso ir... Adeus Coraline – completa, beijando o rosto da garota em seguida.
Coraline permaneceu parcialmente imóvel enquanto o garoto se afastava junto da mãe. As lágrimas agora caíam de maneira ininterrupta, embaçando-lhe a visão, e seu peito parecia se abrir num abismo, tamanho o sofrimento que a assolava. Mas antes que as figuras escapassem para sempre de seu campo de visão, a garota saiu de seu torpor e se pôs a correr.
- Sean, espera! – ela grita, fazendo o garoto virar-se imediatamente e voltar alguns passos, encurtando a distância entre eles. – Quero que leve isso com você – continua, estendendo para ele um anel de aspecto antigo. – Assim não vai esquecer de mim.
- Core, eu não posso aceitar! É seu anel de família, todos dariam pela falta dele e você acabaria encrencada.
- Mas...
- Se quer mesmo me dar algo – Sean a interrompe, secando gentilmente uma lágrima que escorria pelo rosto dela -, aceito isso – diz ele, tirando a fita de cetim bordô que enfeitava o cabelo da garota. – Agora, quero que fique de olhos fechados, está bem? Assim não terá de me ver partir.
- Adeus Sean – Coraline sussurra, sentindo o primo se afastar definitivamente.
Foi preciso vários minutos para que a garota recobrasse a coragem necessária para abrir os olhos mais uma vez. A penumbra e o silêncio com os quais ela se deparou foram friamente quebrados alguns instantes depois, por uma voz conhecida e um tanto desagradável.
- “Adeus Sean! Sempre vou amar você...” – diz a figura a um canto, num falsete que buscava imitar a voz da própria Coraline. – Sonhando com o primo bastardo outra vez, irmãzinha? Há anos você tem esse mesmo sonho! Não acha que já está na hora de se portar como a princesa que é?
- O que faz no meu quarto, Viktor? – a garota questiona, enquanto se dava conta de que os momentos com o primo haviam sido apenas recordações em seus sonhos. – Não sabe que é de mau tom invadir a privacidade alheia? Só porque agora é o primeiro na linha de sucessão ao trono da casa Kronenberg, isso não lhe dá o direito de me espionar durante a noite.
- Estava passando no corredor e ouvi vozes, então resolvi verificar o que estava acontecendo. Qualquer pessoa em sã consciência vai me dar razão, pois estou apenas zelando pela minha irmã mais nova.
- Quer dizer “qualquer pessoa que caia nos seus encantos”, não é, irmão? – Coraline replica, com acidez. – Agora que já tripudiou sobre meus sentimentos e minha privacidade, poderia fazer o favor de me deixar sozinha?
- Posso sair – diz ele, dando de ombros displicentemente -, mas isso não vai me impedir de ouvir seu choro do lado de fora, minha querida. Bom resto de noite – completa, fechando a porta ao sair.
Por mais que fosse doloroso para ela admitir, Viktor tinha razão. As paredes do castelo – mesmo seculares, largas e sólidas – não eram suficientes para manter certos detalhes em segredo. Ser parte da realeza Wesen não era uma tarefa simples, mas ter a vida vigiada de perto e saber que os cômodos podiam ouvir qualquer coisa tornava as coisas um pouco mais difíceis.
Na infância, tudo havia sido mais fácil, colorido e alegre. A companhia de Sean sempre fizera a aura daquele estranho lugar parecer mais leve. Mas desde que o primo partira, Coraline sentia como se uma pesada nuvem escura pairasse sobre si, nunca deixando com que ela vislumbrasse o mundo com as cores de antes.
Agora, mais de vinte anos depois, ela se via prometida a alguém que não suportava, tendo de sorrir e fingir se alegrar a cada vez que o assunto “casamento” era mencionado; via o irmão alcançar o posto de primeiro Príncipe - que Viktor havia almejado por tanto tempo – após a morte de seu outro primo, o meio irmão de Sean, Eric; e o mais doloroso... continuava sem notícias do garoto que habitara seus sonhos por todos esses anos.
***********
Portland – Estados Unidos
Sean Renard não podia dizer que lamentava profundamente pela morte de Eric, não depois de tudo o que o meio-irmão aprontara. Sabia também que a “família” poderia acusá-lo, mesmo que não houvesse provas além das suspeitas com as quais ele já estava acostumado. Na verdade, isso já não o afetava há muito tempo.
Por outro lado, a falta que sentia “dela” o acompanhara fielmente por todos esses anos. Ainda mantinha guardada a fita de cetim que ganhara da prima, uma das poucas pessoas que o tratara com dignidade durante o tempo em que morou dentro dos limites do castelo, e a única com a qual ele ainda se importava.
