24 de jun. de 2014

One Shot: Primeiro Dia de Aula



Há uma corrente de pensamento que acredita que a ‘inteligência de uma pessoa’ é tão hereditária quanto a cor de seus cabelos ou olhos, o formato do seu nariz ou do globo ocular, além de uma infinidade de características físicas que possuímos.

Essa ciência tem como base a genética, e baseia-se na divisão celular dos pares cromossomáticos de cada individuo no momento de sua formação. Em suma, ela crê que pais inteligentes, consequentemente, venham a ter filhos tão ou mais inteligentes que eles. Em contrapartida, como para tudo nessa vida há um lado ruim a ser explorado, existem os tais ‘desvios’. E, bem, a eles são atribuídos que se algum de seus antepassados não for lá um gênio brilhante, há uma chance de 25% de seu filho não ser tão brilhante.

Isso me leva a crer que

- Aaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiii.... – a voz do irmãozinho de Mycroft, seguida de um grande barulho o fez parar tudo o que ele escrevia.

Logo uma multidão de passos e palavras de aflição o fizeram fechar seu olhos, respirar fundo e terminar sua linha: “meu irmão faz parte de um desses malditos desvios.

Ele levantou-se de sua escrivaninha em seu quarto, fechando o caderno em que escrevia. Ao olha pela janela, pode ver seu irmãozinho sete anos mais novo caído no chão, segurando o guarda-chuva preto do pai em plena tarde ensolarada.

 - O que houve aí Sherlock? – ele perguntou em um suspiro descontente.

 - Eu estava tentando voar! Tipo a Mary Poppins no filme que a sra. Strobs passou para mim hoje mais cedo! Eu subi no telhado, para começar logo de cima, – ele então encarou o objeto quebrado em suas mãos, e seu joelho ralado e roxo, com um beicinho triste – mas não deu muito certo.

 - Jesus, Sherlock, era óbvio que você não ia voar! Aquilo é fantasia! – “como eu disse, ele é o 25% indesejado” Mycroft pensou com pesar.

 - Eu só queria tentar... – ele levantou-se envergonhado, entrando em casa novamente.

Mycroft saiu de seu quarto e caminhou lentamente para a sala. As vozes de sua mãe e da babá do irmão pareciam extremamente aflitas, e ele sabia que ambas estavam revirando o menino para todos os lados para certificar-se de que ele não havia quebrado nada. 

- Parem com isso, ele vai sobreviver... – Mycroft não resistiu ao comentário ao entrar na sala.

- Mycroft! – sua mãe falou ultrajada. – Seu irmão caiu, não seja tão insensível.

- Não, mãe, ele não “caiu”, ele “pulou”, existem boas diferenças entre esses dois verbos.

A senhora Strobs tentou levar o pequeno Sherlock para fora da sala, calculando que a senhora Holmes parecia querer ter uma conversa com seu filho mais velho, algo que não parecia bom. Mas, ela sentiu-se revoltada quando sua patroa soltou um suspiro e pareceu concordar.

- Nem todos são brilhantes como você...

E aquelas palavras causaram uma grande onda de fúria na babá, que teve que se conter para não arrastar o caçula dali.

Ela reuniu sua coragem, empurrou levemente Sherlock para trás de si e pigarreou, fazendo com que Mycroft e a senhora Holmes olhassem para ela.

- Senhora, me desculpe a intromissão, sei que não tenho nada haver com isso, mas... Sherlock é uma criança, e como tal, ele age assim, ele não é menos inteligente por isso... – ela tentou se explicar, sem deixar explicito a palavra “burro”.

- Você estava certa, não é da sua conta – Mycroft começou, mas a mãe dele levantou a mão e o fez calar-se.

- Senhora Strobs, - a babá ainda encolheu-se um pouco, mas tentou não encarar o chão, ela sabia que estava certa em proteger aquele doce garotinho, tinha que estar – por acaso acha que crianças normais se jogam do telhado?

Havia ironia ali, a babá sabia. Ela sabia também que, se respondesse que era sim normal, apenas era a fase curiosa do menininho – mesmo que fossem curiosidades estranhas –, ela correria o risco de perder aquele emprego. Ficou, então quieta, respondendo com outro tópico.

