Ele sabia que estava morto, tinha a total consciência do fato, mas isso não mudava a dor que lhe assolava quando ele se lembrava de como havia chegado ao outro lado.
Já fazia algumas horas? Dias? Semanas? Meses? Anos? De que importava, o tempo havia se tornado uma “relatividade trivial”, agora que ele não podia mais se comunicar com ninguém. Não importava o quão alto ele gritasse, mesmo que estivesse a frente de seus irmãos eles nunca saberiam.
Por um bom tempo ele até pensou sobre isso: perdê-lo os havia afetado de alguma forma? Ou ele era só mais um, como dois de seus outros irmãos que já haviam deixado o mundo dos vivos, para os que ficaram?
Eles poderiam ter sido uma família grande, seis irmãos... Ok, uma única menina entre eles, mas ainda assim seis irmãos. Todos tão diferentes um do outro que era interessante analisar essa vertente. Como seis pessoas poderiam ser o total oposto umas das outras e ao mesmo tempo não acabarem sendo nenhuma delas igual à outra?
Ele não havia visto os que se foram antes dele para aquele “novo lado”, mas tinha que confessar a si mesmo que não havia dado-se ao trabalho de procurá-los, de qualquer forma.
Por um tempo ele esteve perto dos que ainda estavam vivos, chorando sem lágrimas pelo fato de eles parecerem superar tão bem (e tão rapidamente) sua perda. Em sua concepção, parecia que ele nem era importante, que havia sido apenas mais um membro da família, um que não era tão importante quando o irmão mais velho, tão sociável quanto o outro ou amado como sua irmã. No resumo da ópera, ele não parecia ninguém que havia deixado qualquer brecha para a saudade e isso era terrível de ver.
Papai e mamãe também estavam deste lado, mas ele sentia menos vontade de procurá-los do que de se socar. Ou seja, não ia rolar. Ele não gostava de apanhar e magoa que guarda dos pais não iria cessar com um abraço.
Sem rumo, sem saída, se sentindo a pior e mais esquecida das criaturas, ele se dispôs a andar, a caminhar. Ele não possuía uma rota, um plano, ou qualquer ideia de para aonde iria. Tudo que ele queria era estar longe dos que ainda viviam, tanto daqueles que estavam ao mortos quanto ele.
Ficar naquele solo, naquela cidade, não pareceu a melhor das ideias, já que ele não queria ser achado. Então caminhar lhe parecia a escolha natural, a melhor das opções e a que ele adotou com todas as forças.
Ele queria esquecer de tudo o que viveu, aliás, dos anos e anos que a magia de sua mãe havia garantido aos filhos, e da criatura horrenda que aquela situação causou a ele. Agora, liberto da carne, ele sentia sua alma vazia, que sua existência havia sido vã e totalmente dispensável.
“Ninguém há de chorar por mim, mas isso foi o que eu consegui fazer ao seguir os passos e aceitar o que meu irmão mais velho determinou”, ele pensou consigo mesmo, suspirando em pesar depois.
Quanto tempo ele havia andado e para onde havia ido ele não sabia dizer. Era inconsciente, impensado e, ao mesmo tempo, perfeito para seus planos. Que se resumiam basicamente em “não ter plano algum”.
Mas ali, agora, sentado, encarando a praia de cima de um monte rochoso, sua atenção foi atraída até uma garota. A figura pequena caminhava delicada pela areia, com graça e segurança, embora parecesse retraída. Ao longe seus cabelos se remexiam contra o vendo, enquanto ela buscava aproximar-se das águas.
Ele estava fixado naquela visão, a cada passo que ela dava, seus olhos a acompanhavam. O vestido branco que ela usava, claro como um raio de sol, farfalhava contra o vento e ela segurava a mão um livro de capa rústica,
Sem pensar duas vezes, ele se viu caminhando até ela e ouvindo sua bela voz, enquanto lia aquelas estranhas palavras em um sussurro.
“Ventos do oeste,
ventos do leste,
ajude a todos com minha prece.
Água, fogo, terra e ar,
faça com que as boas coisas consigam durar”
Incrivelmente, aquela ventania toda se cessou como ao final das palavras daquela garota e ele se viu hipnotizado ao ver o tímido sorriso que ela deu de satisfação.