O agora Capitão da Polícia de Portland foi tirado de seus devaneios por um som conhecido vindo de dentro da gaveta, o que só poderia significar que era um assunto sério e sigiloso. Afinal, poucas pessoas tinham conhecimento daquele número de celular, e nenhuma delas ligaria por algum motivo banal.
Após fechar a porta do escritório para evitar interrupções, ele finalmente pode voltar sua atenção para o telefonema:
- Está podendo falar? – era Sebastian, que por anos vinha mantendo Sean informado das coisas que se passavam dentro dos muros do castelo.
- Estou ouvindo – Renard se limita a responder.
- Como já era esperado, seu primo Viktor assumiu o lugar de seu irmão e já está à frente dos negócios da família.
- Até aí, nenhuma novidade. Algo com que eu tenha de me preocupar?
- Ele acabou de marcar uma reunião com a Srta. Shade, provavelmente para entender qual a relação dela com seu irmão. Acho que não precisamos nos preocupar, ao menos por hora.
- Concordo, mas fique de olhos e ouvidos atentos a tudo que acontecer nessa reunião, Sebastian. Precisamos nos manter à frente deles se quisermos nos manter vivos.
- Farei isso – o outro responde, ficando em silêncio por alguns segundos logo depois. – Já não é mais seguro, preciso... Srta. Beckendorf!
Mesmo que a ligação tivesse sido encerrada de maneira abrupta por Sebastian, Sean permaneceu com o fone próximo ao ouvido por mais algum tempo, tentando absorver o que havia acabado de escutar. Beckendorf... Não havia como esquecer aquele sobrenome, muito menos a garota que o carregava.
Pela primeira vez em muito tempo, ele teve de se controlar para não retornar a ligação e questionar Sebastian acerca de Coraline. Queria saber como a prima estava, se era feliz, se ainda lembrava-se dele... Mas não podia correr tal risco, e nem submeter o amigo ao perigo de ser flagrado.
Com mais força do que era necessário, Sean abriu novamente a gaveta e jogou o celular ali dentro, fechando-a com um estrondo em seguida. Largou-se de volta na cadeira, respirando fundo na esperança de conter a enxurrada de lembranças que ameaçavam envolvê-lo sem piedade.
Após passar as mãos pelos cabelos algumas vezes, voltou sua atenção à papelada sobre a mesa, torcendo para que o trabalho conseguisse desviar sua atenção, ao menos por hora...
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Após mais um dia de trabalho no Museu de História da Arte, em Viena, onde era curadora do departamento d’O Tesouro Secular, Coraline se via novamente dentro dos limites do castelo de Kronenberg, onde o simples fato de adentrar os portões já a fazia se sentir dentro de um aquário, onde era observada e vigiada.
Com a ascensão de seu irmão, esse sentimento só se intensificara. Desde crianças, o relacionamento entre a garota e Viktor podia ser considerado conturbado, já que a proximidade entre ela e Sean o deixava incomodado. Mas agora ele parecia ter elevado o senso de “zelo” para com a irmã caçula, o que a deixava extremamente irritada.
Estava a caminho dos seus aposentos quando uma conversa sussurrada chamou sua atenção. Ao se aproximar mais um pouco, pode reconhecer a voz de Sebastian, um dos assessores diretos de seu irmão. Encontrou-o escondido atrás de uma tapeçaria antiga, e não levou mais do que alguns segundos para ser notada.
- ... preciso... Srta. Beckendorf! - diz Sebastian, levemente corado, encerrando a ligação rapidamente e levando o celular de volta ao bolso do paletó. – Teve um bom dia? Parece cansada...
- O dia foi muito proveitoso, obrigada por perguntar – Coraline responde, com um leve sorriso. - Está tudo bem, Sebastian? Juro que não ouvi nada de mais da sua conversa particular, ok? – continua, se aproximando mais um pouco. – E se for... você sabe... uma garota, prometo que não digo nada ao Viktor – completa, em tom conspiratório.
- O que? Não, não é nada disso – ele se apressa a responder, totalmente sem jeito. – Era apenas um telefonema familiar, nada que mereça a atenção da realeza, senhorita.
- Uma maneira educada de dizer que estou sendo intrometida. Desculpe – diz ela, com uma careta. – E não precisa se explicar, não sou meu irmão. Agora, se me der licença... preciso me livrar logo desses sapatos, estão me matando!
Com um aceno, Coraline se despediu do rapaz e retomou seu caminho sem mais perguntas, mesmo achando a atitude de Sebastian levemente suspeita. Além do mais, ela tinha exata noção do que era ter a privacidade invadida, e estava decidida a agir diferente de seu irmão.
**********
Por mais que estivesse cheio de trabalho a fazer, com várias questões burocráticas para resolver e uma grande equipe para administrar, as horas pareceram se arrastar para Sean, e o dia se estendia pelo que parecia ser um mês.