 - Às vezes ele só precisa conviver com outras crianças. Porque não matriculam o pequeno Sherlock em uma escola ao invés de deixá-lo tendo educação em casa?

Aquelas palavras fizeram Mycroft franzir a testa e a senhora Holmes suspirou descontente.

- Querida, isso é um assunto delicado... – a senhora começou a tentar se explicar, mas parou no meio da frase e seus olhos pareceram brilhar, o que fez Mycroft se encolher. – Mas, quem sabe, não? Pode ser que isso faça bem ao Sherlock e isso deixaria Mycroft com mais tempo livre para os estudos.

E para Mycroft aquela ideia não seria de todo mau... Não se seu pai, ao ouvi-la, não tivesse sugerido que ele também fosse matriculado, afinal “vai que algum grandalhão tente bater em nosso caçula, não? Ele é tão bobinho que dificilmente saberia se defender!”

Mycroft tentou argumentar da forma que pôde, declarando que as crianças de sua idade não estariam equiparadas ao conhecimento dele, e ele seria lesado se estudasse com eles. Mas não havia discussões, os pais já estavam decididos em matricular ambos os filhos na escola, e não apenas o menorzinho. Para eles, Mycroft poderia adaptar-se as crianças e a forma de ensino tranquilamente, e a convivência com crianças de sua idade e faixa mental faria bem a Sherlock.

Assim, passadas algumas semanas, lá estavam as duas crianças no carro de seu pai, rumo à escola. Sherlock sentado em sua cadeirinha infantil, com um enorme sorriso de expectativa em seu rosto, e Mycroft ao seu lado, emburrado.  

- Santa ingenuidade... – Mycroft sussurra revoltoso, mas sendo terminantemente ignorado pelos pais e não tendo nenhuma outra saída para tentar rebelar-se.

A parada em frente aquele grande prédio de construção vitoriana gelava a espinha do mais velho, porém o caçula tinha olhos tão curiosos e brilhantes que toda a revolta de Mycroft foi ignorada por completo ao abrirem a porta de Sherlock para retirá-lo da cadeirinha.

Embora a senhora Holmes quisesse acompanhar os filhos, seu marido foi firme ao dizer que daqui para frente cabia a Mycroft (que estava se dizendo tão adulto e apto para tomar decisões ao retrucá-los nos últimos dias), levar o irmão a sua sala e descobrir seu lugar.

Foi com o coração na mão que os pais os deixaram ali, e embora a mãe dos meninos tenha se segurado mais para não chorar, o pai estava convicto de que aquilo era certo.

Mycroft só viu o carro afastar-se com os olhos, ainda sentindo “o peso do mundo em suas costas” e bufando frustrado até que eles virassem uma esquina.

- É Sherlock, agora somos só você e eu... – e dito isso, ele tentou agarrar o irmãozinho pela mão, mas não havia criança alguma aos seus pés.

Pavor foi o sentimento que o tomou e Mycroft começou a olhar desesperadamente para todos os lados em busca de seu irmão fugido.

Toda a pompa e educação que ele tinha foram perdidas quando saiu correndo desesperadamente pelo pátio, trombando com pessoas e gritando o nome do irmão caçula a plenos pulmões.

Ele já estava ofegante, abaixando para tentar respirar e segurando-se em seus próprios joelhos quando visualizou o caçula parado em frente a um parquinho de areia, observando as crianças brincarem entre si, mas não ousando dar um passo a mais.

- Sherlock! – ele gritou revoltoso. – Nunca mais, em toda a sua vida, ouse sair correndo por aí enquanto eu estou falando com você! Me entendeu? Eu fui claro?

O garotinho apenas abaixou seus olhos e pediu desculpa, agindo ao contrário do que Mycroft esperava. O irmão até ficou se sentindo mal depois, tentando melhorar o animo do irmãozinho enquanto saiam dali e seguiam até a sala.

- Eu posso te perguntar uma coisa? – ele começou timidamente e o irmão deu de ombros. – Porque você não pisou no parquinho?