Ela fechou seu livro delicadamente, segurando-o como se fosse uma joia. Ele percebeu que a capa se parecia muito com um que ele já havia visto. Kol coçou a cabeça, tentando forçar a memória (que ele como morto não deveria ter em sua concepção) e se deu conta de que sabia exatamente de onde conhecia aquele livro.
“É um Grimório...” ele sussurrou para si, mas ela pareceu segurar sua respiração e suas feições mudaram.
“Mas o que...?”, ela começou a perguntar sozinha, olhando ao redor, mas duas garotas começaram a correm na direção dela.
“Diana! Diana”, a loira de olhos claros gritava, enquanto Kol ainda estava encarando a garota a sua frente, pedindo a Deus que ela realmente pudesse tê-lo ouvido.
“Você pode me ouvir?”, Kol se pegou perguntando, não crendo exatamente que a resposta seria positiva. Em sua mente, acreditava que poderia não passar de uma coincidência, o vento podia tê-la feito achar que ouviu alguém, mas os olhos dela se arregalaram e ela parecia olhar diretamente para ele.
“Eu ouço...” ela sussurrou, “mas eu não vejo...”, ela completou ainda baixinho.
Kol quase pulou de felicidade a primeira resposta, morrendo um pouco de tristeza com o complemento. Ela o ouvia, aquela garota, aquela linda garota com rosto angelical e um Grimório na mão, ela o ouvia. Ela e ninguém mais. Mas pelo menos alguém a ouvia.
Ele estava a ponto de despencar a falar, mas as garotas que corriam pela a areia chegaram até ela ofegantes.
“Diana! Você conseguiu!”, a mulata disse após um pulinho, enquanto a loira colocava as mãos em seus próprios joelhos e respirava ofegante. “Você parou a tempestade! Você conseguiu!”
“Você incrível!”, a loira conseguiu dizer por fim, com tanta animação como a morena. “Eu sabia que você conseguiria!”
A garota sorriu timidamente e desceu o olhar.
“Eu apenas tive uma ajuda da Natureza”, ela tentou esclarecer.
“Ajuda da Natureza, afff”, uma nova figura chegava ali. Kol sentia que a garota de cabelos pretos lisos e olhos mortais não parecia contente com os feitos da pobre Diana. Ele queria poder socá-la, mas havia dois problemas, 1) ela era uma mulher e 2) ele estava morto.
Mesmo que quisesse voltar o verbo, ele se conteve. Se Diana podia ouvi-lo, quem poderia garantir que as outras também não pudessem?
A menina de cabelos pretos tirou o Grimório das mãos de Diana sem cerimônia.
“Seu último ato como líder, agora isso é meu, queridinha”, ela disse arrogante, dando meia volta e caminhando para a direção de onde havia vindo. “Vamos Melissa! Cassie!”ela comandou, já andando, sem se dar ao trabalho de olhar para trás.
As duas garotas se desculparam timidamente, passando a caminhar em sequência. Nesse momento uma onda molhou levemente os pés de Diana e ela bufou de irritação meio contida, tentando não se fazer ser ouvida pelas outras, mesmo que elas estivessem alguns passos a frente. Ela abaixou seu olhar e fechou seus olhos, parecendo querer concentrar-se para não explodir.
“Megera”, Kol não resistiu ao comentário, e aquilo fez a garota sorrir sutilmente. “Devia ter feito o inverso e que o vento a levasse para o mar, isso sim!”, ele disse cruzando os braços.
“Ah, seu eu pudesse...”, ela respondeu tristemente.
“E o que te impede?”, ele não resistiu a pergunta.
“Ela é a líder de nosso coven agora, eleita por votação... Eu não sou mais nada”, ela disse desanimada.
“Aquela lá teve a maioria dos votos? Que aquelas duas idiotas tinham na cabeça para Elegê-la? Titica?!”, Diana queria rir, mas achou que não seria bom. Se Faye sonhasse que ela estava tendo aquele tipo de conversa (aliás: com Deus sabe quem!), ela estaria perdida.
“Não foram só elas”, ok, mas que mau havia em desabafar algumas palavras, não? “Jake também votou nela, apenas Adam ficou do meu lado”.
“Uuau”, uma verdadeira exclamação de surpresa saiu dele. “Existem homens nesse coven? Pensei que mulheres fizessem sociedades fechadas”, ele tentou brincar. “Achei que as meninas não se misturavam”.
