Lembranças tomavam sua mente: Alice, a garota de sua vida, sorrindo e correndo dele na praia, e então, em uma fração de segundos depois, ele a via tocando piano com toda a pose inglesa que a garota tinha. Ela era uma diva, o retrato de uma deusa, e, ao mesmo tempo, conseguia manter seu ar juvenil, mesmo sendo uma moça feita.
E então, ele estava no dia anterior, quando passeou com ela pelas ruas de Londres e ela apontava todos os lugares de sua antiga cidade com entusiasmo. A garota havia nascido ali, seus pais moravam em uma casa aconchegante nos arredores da cidade, um lugar calmo, tranquilo e acolhedor.
Mas ela não queria ficar na casa, ela insistiu para que ficassem em um hotel. Ela queria proximidade com o movimento e não queria tirar a liberdade de seus pais na visita, que prometia ser curta. Além disso, ela gostava de passear e conhecia todas as lojas, cafeterias (ou ‘casas de chá’, como ela insistia em chamar) e monumentos da cidade, e estava doida para mostrá-los ao marido.
Havia o barulho que se repetia, ele poderia achar que era seu despertador, mas estranhamente não conseguia mover suas mãos para apertar o objeto e cessar o barulho. Também era muito difícil abrir seus olhos, embora ele tivesse consciência de que não estava deitado.
Não havia barulho algum, embora ele pudesse distinguir o som da respiração de alguém, e esse alguém não era Alice, de modo algum. Seus pulsos doíam e foi necessário muito esforço para conseguir levantar a cabeça e abrir seus olhos.
- Oh, você acordou! – uma garota, que ele lembrava vagamente de já ter visto, falou com Jasper.
Naquele instante ele teve total consciência de que estava amarrado e em um lugar desconhecido. Ele olhou ao redor, mas o local era escuro e cheio de entradas, tal qual um deposito ou coisa parecida.
Jasper se lembrou, aquela garota havia ido levar o chá da tarde no quarto deles, enquanto Alice estava tomando banho. Ele insistiu que não haviam pedido chá ou serviço de quarto e que aquilo deveria ser um equivoco, mas ela disse que só sairia dali então se ele ligasse para a recepção e falasse que não queria.
Ele virou as costas para ela, pronto para andar até o telefone do quarto e esclarecer aquela confusão, mas não se lembrava de ter chego ao aparelho. Na verdade, ele não se lembrava de mais nada o que havia acontecido depois de se virar.
Em sua consciência a situação toda havia começado a ser entendida. Aquela garota não era do hotel, ela queria algo e, com certeza, o havia atingido e levado-o até ali. Mas onde estava Alice? O que aquela estranha, maluca e desconhecida pessoa queria com ele?
- Deixe-me lhe dizer uma coisa – ele começou e percebeu que sua voz soava diferente, ele não havia sido golpeado. Ela deveria ai ter lhe administrado algo em uma seringa ou coisa parecida – deve haver algum equivoco. O que estou fazendo aqui? É essa toda a hospitalidade londrina?
A garota sorriu para ele e começou a mexer em seu celular, como se as palavras dele não fossem nada.
- Quem é você afinal?
- Ninguém – ela disse dando de ombros, sem tirar os olhos do celular.
- O que acha que está fazendo?
- Nada – ela respondeu evasiva, o que fez Jasper bufar. – Mas, se acalme, logo quem também pretende não fazer nada a você chegará, ok?
- O quê? Como assim? – ele estava intrigado e a dor em seu pulso e seus tornozelos começando a irritá-lo.
Aliás, era interessante que ele só havia percebido o como estava preso aos pés por conta da dor que começou a sentir, já que não havia tentado dar um único passo desde que acordara.
Ao longe, Jasper pode ouvir passos, e a garota a sua frente sorriu tranquilamente.
- Eles, ou melhor, ninguém, chegou. Até mais – ela disse tranquilamente, sorrindo como se despedisse de um amigo e começou a andar.
- Hei! Espere aí sua...sua maluca! – ele gritou para ela, mas foi em vão, já que não havia nem sinal da garota por ali segundos depois.
Os passos começaram a se tornar mais nítidos, e embora viessem de trás dele, Jasper podia perceber que eram de homens, dois para ser mais exato. Ele temia o desconhecido, mas não estava disposto a demonstrar fraqueza alguma. Se Alice havia sido pega também, tudo o que ele poderia pensar agora era em como sair dali e ajudá-la.