- Porque mamãe falou que não posso sujar os sapatos de areia... – ele respondeu em meio a uma fungada. – Eu não quero ela brava comigo.

- Bem, certo... – ele concordou apenas dando um toquinho de leve nas costas do irmão. – Depois disso, acho que o melhor é seguirmos de vez para nossa aula... – e completou mentalmente “antes que eu o perca de vista de novo”.

Chegar a sala do irmão não foi de grande mistério, afinal, era completamente certo de que quanto menores as crianças, mais próximas ao chão seriam suas salas e a do irmãozinho não teria como ser em qualquer outro lugar que não fosse o térreo. Outro ponto que o ajudou foi a grande quantidade de desenhos mal feitos espalhados pelas paredes, aquilo sim era um grande sinal de que mentes desprovidas de inteligência estavam colocando seus dedos nervosos para trabalhar... sem muito sucesso, e claro.

Os dois pararam em frente a sala que supostamente pertencia a turma de Sherlock. Havia várias crianças já ali, a maioria gritando e correndo de uma forma que fazia Mycroft compará-las a pequenos selvagens. Outras estavam sentadas em suas mesinhas, desenhando com gizes de cera, um grupo que foi apelidado de “os civilizados” pelo Holmes mais velho.

 - Se quer um conselho, irmãozinho, eu me sentaria com aqueles ali e faria lindos desenhos para a mamãe – ele tentou sutilmente influenciar Sherlock a sentar-se com os comportados da sala. Tem como exemplo rebeldes não faria bem ao menino, ele tinha certeza.

 - Obrigado Mycroft! – ele sorriu para o irmão, e pegando sua lancheira e mochila de carrinho, entrou na sala – Até mais tarde irmão!

Com um suspiro, Mycroft se dirigiu as escadarias que o levariam a sua sala, rezando para que seus colegas não agissem como selvagens tais os de Sherlock. “Se tiver pelo menos um grupinho civilizado... Talvez eu possa sentar-me com eles...” ele pensou.

Quando chegou na sua sala, ela ainda estava na sua maioria vazia, apenas um ou outro aluno sentado. Ele teve dúvidas se sentava-se na frente, como o bom aluno que era, ou atrás, onde poderia ficar o mais longe possível do tipo que imaginava ser os outros integrantes da sala.

No fim, sentou-se na última cadeira. Ele não precisava sentar-se na frente para parecer inteligente ou impressionar. Ele já fazia isso naturalmente.

O garoto já havia arrumado seu material e contava as teias de aranha no teto quando os primeiros alunos começaram a chegar na sala. Um garoto ruivo entro e correu para a primeira mesa no canto, jogando todo o seu material de qualquer jeito e rumando para a cadeira de trás da sua, Mycroft olhava atentamente para ele quando o som de risos o fez virar para a porta por onde um grupinho de meninas entrava. O menino ruivo as cumprimentou com um aceno e voltou para sua cadeira, logo vários alunos estavam entrando na sala e Mycroft decidiu ignorá-los até que sentiu um cutucão no braço.

- Hei, você aí... – uma vozinha fala com ele, mas ele só a notou após seu toque.- Você é novo é?

Mycroft teve de resistir aos impulsos de revirar os olhos ao responder aquilo, apenas concordado com a cabeça e sorrindo sutilmente.

- Bem, eu sou Scott Wistermore, e você, como chama?

- Mycroft Holmes – ele respondeu.

- De que escola você era? – a garota na mesa ao lado incluiu-se na conversa, fazendo com que ambos a olhassem. – A propósito, sou Elizabeth Hope – ela completou timidamente.

- De escola nenhuma – Mycroft responder irritado.

- Impossível! – o ruivo com cara de travesso também decidiu dar o ar da graça na conversa alheia e Mycroft já se perguntava se havia mesmo algum tipo de “educação” sendo ensinado ali, já que nenhum deles parecia respeitar o fato de estarem entrando na conversa alheia sem cerimônia. – Não tem como você não ter estudado em lugar nenhum.

- Ignore o Johnson – Scott disse aos sussurros, - ele adora se intrometer na conversa alheia...