Ela não resistiu a sorrir, antes de responder. “Nós não escolhemos, nossas famílias foram escolhidas anos atrás, quando a cidade foi fundada. Nova Salém é nosso lar, mas ela dita a regras e não nós”.
“Nova Salém...”, Kol repetiu sem perceber, pensando aonde diabos havia se metido. “Essa é aqui?”, ele concluiu por fim.
“Sim, aqui Nova Salém... Você não é...bem...não foi daqui?”, ela perguntou em dúvida.
“Sou de Mystic Falls... Acho que alguns bons passos daqui. É que em minha situação eu não me canso”, ele esclareceu sem graça, tentando desesperadamente mudar o rumo da conversa depois. “Mas então, se só o tal Adam ficou do seu lado quer dizer que rola um clima entre vocês, hein?”, ele queria dar uma cotovelada teatral e piscar para ela, mas achou que piscar era demais, já que ela não o via, e, bem, de certa forma, ele teve medo de tocá-la e ela fugir daqui.
Era estranho o bastante que ela ainda estivesse conversando com ele sem medo, tentar tocá-la parecia um pouco demais até para ele. Aliás, ele percebeu que o ar dela voltou a entristecer-se e ela começou a andar pela borda da água.
“Hei, espere, o que eu disse?”, ele começou a segui-la.
“Nada, você não disse nada demais”.
“Mas porque fugiu?”
“Porque eu estou cheia!” ela começou a soluçar e ele percebeu que os olhos dela se encheram de lágrimas.
“Droga...me desculpe, eu não queria”, ele tentou se explicar.
“Não, não é sua culpa”, ela disse em meio a uma fungada. “Faye acabou com tudo, ela era minha prima, mas tirou tudo de mim... Ok, quer dizer, quase tudo. O que restou a Cassie tomou de mim”.
“A loira aguada também te chateou?”, ele perguntou sem pensar.
“Você nem sabe como”, ela suspirou. “Mas é uma historia muito longa, eu o atrapalharia...”.
“Me atrapalhar? Que nada, eu tenho o tempo totalmente livre Diana. Aliás, que cabeça a minha, meu nome é Kol e eu apertaria sua Mao se possível, mas acho que não vai dar...”, ele disse sem graça.
“Tudo bem”, ela sorriu. “Mesmo assim é um prazer conhecê-lo Kol”.
“O prazer é meu”, ele respondeu com sinceridade. “Mas me conte o que a loirinha fez e eu talvez tente jogar chicletes no cabelo dela daqui do além”.
“Ela não fez nada sozinha... para ser sincera”, ela disse após tentar segurar um sorriso após a idéia de travessura do rapaz.
“Sozinha, em companhia, não importa, o que se passou, hein Diana?”
“Bem”, ela suspirou pesarosa antes de continua, sentando-se na área seca após uma leve caminhada. “Adam e ela estão juntos agora... Eu acho. Eu só sei que ele me deixou por ela, mesmo o Jake correndo atrás de Cassie loucamente e... Ah eu me sinto péssima, eu achei que Adam me amasse”, ela disse segurando as próprias pernas, quase em uma bolinha.
“Cachorro”, Kol não resistiu. “Pena eu estar desse lado, eu daria uma lição nesse idiota. Como ele perde uma garota tão incrível como você para aquela idiota?”
“Algo sobre almas gemas”, ela respondeu sem soltar as pernas, encarando o horizonte, mas Kol acreditava que ela dizia aquilo mais para que si mesma acreditasse do que como se fosse de fato uma verdade absoluta.
“Alma gêmea... piada!” ele disse com desdém. “Se eu tivesse uma namora como você, o mundo poderia acabar, que eu não sairia do seu lado”, ele disse sincero, querendo tanto que pudesse tocá-la, pedindo internamente aos céus que pudesse tê-la conhecido antes. “Eu nunca sairia do seu lado”.
Diana fungou, tentando não demonstrar o como estava abalada, tentando parecer confiante, mas não conseguiu fazer isso muito bem, pois logo as lágrimas começaram a escorrer em seu lindo rosto.
“Sabe,não segure, apenas chore. Isso pode ser bom para você”, ele incentivou. “Como eu disse, você me parece muito contida, não há mal nenhum no mundo em se chamar alguém de desgraçado mentalmente as vezes”, ele disse sorridente.