Os motivos que os levaram até ali não seriam relevantes até que sua esposa estivesse a salvo. Mas, com certeza, quando a levasse dali, ele ligaria para seu superior no Exercito (de onde mesmo) ou para a embaixada Suíça e contaria o caso. Apenas torcia para que aquela confusão não levasse a um desentendimento burocrático entre os países, mas um sequestro de turistas não era algo que devesse ser deixado de lado.
Jasper ouviu os dois homens pararem as suas costas, ele podia distinguir a respiração de um deles, visivelmente mais afobado que o outro, mas manteve-se calado e tentou manter o sangue frio para esperar o que viria a seguir. Automaticamente seus músculos estavam rígidos, e ele sabia em sua consciência que esperava ser atingido ou coisa do tipo.
Quando o silêncio e a falta de ação duraram mais do que um minuto, todas as reservas e calma de Jasper se dissiparam. Ele sabia que se não dissesse nada, talvez aqueles estranhos ficassem observando-o por horas a fio em um silêncio sepulcral. Aquele não era um sequestro comum, mas isso era mais preocupante ainda.
Jasper respirou fundo, ainda esperando que fosse atingido quando começasse a falar, mas não voltou atrás.
- Escute, eu não sei quem ou o que são vocês e na verdade não me importo. Não faço a mínima ideia de como ou porque estou aqui, mas eu preciso saber como está minha esposa.
Houve uma agitação naquela respiração, mas a voz que respondeu parecia vir do outro homem.
- Alice está em segurança.
- Segurança? Desculpe, mas tenho o direito de contestar... – Jasper começou a falar, mas o homem não se importou e continuou sua fala após uma pausa.
- Nada foi feito a ela, e sabemos que você tem toda a razão em não acreditar na palavra de pessoas desconhecidas. O que importa, de fato, é sabermos exatamente o que você sabe dela.
- O que eu sei dela? – ele perguntou incrédulo. – Isso é algum tipo de piada paranoica?
- Mas é claro que não – o outro se pronunciou, parecendo entediado. – Deixe-me formular a questão de maneira que alguém com as suas habilidades reduzidas consiga entender: o que sabe sobre o passado e a família de Alice Holmes?
- Acha mesmo que vou falar da vida particular de minha esposa para dois covardes lunáticos que não têm nem mesmo a decência de mostrar os próprios rostos? Torturem-me se quiserem, mas não trairei Alice – Jasper responde, exaltado.
Nos silenciosos segundos que se seguiram, o rapaz esperou por uma bofetada, um eletro choque ou até mesmo – numa hipótese remota e bem nojenta – o uso de sanguessugas para lhe infligir dor, mas para sua surpresa e agonia, nada aconteceu. Nem mesmo o ar ao seu redor parecia se mover, e tudo permanecia em suspenso.
- Tem alguma ligação com Jim Moriarty? – o primeiro questiona, sem parecer se abalar com a recusa do prisioneiro em colaborar.
- Não.
- E Charles Magnussen?
- Um chantagista ordinário que teve o destino que mereceu. Mas só conheci sua péssima reputação, nada mais.
- Irene Adler?
-Nunca ouvi falar dela. É alguma terrorista procurada? – Jasper indaga, deixando transparecer um toque de ironia em sua voz.
- Procurada, talvez... Já terrorista, eu não descartaria a hipótese – o misterioso homem responde, parecendo se divertir.
- Por favor, deixe de lados suas fantasias – o segundo, e aparentemente mais ranzinza, resmungou. – Se atenha ao que é de real importância!
- Ok... Hm... Sr. Whitlock, qual a sua ligação com o caso do desaparecimento de Kirsty Stapleton e seu coelho Bluebell?
- O quê? Que tipo de interrogadores, ou sequestradores, são vocês afinal?
- Apenas responda a pergunta.
- Não tenho nada a ver com esse caso, mas sequestrei o Papai Noel e o mantenho em cárcere privado há cinco meses num bunker abaixo da casa dos meus pais. Podem me soltar agora?
- E sobre as recentes ameaças à nossa monarca, a Rainha Elizabeth II? Tem algo que possa compartilhar conosco? – agora era a vez do mais ranzinza questionar, parecendo mais irritado.
- E por que eu saberia de algo? Se querem informações, procurem a guarda nacional, o departamento de segurança, até mesmo o Papa, mas não saiam por aí dopando turistas e os acorrentando em cadeiras de ferro! – Jasper responde, totalmente indignado.