- Muito polido da sua parte Johnson – outra garota, que Mycroft descobriu depois se chamar Emma, tomou as dores alheias também. – Mycroft vai pensar o que de você, hein?

O próprio Mycroft estava a ponto de mandar todos se calarem quando outra voz soou, mais forte que as demais, e fazendo com que todos ali corressem para seus lugares. Certamente o dono dela era alguém respeitado, ao ponto de vista de Mycroft, mas ele sentiu-se levemente desapontado ao ver que o dono de voz tão poderosa era tão baixo, mesmo sendo o professor.

Um rapaz loiro chegou atrasado no meio tempo e não escapou do olhar do professor.

- Mathew eu espero uma boa desculpa para seu atraso.

O docente estava a ponto de começar sua aula quando Mathew deu um grito ao sentar-se, imediatamente Mycroft descobriu o que o garoto ruivo havia aprontado e o encarou. Um “shiuuu” sutil veio de Johnson quando ele percebeu que Mycroft sabia que ele havia feito algo e o fato de Mathew tirar uma taxinha de suas calças havia causado grande alvoroço.

Por questões de sobrevivência, Mycroft permaneceu quieto. Já dava para ver que o ruivo era constantemente um tormento nas aulas, mas ele também não precisava arrumar inimigos. Ele sabia que era bem mais fraco fisicamente do que a maioria dos alunos ali, e não pretendia levar uma surra no intervalo.

 - O que foi isso? – o professor perguntou energeticamente, irritado por ter sua aula interrompida.

 - Tinha uma tachinha na minha cadeira! – Mathew resmungou, tirando o pequeno objeto vermelho de seu traseiro.

 - Quem foi? – o professor perguntou, encarando a turma silenciosa com um olhar inquisidor. Ninguém falou nada. – Espero que não se repita... – ele virou-se para o quadro negro, e com um giz branco, escreveu seu nome na lousa: “Mr. White”.

Mycroft observou-o. Era baixo e começava a ficar careca no topo da cabeça, além do cabelo castanho estar começando a ficar grisalhos. Uma mancha antiga de café em seu colarinho indicava não ser casado, pois uma boa mulher nunca o deixaria sair assim, e o sobrepeso indicava uma vida sedentária e hábitos alimentares não muito saudáveis.

Os pelos de gatos nas mangas do suéter mostrava que sua única companhia era o felino, e a enorme pilha de provas e trabalhos que abarrotava sua pasta de couro.

Havia, inclusive, tantos papéis, que a única explicação era ele ser o professor de inglês. Ciências exatas e naturais não precisavam de tantas folhas como os enormes textos do ramo de linguagens.

 - Bom dia turma, antes da aula começar, gostaria de apresentar o novo aluno de nossas classes – ele olhou para um pedaço de papel em cima da mesa, que Mycroft presumiu que continha seu nome – Dêem as boas vindas a Mycroft Holmes. Venha cá garoto, se apresente para a turma.

Mycroft fez careta para o convite. Precisava mesmo encarar aqueles selvagens e falar coisas desnecessárias sobre sua vida? Ainda assim, ele levantou contrariado e caminhou até a frente da sala, ouvindo um “que espécie de nome é Mycroft?” vinda de duas meninas algumas cadeiras a frente da dele.

Ele parou frente aquela multidão infantil e os encarou profundamente, analisando um a um, todos ao mesmo tempo. Tão inseguros, tentando impressionar, mas sem capacidade de fazê-lo... Chegava a ser triste vê-los.

 - Vamos, se apresente, conte onde estudava antes... Você sabe – o professor encorajou-o, e sim, é claro que ele sabia esses discursos padrões. Ele havia pesquisado antes de estar ali.

 - Senhor, eu não estudava em lugar nenhum antes – ele dirigiu-se respeitosamente ao professor – Ou melhor, eu estudava em casa.

 - Deve ser tão melhor estudar em casa! Assim, não se estuda! – um menino gritou em algum lugar no fundo da sala, provavelmente o indivíduo sem senso médio de convivência social que era o tal do Johnson. Mycroft cordialmente ignorou, continuando de onde parou.