“Sim, Cassie aquela tonta”, ela tentou começar.
“Só? Eu acho que você consegue fazer melhor, vamos lá!”
“Sim, aquela idiota?”, ela pareceu confusa.
“Sim, é um bom começo”, ele disse sem perceber que havia chegado perto dela a ponto de tocar a mão da garota que estava na areia agora.
“Eu posso...” ela começou a dizer, levando sua outra mão de encontro aquela para tentar segurar a mão de Kol. Ele não se moveu, estava em pânico, sem saber o que fazer. “Eu posso senti-lo”, ela disse sorrindo. “E você?”
“Eu também”, ele disse soltando o ar que nem sabia que segurava, aliás, ele estava agora se dando conta de que ainda respirava e não sabia exatamente o porquê, já que era uma figura não viva.
Quando deram por si, ambos estavam em pé na areia, um de frente ao outro. Diana fechou seus olhos, ainda sorridente e comentou sincera.
“Eu queria poder te ver, Kol”.
“Eu também queria que você pudesse, Diana”, ele disse ao encostar sua testa na dela.
A garota era levemente mais baixinha que ele, mas Kol não podia pensar em outra coisa fora o fato de que se estivesse vivo, ela seria perfeita. Porque ele não havia ido para Nova Salém mesmo? Porque não havia feito isso ao invés de perseguir os malditos Gilbert? Ele se questionava mentalmente, totalmente entristecido.
Diana se afastou levemente da testa dele, mas tratou de tocar em seu rosto com ambas as mãos. Agora, de olhos bem abertos, ele a encarava e era encarado como se ela pudesse realmente vê-lo.
Ela se aproximou dele, tão perto, tal como se pudesse beijá-lo, mesmo que Kol soubesse que ela não poderia vê-lo. Diana voltou a fechar seus olhos e ele percebeu que ela sussurrava algo, que ele não conseguia compreender. Ele pensou em questioná-la, mas no segundo seguinte ele estava correspondendo ao beijo que ela lhe deu, sem pensar exatamente no quão improvável aquilo deveria ser.
Uma sensação de preenchimento total tomou o coração de Kol. Não era mais como se ele se sentisse um farto, algo deixado para trás e ignorado por todos. Ali, naquele momento, nos braços de Diana, ele se sentia a pessoa mais feliz do mundo, e não conseguiu deixar de sorrir quando eles se separaram e ele voltou a colocar sua testa junto a dela.
Diana também se sentia radiante, amada, e completamente feliz, ela podia dizer que sentia medo apenas de uma coisa: de abrir seus olhos e não poder vê-lo. Sendo assim, mais uma vez, ela pediu por um milagre aos sussurros, creditando fortemente com seu coração.
Kol puxou uma mexa do cabelo dela para trás, e Diana segurou sua mão perto de seu rosto enquanto abria seus olhos lentamente. Ela pedia aos céus com uma força profunda, e ele não podia negar que internamente também pediu muito por essa chance.
Inconscientemente ele se viu pensando em sua mãe, e pedindo até mesmo para Esther que o perdoasse, mas que ele estava apaixonado por aquela doce bruxinha. Aliás, ele se repreendeu mentalmente, ela não era uma bruxa, era sua fada salvadora.
Lentamente ela abriu seus olhos, ainda segurando a mão de Kol contra seu rosto e não poderia ficar mais impressionada. Ali, a sua frente, a realização de seu sonho, toda a concentração de sua magia interior, lá estava ele.
Kol percebeu que ela olhava diretamente para seus olhos e o como a feição dela se iluminou. Ele mesmo conseguia se enxergar no reflexo de seus olhos, sentindo-se totalmente surpreso e inteiramente feliz, de tal forma que não conseguia explicar.
Diana o abraçou com força, voltando a olhar para o belo rosto do rapaz em seguida.
“Eu posso te ver!” ela disse com convicção, voltando a beijá-lo em seguida. “Oh, Deus, eu posso te ver!” ela comemorava.
Kol segurou-a sem seu colo, aproximando-a ainda mais de si e sussurrando para ela. “Eu sou a pessoa mais feliz do mundo”, ele disse sorridente, voltando a beijá-la, “porque eu realmente encontrei você”.

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