A estranha sensação que o assolara ao final da ligação de Sebastian ainda não o abandonara, e fazia sua mente vagar para uma época em que sua maior preocupação era se livrar dos deveres de latim para correr livre pelos jardins com Coraline ao entardecer, antes que fossem chamados para o jantar.
Normalmente, ele lidava bem com sentimentos como nostalgia e saudade, afinal, tinha um cargo importante e assuntos sérios a tratar, então estava sempre ocupado demais para se deixar levar por lembranças. Mas também não era todo dia que os fantasmas vinham assombrá-lo assim, tão diretamente.
- Capitão, está tudo bem? – era o detetive Burkhardt à porta do escritório, encarando-o com uma leve ruga de preocupação na testa.
- Sim...Sim, tudo bem, claro – Renard responde, surpreso por não ter notado a presença de Nick antes. – Queria me dizer algo?
- Hank e eu estamos seguindo algumas pistas sobre aquele homicídio próximo ao parque, e gostaríamos que viesse ver o que encontramos. Se não estiver muito ocupado, é claro! – ele se apressa a acrescentar, visto que o capitão parecia imerso em pensamentos quando ele chegara ali.
- Só... Me dê um minuto, ok?
- Claro, sabe onde nos encontrar – diz Nick, fechando a porta ao sair.
Quando se viu novamente sozinho, sua mente disparou mais uma vez para longe dali. Foi preciso mais de um minuto para que o capitão “aterrissasse” novamente no aqui e agora, onde o dever era sua prioridade.
Já estava com a mão na maçaneta quando ouviu, pela segunda vez no dia, o celular tocando dentro da bendita gaveta. Com um choque de ansiedade, Sean deu meia volta e apanhou o aparelho, nem se dando ao trabalho de verificar o número que estava chamando.
- Sebastian, alguma novidade? – ele questiona, só então se dando conta de que o assunto deveria ser sério, e não um devaneio adolescente como os que o haviam assolado nas últimas horas.
- A novidade é que não sou Sebastian, capitão!
- Meisner! A que devo a honra?
- Fui incumbido de lhe passar um recado – o outro responde. – O alto escalão da Resistência convocou uma reunião, e pedem por sua presença em Viena o mais rápido possível.
- Ir à Viena? – diz Renard, como se buscasse confirmação para o que acabara de ouvir.
- Algum problema com isso? Não sente saudades de casa, Sean?
- Não exatamente... Mas diga a eles que irei comparecer, embarcarei amanhã.
- Perfeito, eles ficarão satisfeitos – diz Meisner, parecendo aliviado. – Cuidarei de tudo, e me ligue quando desembarcar no aeroporto, irei buscá-lo pessoalmente – completa, encerrando a ligação.
Viena... Passados mais de vinte anos, Sean finalmente teria a oportunidade de voltar ao lugar onde nascera. E talvez - apenas talvez - pudesse ter um vislumbre, por mínimo que fosse, daquela que povoara seus pensamentos de maneira tão intensa nas últimas horas.
“Pare de agir feito um adolescente idiota”, resmunga para si mesmo, balançando a cabeça para espantar aqueles pensamentos. “Já temos coisas demais em jogo para se preocupar em protegê-la”, completa mentalmente, antes de deixar o escritório.

1 comentários:
O capítulo já começa tão sofrido....em sinal de despedida....
Coraline era uma garotinha fofa, enfrentou o risco de ser pega pela mão ou qualquer outro alguém só para se despedir do primo. Aliás, Sean Renard! Que primo, hein?
Eu acho tão interessante tudo que se refere a vida dele na série. Ele está na realeza e mesmo após tantos anos de série nós realmente pouco sabemos sobre ele, né? Nós passamos pelo período de ficar com o pé atrás com ele para odiá-lo, e depois esse ódio virou uma big admiração. O que mais dizer, não?
Fiquei bem feliz que o tema seja exatamente explorar a vida do nosso capitão, :D
A fuga deles de Viena foi necessária, mas quem diria que estariam deixando para trás alguém que realmente gostava deles, não? Algo me diz que Cora queria ser bem mais que amiga, hein? Hummm...
Hoje a moça já é adulta e tem uma profissão de respeito... Mas que sina, hein? Viktor de irmão ela não merecia... Sinto confusão a vista, sabe??
Todo mundo achando que Renard vai curtir umas férias (ok, quase todo mundo)quando na verdade a coisa é bem mais complicada! Oo
Sabe que eu fiquei mega triste quando mataram o pobre Sebastian na série? Que bom que para matar a saudade nós pelo menos temos ele aqui, ehhhh E que viva muito :D
Beijinhos meninas e eu gostei bastante da fic, viu? Vou ler os demais e comentar com certeza! :D
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