  - Enfim, é um costume familiar. Mas meu irmãozinho mais novo, bem... não se adaptou. Fui mandado com ele para cá, em caso de qualquer coisa acontecer.

 - Esperamos que goste da experiência então – o professor tentou sorrir tranquilizador, mas para Mycroft, só pareceu forçado.

Ele seguiu de volta para o seu lugar no fundo da sala, e o professor começou a aula. Era uma aula sobre sujeito, predicado, objeto... Essas coisas básicas da linguagem que as outras crianças achavam difícil, mas para ele era perfeitamente lógico. Mycroft dormiria se pudesse, mas como não queria ser chamado atenção logo no primeiro dia, limitou-se a rabiscar na última folha do caderno trajando sua melhor expressão de tédio.

E felizmente, foi deixado em paz pelos próximos três tempos (que eram ainda dois outros de álgebra), e tudo o que tinha que lidar era com a monotonia das aulas. Só ele sabia o quanto sentia falta de casa e de suas aulas realmente interessantes e instrutivas, e não só aquele papinho de colegial.

Quando o sinal do intervalo tocou, Mycroft experimentou o único momento de felicidade do dia. Não só porque se veria livre do tédio por ao menos trinta minutos, podendo dedicar esse tempo a um exemplar de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, que carregava em sua pasta, mas também pela deliciosa fatia de bolo que sua mãe preparará buscando melhorar o humor do filho mais velho.

Ele seguiu aquela massa adolescente até o refeitório e escolheu a mesa mais afastada possível da confusão e do burburinho. Eles falavam de assuntos tão banais, como havia sido o fim de semana, e ele precisava de silencio para apreciar a leitura e o bolo.

Mas infelizmente sua paz durou pouco.

- Hei, Mylberth! – ele ouviu alguém gritar ao longe. – Mylberth! – e era insistente. Mycroft até perguntava que tipo de nome era aquele quando o rapaz continuou. – Ô aluno novo!

Mycroft encarou seu bolo por alguns segundos e um suspiro de revolta escapou enquanto o garoto chegava, exatamente no momento em que ele fechava o exemplar de seu livro.

- O que você está fazendo com esse peso de porta? – ele perguntou, mas logo encarou o bolo de Mycroft e seus olhos brilharam. – Me dá um pedaço?

- Um pedaço? – ele perguntou nervosamente, querendo desacreditar em tamanha ousadia. – Do meu bolo?

- Sim! – o garoto, aliás, Johnson, remexia sua cabeça em concordância, mas não abandonava a visão de seu amado bolo. – Que custa, vai? Só um pedacinho.

Mycroft pensou por um minuto e estava decidindo a dizer “não” de alguma forma polida, algo sobre a transmissão de germes e bactérias ao se compartilha uma colher, mas o garoto arrancou-lhe o talher da mão e comeu um enorme pedaço, mesmo sem autorização alguma. O choque daquela situação fez Mycroft ficar boquiaberto enquanto Johnson lambia os beiços.

- Que bolo gostoso! Onde você comprou?

- Minha mãe que fez - ele rangeu os dentes para o maldito garoto que havia roubado quase metade do seu amado bolo.

- Nossa, ela é muito boa cozinheira! - ele sentou-se na frente de Mycroft e já ia roubando outro pedaço, até que Mycroft tomou a colher dele - Talvez você possa me convidar algum dia para ir a sua casa e comer mais um pedaço.

- Você? Na minha casa? – Mycroft perguntou pausadamente, tentando não surtar com aquilo.

- Sim! Porque, nossa, cara, se eu tivesse uma mãe que fizesse um bolo tão bom como a sua, ia mesmo amar ter aulas em casa. Aliás, confesse, você só gostava das aulas em casa para comer o tempo todo, vai? – ele disse acotovelando sutilmente Mycroft. – Não negue, está na cara isso. Aliás, você vai comer o resto?

Mesmo contrariado, Mycroft empurrou seu pratinho de bolo para Johnson, afinal, ele não teria coragem de comer mais aquele bolo mesmo e esse simples pensamento já lhe embrulhava o estomago. Tentando sair dali a ideia de ver o irmão mais novo lhe pareceu uma boa saída.