- Ora, acalme-se meu jovem, você não foi escolhido ao acaso!
- E acerca de John Watson? O que sabe sobre o atentado que ele sofreu há alguns meses? – o outro, que parecia se divertir com aquele interrogatório bizarro, questiona.
- O nome me é vagamente familiar... Não é um blogueiro, ou algo do tipo? Mas vejam bem, eu não assisto seriados, então se esperam conseguir o resumo de Dr. Who, eu não sou a pessoa indicada.
- Quanta petulância! Você...
- Mas soube através do Google – Jasper interrompe o ranzinza, disposto a continuar com suas provocações – que a série completou cinqüenta anos no ar! É uma bela marca, não é? Aliás, a rainha deve assistir... Era isso que queria saber?
- Alice não podia ter encontrado marido mais insolente! – o homem retoma a palavra, respirando ruidosamente. Jasper não podia vê-lo, mas imaginava que seu rosto já deveria estar púrpura de raiva.
Antes que algum deles pudesse dizer mais alguma coisa, passos voltaram a ecoar pelos corredores. Pelo som, pertenciam a um homem e uma mulher, pois era fácil notar o “ploc ploc” característico de saltos batendo no chão.
Mas alguns segundos e a porta foi aberta com estrondo, seguida por um suspiro de exasperação.
- Mycroft! Sherlock! O que diabos vocês pensam que estão fazendo?
- Alice? Alice, é você meu amor? – Jasper indaga aflito, tentando mais uma vez se livrar das amarras que o prendiam, em vão.
- Eu lhes fiz uma pergunta! Respondam! – a garota exige, zangada, sem sequer responder ao apelo do marido.
- Estávamos apenas nos certificando de seu esposo é o homem certo para você, irmãzinha.
- Faça-me o favor, Sherlock! – diz ela indignada, passando por eles e seguindo até o marido.
- Qual a dificuldade em manter Alice em casa por algumas horas, Sr. Watson? – Mycroft questiona, encarando o médico com uma expressão acusatória.
- Ela me ameaçou com o rolo de macarrão da Sra. Hudson – John responde simplesmente, dando de ombros.
- Ah Jasper, você está bem? Meus irmãos insanos machucaram você?
- Não, estou perfeitamente bem. E você, minha querida? – ele questiona, parando em seguida. – Você disse irmãos? Esses são seus irmãos?
- Mycroft e Sherlock – Alice responde, desatando os nós com rapidez e ajudando o marido a se por de pé. – E aquele é um amigo, Dr. John Watson.
- Ele é o blogueiro? Bem, ao menos agora já podem pedir spoilers de Dr. Who, rapazes! – diz Jasper com um sorriso sacana, voltando-se para os cunhados.
- Dr. Who? Do que vocês estão falando afinal? – e nesse momento, era a garota que parecia completamente perdida.
- Seu marido é um piadista, quase fez Mike entrar em colapso nervoso. Foi sorte você chegar irmã, pois não estava com meu Stradivarius em mãos para acalmá-lo – Sherlock explica, com um leve sorriso. – Gostei de você, Major Whitlock. Bem vindo à família! – completa, estendo a mão para cumprimentar Jasper.
- Obrigado, eu acho – o rapaz responde, sorrindo amarelo.
- Bem – começa John, esfregando as mãos uma na outra -, agora que já temos a aprovação de Sherlock e a desaprovação de Mycroft, será que podemos voltar à Baker Street? A Sra. Hudson estava assando um bolo de maçã que me pareceu realmente apetitoso.
- Ah não, não pensem que vão se livrar do que fizeram assim, na moleza! – Alice exclama, levando as pequenas mãos à cintura e batendo o pé esquerdo ritmadamente no piso. – Vocês devem um pedido de desculpas ao Jasper, pelo menos!
- Fizemos isso para protegê-la Alice – diz Mycroft, muito sério. – Não se pede desculpas quando o assunto é a segurança da família. Vamos embora. – completa ele, dando as costas e partindo para o corredor mal iluminado.
- Isso não vai ficar assim, Mike! Volte já aqui! – mas o mais velho nem sequer pareceu ouvir, e logo foi seguido por John e Sherlock. – Isso vai ter volta, estão ouvindo? Isso vai ter volta! – ela grita atrás deles, puxando o marido pela mão para que também saíssem dali.


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