- Ah, Johnson, você, por acaso, não saberia me dizer aonde encontro a turma do pré?

- Pré? Ah... – ele disse de boca cheia, cheia do bolo de Mycroft, claro. – Devem estar no parquinho, cara. Por quê?

“Por quê?”, ah aquilo realmente era uma boa pergunta, mas Mycroft não estava a fim de contar a verdade e narrar sua fuga de Johnson ao rapaz, não seria legal fazer inimigos logo no primeiro dia, então ele deu outra desculpa ao se levantar.

- Bem, sabe como é, eu tenho que fazer as vezes do irmão mais velho... – ele deixou a frase morrer no ar.

- Ah... – Johnson concordou. – Bem, siga aquele corredor aqui, ele vai te levar para perto do parque, eu até iria com você, mas, cara, que bolo bom, eu vou ficar aqui se não se importar

- Em absoluto que não, aproveite o meu...seu...aproveite o bolo.

Mycroft levantou e começou a andar sem olhar para trás, ele não queria dar chance para Johnson se candidatar a ir junto com ele, já estava cansado de não conseguir ficar sozinho estudando. Aliás, toda aquela convivência forçada com pessoas da sua idade – mas não do seu grau de inteligência – já estavam cansando-o.

Não era difícil achar o lado de fora de uma escola, na verdade achar o lado de fora de qualquer lugar não trazia mistério algum para ele, já que ele conseguia avaliar os nuances de sujeira no chão, claridade e corrente de ar nos corredores. Logo Mycroft colocava seus pés fora daquele prédio infernal e podia visualizar o tal “parquinho de areia”, com várias crianças correndo e pulando nos brinquedos enquanto um certo garotinho – que estava de costas para Mycroft – apenas olhava a tudo no canto, ainda pisando na grama.

- Mas você tem que vir!! – uma garotinha tentava convencer Sherlock, puxando-o.

- Eu não posso – ele respondia se prendendo no lugar. – E você também não deveria estar aí! – ele tentou adverti-la.

- E porque, não? – ela perguntou com um certo ar de autoridade, com os bracinhos na cintura e o nariz arrebitado, até chegava a parecer uma mulher adulta brava.

- Porque você vai se sujar – Sherlock era a simplicidade em vida ao responder com um dar de ombros.

Mycroft chegou ao lado do irmão no exato momento em que ele terminava sua explicação sucinta a garotinha que revirava os olhos e cruzava seus braços em indignação plena.

- Sherlock... – ele disse ao se aproximar e o irmão virou rapidamente para ele.

- Eu não pisei! Eu juro, eu não pisei! – o garotinho parecia apavorado.

- E não pisou mesmo, você não sabe brincar – a menininha falou brava e deixou os dois ali.

Mycroft percebia o como o irmãozinho parecia apavorado com a ideia de se sujar, seus olhinhos estavam levemente molhados e ele iria suspirar em desacordo quando uma mulher veio para perto deles.

- Sherlock! – ela chamava o caçula.
- Não deixe ela me arrastar para lá – ele sussurrou, se escondendo atrás das pernas do irmão mais novo e fechando seus olhos. – Por favor...

- Sherlock, você não deve se separar do grupo – a mulher disse com leve irritação na voz.

- Senhora, com licença, eu sou Mycroft, irmão de Sherlock.

- Mycroft? Jura? – ela pareceu surpresa.

- Sim, acredite, sou irmão dele.

- Eu não me referia a isso, mas... enfim. Mycroft, por favor, diga ao seu irmão para vir comigo e se juntar aos seus coleguinhas de classe no parquinho.

 - Ele infelizmente não pode... – ele explicou, e diante da cara surpresa da professora, e já imaginando a pergunta irônica e idiota que sairia por aqueles lábios pintados de vermelho: “ele por acaso é alérgico a areia?”, ele rapidamente explicou – Nossa mãe não o deixou sujar os sapatos de areia, e ele leva as ordens realmente a sério. As da mamãe, pelo menos...

 - Que tire os sapatos então! – ela exclamou, e Mycroft balançou a cabeça negativamente em desaprovação. A mulher não havia captado o espírito das ordens de sua mãe, mas ele também não queria discutir.

  - Que tal eu ficar aqui e fazer companhia ao meu irmão? – era uma desculpa digna para não ter de frequentar mais três tempos de aula com aqueles acéfalos... Mesmo que houvesse consequências depois...

De qualquer forma, ele obviamente tinha uma boa desculpa. Para os pais, ele foi mandado ali justamente para cuidar do irmãozinho, e era exatamente isso que estava fazendo quando perdeu aquela tão importante aula de biologia básica, com muitas informações que eram todas novidades para ele.

Para o corpo estudantil, ele perdeu a hora em algum canto recluso da biblioteca, estudando e – desculpa, não vai acontecer de novo!

 - Você não tem aula? – a professora olhou-o desconfiada.

 - Não, fomos liberados mais cedo. – Mycroft rápida e naturalmente mentiu.

 - Então, eu acho que tudo bem – ela coçou a cabeça, ainda não totalmente certa do que dizia, mas querendo se livrar do problema que aquele garotinho estava causando ao não querer ir para o parquinho – Por ser o primeiro dia do Sherlock, ele ainda está se adaptando, você pode ficar.

 - Obrigado Mycroft! – o pequeno Sherlock abraçou as pernas do irmão mais velho depois que a professora virou as costas – Você é o melhor irmão do mundo!

 - Certo... – ele delicadamente afastou o irmão, pois não estava acostumado com essas demonstrações de amor.

Então, pelas próximas horas, os dois sentaram-se embaixo de uma árvore, brincando de um jogo que Mycroft havia acabado de criar para distrair o menor: dedução. As regras eram simples, justamente para a mente mais fraca de Sherlock entender. Eles escolhiam um alvo, um aluno ou um funcionário da escola, e falavam tudo o que poderiam deduzir deles pela observação.

- Aquela moça ali – Sherlock apontou para uma professora que atravessava o gramado rumo ao outro prédio – Ela acabou de terminar um longo noivado.

 - Casamento. – Mycroft corrigiu – Você confundiu as mãos. E um noivado não provocaria tantas noites mal dormidas. Ela está tendo problemas na divisão de bens.

 - E se mudou há pouco tempo, as roupas dela estão amassadas.

 - Ela também tem se alimentado apenas de fast food, ao julgar pelo inchaço nas mãos e nos tornozelos. – ele encarou o rostinho confuso de Sherlock, e explicou: - São sintomas do exagero de sódio na alimentação. Fast food tem muito sódio, eles tem o sal como conservante também.

 - O ex-marido deve ser quem sabe cozinhar então, ou ela faria a própria comida – Sherlock concluiu. Mycroft até corrigiria com um “ou então ela só não está com cabeça para isso”, mas decidiu ficar quieto e dar esse gostinho de vitória ao irmão.

Sim, às vezes, ele se sentia inspirado o suficiente para ser uma boa pessoa. E depois daquela manhã na companhia de seres tão inferiores a ele, seu irmãozinho nem parecia assim tão burrinho. Comparado a eles, Sherlock era um gênio, ao contrário do que sempre pensou.

Talvez o menininho de cabelos cacheados não fosse o tal 25% evitado, mas um 75% atenuado. Ou sua inteligência só não tinha despontado ainda totalmente... Sim, podia ser.

 - Cansei desse jogo Mycroft... – Sherlock resmungou diante do silêncio do irmão – Falta muito para irmos embora?

  - Sinto lhe dizer, mas sim, falta – Mycroft parecia igualmente chateado com isso.

Nesse mesmo instante, um sino tocou ao longe, e as crianças do parquinho obedientemente desceram dos brinquedos e formaram uma fila, prontas para voltar à sala de aula. Pareciam mais com pequenos robôs, o que fez Mycroft pensar se a escola não oferecia aulas de adestramento ou coisa assim àquelas criancinhas. É muito provável que sim!

 - Acho que essa é a minha deixa... – Sherlock comentou, observando os colegas – Até mais irmão, e obrigado por ficar comigo! – ele acenou enquanto entrava no fim da fila, seus sapatos limpos e longe da areia assim como a mãe havia pedido.

Mycroft decidiu então voltar para a sua classe, e rezar para não levar uma bronca.

Ele caminhou pelos corredores, sem presa nenhuma de chegar, e parado em frente à porta, bateu levemente nela, como se pedindo permissão, e então abriu.

Oh, ele sabia que deveria ter pulado o muro da escola, ou se escondido no banheiro!

 - Onde você estava mocinho?! – a professora gritou com sua voz irritante.

Ele tirou um momento para analisá-la: ela parecia ter uns 60 e poucos anos, os cabelos estavam amarelados pelo tempo sem tinta e um embranquecimento natural, e a pele era manchada pela falta de cuidado. Ela fumava, ele julgou pela cor dos dentes, e demasiadamente. Ela cheirava a cigarro, perfume velho, barato e a coisa guardada, como mofo.

As roupas eram tão antigas que já estavam surradas e desgastadas, mas os sapatos eram novos e o salto fazia barulho contra o chão. Ela parecia triste e sozinha, Mycroft pensou, e claro que toda a frustração advinda desse status seria descontada nos alunos, e especialmente nele.

Longe de confrontar aquela mulher, ele optou pela saída que a deixaria sentimental. Ele havia notado o como ela possuía uma marca de aliança no dedo, mesmo não possuindo mais o anel. Seu corpo indicava a solteirice, pela falta de cuidado, mas uma solteirice forçada. Como ela tinha quadris largos, ele deduzia que ela havia engravidado e, como parecia sozinha, certamente havia perdido os filhos que tentara gerar, assim, tudo parecia indicar o grande motivo de ter sido deixada, e ele usaria essa informação.

Mycroft baixou o olhar e usou sua voz mais triste e sussurrada para se explicar.

- Meu irmãozinho estava chorando, senhora. Ele está no pré e não entende que mamãe não poderá ficar com ele na aula. Eu não consegui virar as costas para ele e vir para cá, não podia deixá-lo chorando. Me perdoe...

Ao final daquelas palavras ele levantou levemente o olhar e pode ver pequenas poças e lágrimas começarem a se juntar nos olhos daquela senhora. Ela respirou, tentou olhar para cima e forçar um sorriso para responder.

 - Tudo bem, apenas não repita isso, ok? Se tiver problemas, só me prometa que avisará antes, estamos combinados?

Mycroft concordou com a cabeça e pediu licença mais uma vez antes de se dirigir ao seu lugar. Havia ternura no olhar dela quando ele se sentou e ela parecia mesmo disposta a seguir com sua aula no final das contas.

Johnson passou um papelzinho para Mycroft, ele o congratulava por conseguir “enganar” a professora. Mas, claro, Mycroft se fez de desentendido, como se todo o seu discurso fosse mesmo real, o que, de certa forma, não deixava de ser, já que ele havia ficado mesmo com Sherlock.

Foi com alegria que ele ouviu o sinal de saída, e ele não pensou duas vezes antes decorrer ao encontro do irmão. Não, não era saudade, ele só estava tentando sumir de Johnson e seu auto-convite para visitar a casa dos Holmes. Na verdade, ele tentava fugir de todo e qualquer convívio social que ainda pudessem impor a ele, mas sabia que a tarefa seria complicada.

À noite, de volta as suas anotações, ele tentou explicar seu sábio aprendizado diário em suas anotações.

Preciso fazer um adendo a todo o meu comentário anterior. Sherlock não é uma parte com inteligência escassa em nossa família, tenho certeza. Hoje, ao lado de mentes inferiores, imposto a um castigo terrível que foi o frequentar uma escola para mentes comuns, eu vi o como meu irmão é apenas um pouco atrasado. Nunca vou negar a ninguém que errei, mas, daqui para frente, juro solenemente auxiliá-lo pessoalmente para se tornar uma mente tão brilhante como a minha”.

Ao final disso, ele escondeu seu livro de anotações com muito cuidado e foi dormir, torcendo imensamente para que tudo fosse um pesadelo e que o dia seguinte não precisasse estudar naquela escola novamente, embora sua mente racional o avisasse que aquilo não era sonho, ele queria se dar o direito de sonhar.




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